O negacionista e antivacina Robert Kennedy Jr

O negacionista e antivacina Robert Kennedy Jr

O cientista francês François Vannucci (1944), pesquisador em física das partículas e astropartículas, em seu livro “Marcel Proust à la recherche des sciences” (“Marcel Proust em busca das ciências”, de 2005, sem tradução no Brasil), aponta-nos um fato tão óbvio quanto importante de se refletir. Diz ele: “Há um paradoxo na sociedade contemporânea. A física está cada vez mais presente na vida cotidiana graças a numerosos progressos tecnológicos que têm sua fonte na pesquisa fundamental mais avançada. Tais progressos têm mudado completamente a vida dos homens. O público utiliza sem medo os novos produtos, mas não conhece nada da forma como são fabricados e dos conceitos sobre os quais se apoia”. Podemos tomar aí a física como uma metonímia para a ciência embutida nas diversas tecnologias que moldam nosso  cotidiano. Para Vannucci, uma constatação é “clara: os cientistas se comunicam mal”.

Trago aqui essa palavra de autoridade do físico francês para contextualizá-la ao cenário político mundial. E isso pela simples razão de que a conjuntura atual agrava ainda mais sua lúcida observação. Se a comunicação e as “relações públicas” dos cientistas deixam a desejar, o obscurantismo torna imperiosa uma melhor e continuada comunicação por parte daqueles e dos governos, o que jamais será despesa, mas investimento.

O obscurantismo, inclusive com sua cupinização da democracia, grita-nos a toda hora uma espécie de inversão do famoso dito kantiano, ou seja: “Não ouse saber”! A falsa liberdade praticada pela extrema direita não se contenta apenas com uma mitologia confusa e um casuísmo de normas: ela precisa do combustível da ignorância do povo. A pandemia da Covid-19, por exemplo, em sua emergência por si mesma tomada pela irracionalidade e pela ignorância generalizada sobre o evento, estimulou ainda mais o medo e imaginário obscurantista, piorando exponencialmente o que por si já era bastante grave.

No Brasil, dispensável dizer, o período da pandemia beirou o macabro e ensejou ainda mais corrupção. O negacionismo foi praticamente assumido como uma política pessoalmente conduzida pelo então presidente da República. O resultado não podia ser diferente do que foi: uma mortandade que não devemos nem podemos esquecer. Em boa hora, portanto, o ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal, determina a abertura de inquérito para apurar o relatório final da CPI da Covid. São crimes fartamente documentados que não podem ficar impunes e esquecidos pelos brasileiros. Sem anistia também para tais atrocidades!

De todos os obscurantismos, o que ofende a saúde e o corpo será talvez o mais abominável, o mais difícil de perdoar, o mais terrível. A batalha “pela alma” passa pela arena vulnerável do corpo, eterna vítima do sadismo dos déspotas e tiranos. Mas, como estratégia de poder, o obscurantismo é seletivo e não exclui todos os acessos a benefícios que só a ciência, após avanços seculares, traz à saúde. Os que negam a eficácia das vacinas provavelmente não se furtam a um complexo tratamento de câncer; os que se preocupam com a asma dos filhos talvez não se importem com a “asma” coletiva propiciada pela crise climática planetária, e assim por diante.

Tomados por uma mística conspiracionista, cidadãos de democracias ricas e poderosas vêm se transformando em soldados antivacinas e afrontam uma “tradição” imposta pela mão do Estado: a vacinação. Rebeldes “com causa”, escolhem agora, por assim dizer, “o lado dos vírus”, sem admitir ou perceber, em seu fundamentalismo, que a vacina interessa à coletividade. Não por acaso, nos Estados Unidos, quem está à frente do Departamento de Saúde e Serviços Humanos, é o negacionista Robert Kennedy Jr. Felizmente, a Organização Mundial da Saúde rebateu imediatamente a fala conspiracionista de Donald Trump na recente reunião da Assembleia Geral da ONU, em discurso que associou as vacinas ao autismo.  Sem dúvida, há uma incontornável fibrilação política no apagamento da razão e da ciência.

Retomando a advertência do cientista francês citado no início, é preciso que não só os cientistas se comuniquem melhor, mas também que os governos esclarecidos se posicionem fortemente com uma boa comunicação, não apenas para contradizer politicamente os obscurantistas, mas para fazerem frente aos variados medos que, por tantos motivos, assombram o povo. É necessária uma pedagogia iluminadora, criativa e permanente. Não se proporcionando esclarecimentos confiáveis às incertezas da população, os custos financeiros podem ser altíssimos, e os custos humanos, aterradores.