
COP30
O que mais me chamou a atenção na COP 30, no terceiro dia, foi o protagonismo dos povos originários, concentrados na Cúpula dos Povos, realizada na Universidade Federal do Pará (UFPA). Provenientes de nove países, cerca de três mil indígenas faziam-se presentes de múltiplas maneiras: manifestando-se nas ruas, em massa na entrada da Blue Zone e nos corredores da Green Zone. Falando e reivindicando, ou silenciosos — caminhando cabisbaixos ou vendendo seus belos artesanatos. Mas sempre com uma presença marcante.
Grande parte deles sabe que suas vidas, e as de outras espécies, vegetais ou animais, estão ameaçadas de extinção. Que é preciso mudar — radicalmente e com urgência; que os não indígenas precisam aprender a se reconectar com a natureza, da qual são parte integrante, e sem a qual não podem sobreviver.
Por isso, juntamente com os movimentos sociais, organizaram-se para trocar ideias e analisar a situação do mundo na UFPA, entre 10 e 16 de novembro. Ao final, emitiram uma declaração na qual se lê:
“Não há vida sem natureza. Não há vida sem a ética e o trabalho de cuidados. Por isso, o feminismo é parte central do nosso projeto político. Colocamos o trabalho de reprodução da vida no centro.”
Os povos originários compartilham esse sentimento de protagonismo com movimentos sociais locais, nacionais e internacionais: produtores/as rurais, quilombolas, pescadores/as, extrativistas, trabalhadores urbanos e sindicalistas, entre outros. Começaram a organizar a Cúpula dois anos antes e envolveram mais de 70 mil pessoas, percorrendo os rios da bacia amazônica. Sua tarefa central é a de “construir um mundo justo e democrático, com o bem viver para todas e todos. Somos a unidade na diversidade.” Ou seja, em meio às distopias contemporâneas, persiste o sonho utópico.
Os povos originários das Américas estão aqui há milênios. E, nesse tempo, aprenderam a conviver com a floresta sem destruí-la; ao contrário, enriquecendo-a. Muitos dos frutos e sementes que exploramos hoje — cacau, mandioca, açaí — foram disseminados por eles. Criaram cidades, sistemas agrícolas e conexões sociais sem degradação ambiental.
Uma marca que permanecerá desta COP é justamente esse protagonismo indígena e das populações socialmente vulneráveis — marca de um Brasil democrático: a participação social.
Outra impressão marcante é como Belém se transformou numa escola aberta (o sonho de Cristovam Buarque quando governador do DF). Como lugar de aprendizagem além dos muros tradicionais, a cidade ficou repleta de locais de ensino, acesso a novas informações e troca de ideias. Espaços abertos a todas e todos, como o Museu das Amazônias, o Museu Goeldi, os Mercedários, o Sebrae, a Embrapa, o Museu do Banco da Amazônia, a UFPA, a UFRA, o Mercado São Brás, o Ver-o-Peso e a Casa das Onze Janelas, para citar apenas alguns.
É realmente estimulante uma cidade com espaços acessíveis que nos ajudam a:
- Compreender melhor a ancestralidade, na exposição sobre indígenas brasileiros no Museu Goeldi;
- Entender de forma clara o que significam as mudanças climáticas, no Museu do Banco da Amazônia;
- Apreciar a complexidade, a força e a beleza da natureza no Museu das Amazônias, na exposição de Sebastião Salgado;
- Conhecer novas experiências agrícolas, mais sustentáveis e tecnológicas, na Embrapa;
- Descobrir as iniciativas dos pequenos empreendedores no Sebrae;
— e assim sucessivamente.
Os frequentadores desses espaços são paraenses de todas as classes sociais, brasileiras/os de todos os estados e estrangeiras/os dos mais variados países. São crianças, adolescentes, jovens, adultos e idosos. Uma verdadeira feira de conhecimentos e aprendizagens, com debates intensos sobre o financiamento das transições ecológicas que deverão ocorrer, mais cedo ou mais tarde, em todos os países. Uma universidade a céu aberto, com a floresta e seus recursos no centro.
Personalidades do mundo inteiro circulavam pela COP e pela cidade. Cientistas de todas as partes. Era um rebuliço contínuo, dia e noite. Em painéis e mesas-redondas, discutiam-se os temas candentes da sociedade contemporânea:
- A necessidade de mudar de rumo, substituindo o modelo econômico intensivo em carbono por um de baixo carbono;
- Novas tecnologias para produzir sem degradar o ambiente;
- Economia circular, economizando recursos naturais e prolongando a vida útil das mercadorias;
- Redução de materiais nocivos e eliminação dos plásticos de uso único;
- Formas mais eficientes e menos custosas de manejo;
- A agregação de valor nos produtos da sociobioeconomia.
Uma infinidade de temas, para os quais seria necessária uma dezena de páginas apenas para listá-los.
Houve ainda as atividades culturais, espalhadas pelos dez espaços dedicados a elas: danças, cantos, peças de teatro e performances em locais de livre acesso. Uma expressão diversa de culturas e cosmovisões. Uma festa de celebração da diversidade, elemento intrínseco da vida democrática e característica valiosa do gênero humano.
Os frequentadores desses espaços aprendem, se encontram, conversam, reencontram velhos amigos e fazem novos, trocam ideias e contatos. Ampliam seus conhecimentos e suas conexões.
Pena que o chanceler alemão não tenha tido olhos para ver, nem ouvidos para escutar — confirmando nossa música: “quem não gosta de samba, bom sujeito não é; é ruim da cabeça ou doente do pé.” Ao contrário dele, milhares de alemães vieram e ficaram, integrando e enriquecendo a diversidade cultural do Brasil. Sem racismos e sem preconceitos. Pobre de espírito uma criatura dessa natureza.
Esses belos espaços, infelizmente, têm pouca capacidade de tocar a sensibilidade e a inteligência dos decisores. Diz-se que o número de representações nacionais na COP 30 superou o das edições anteriores, embora muitas delegações tenham vindo com menos participantes — sobretudo dos países pobres, mas também de nações da União Europeia e da China. Mais representações, menos membros. A grande ausência foi a dos Estados Unidos. Se as decisões já são, normalmente, pouco cumpridas — pois dependem do consenso entre todos os países — imagine sem a presença da maior potência global.
Assim, ficamos com uma festa bonita, porém — provavelmente — com decisões pífias (mantendo a tradição). Sobre isso falaremos no próximo, e último, artigo.
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