Crime organizado e Estado

Crime organizado e Estado

Quando se fala em crime organizado, a primeira imagem costuma estar associada aos dois poderosos grupos criminosos — o PCC e o Comando Vermelho — que controlam cerca de 20% do território nacional, como quase Estados paralelos tomados do Estado brasileiro. Esta é a face mais visível do crime organizado no Brasil, marcada pela escala da violência e pelo domínio territorial.

Mas o Estado brasileiro está contaminado por dentro por diversos grupos criminosos que nem sempre precisam de armas, combinando corrupção, fraudes, troca de favores, lavagem de dinheiro, coerção, extorsão e ameaças. A atuação desses grupos penetra em praticamente todas as instituições da República — na política, no Judiciário e no sistema financeiro — irradiando poder e influência nos núcleos duros do Estado brasileiro.

Para dominar territórios, esses grupos precisam de um exército. Para corroer o Estado por dentro, os meios são outros, mais refinados, quase sempre envolvendo corrupção em larga escala, movimentação financeira sofisticada e, quando necessário, intimidação e ameaças.

Na verdade, é cada vez menor a diferença entre os dois tipos de organizações criminosas — PCC e Comando Vermelho, de um lado, e criminosos de “colarinho branco”, de outro —, assim como se tornam mais evidentes as formas de cooperação entre eles. O PCC e o Comando Vermelho também estão infiltrados nas instituições brasileiras, apoiando e elegendo políticos, investindo em negócios formais para dar aparência de legalidade às suas operações e utilizando o sistema financeiro em sofisticados esquemas de lavagem de dinheiro. Da mesma forma, o grupo criminoso de Vorcaro contava com uma espécie de milícia privada capaz de “quebrar os dentes” daqueles que tentassem impedir suas operações, além de um “núcleo de serviço sujo” destinado a coagir testemunhas, jornalistas e intimidar funcionários.

O escândalo do Banco Master é emblemático pela amplitude de sua atuação criminosa, pela presença e pela cooptação de figuras destacadas das instituições da República. Além das suspeitas de fraude financeira, corrupção, desvio e lavagem de dinheiro, as evidências indicam que Vorcaro teria corrompido funcionários do Banco Central, montado uma rede de operadores a serviço de suas atividades criminosas e contado com o apoio de políticos influentes no Congresso e em alguns estados da Federação, alcançando até mesmo integrantes do Supremo Tribunal Federal.

De forma crescente, o crime organizado penetra e impacta a política brasileira. Quase ao mesmo tempo em que o governo federal anunciava, com estardalhaço, mais um plano de enfrentamento ao crime organizado — voltado aos grupos armados que controlam territórios —, a Polícia Federal descobria conversas de Vorcaro indicando que o banqueiro concedia uma milionária mesada ao senador Ciro Nogueira, um dos principais líderes do Centrão.

Pouco depois, o Intercept divulgou uma mensagem em vídeo do senador Flávio Bolsonaro, candidato do bolsonarismo à Presidência da República, pedindo dinheiro ao banqueiro, supostamente para financiar a produção de um filme sobre seu pai.

É lícito duvidar da eficácia do plano de enfrentamento ao crime organizado, sobretudo no restante do atual mandato presidencial. Entretanto, a revelação da mensagem de Flávio Bolsonaro pedindo recursos ao banqueiro mafioso já provoca um terremoto político no bolsonarismo, com possíveis impactos relevantes nas eleições de outubro. De imediato, o episódio favorece a reeleição do presidente Lula da Silva. Ao mesmo tempo, pode estimular um descolamento da direita civilizada em relação à liderança da extrema direita bolsonarista.