Comunicação?

Comunicação?

Michel de Montaigne (1533–1592) escreveu que seu temperamento tendia à comunicação, ao convívio e à amizade. Em livro sobre o pensador francês, “Como viver ou uma biografia de Montaigne em uma pergunta e vinte tentativas de resposta”, a escritora inglesa Sarah Bakewell realça esse traço do autor dos “Ensaios”: “A conversação é algo que aprecia mais que qualquer outro prazer. De tal maneira precisa dela que preferia perder a visão que a audição ou a fala, pois conversar é melhor que ler livros”.

Hoje a neurociência comprova que Montaigne estava certo. Faz bem ao cérebro ser sociável, e isso é como que parte essencial  de uma vida saudável. Claro que nem todos são extrovertidos como Montaigne; nesse sentido, há um gradiente, muito embora seja certo que a sociabilidade e, por conseguinte, a conversa são chaves que abrem muitas portas, inclusive as da saúde e do bem-estar. Ocorre que esse bem-estar está sob ameaça.

Dois autores contemporâneos (naturalmente, existirão outros debruçados sobre o tema) convergem, cada um a seu modo, no diagnóstico dessa crise de comunicação: o sociólogo europeu David Le Breton e o neurocientista americano Ben Rein, este o autor de “O cérebro precisa de amigos: a neurociência da conexão social”; aquele o autor de “O fim da conversa? A palavra numa sociedade espectral”, ambos os livros publicados no Brasil agora em 2026.

Ben Rein nos alerta que o cérebro é o único órgão que sente solidão e que o seu isolamento deteriora a saúde física e mental. Ao revés, ser sociável, como já intuía Montaigne, “é uma das maneiras mais eficazes de aumentar a felicidade”. E mais: as interações sociais são como uma boa noite de sono. Em poucas palavras, a natureza nos configurou para as conexões sociais. Do ponto de vista neuroquímico, o sistema de recompensa social do cérebro é movido por ocitocina, dopamina e serotonina. Essas três substâncias são liberadas para nos gratificar por nossas interações sociais.

Todavia, enfatiza Rein, “a humanidade parece estar afundando cada vez mais no isolamento. É mais comum ficar navegando pelas redes sociais do que ligar para  um amigo”. Os aplicativos, os celulares e a vida digital como um todo, com sua automação e sua mediação fria e constante, estão fazendo com que nós interajamos cada vez menos com as pessoas. As estatísticas são alarmantes, e o fato cru é que passamos cada vez menos tempo com familiares, amigos e colegas, com gente real e de fato presente. A solidão vem aumentando.

O neurocientista americano nos aconselha a conversar mais, inclusive com estranhos. Nesse ponto, confesso que fiquei feliz de perceber a afinidade com o que venho dizendo e pregando faz certo tempo, pois, desde alguns anos, por experiência própria, observo que pessoas desconhecidas, salvo raríssimas exceções, estão, por assim dizer, loucas para conversar. O autor arremata alguns achados de recentes pesquisas neurocientíficas com esta consideração: “Não importa onde as pessoas estejam, parecem ter uma experiência melhor quando conversam com desconhecidos”. Mas será preciso dizer que estamos vivendo na contramão desse científico achado?

Já no seu “O fim da conversa?”, o sociólogo Le Breton aponta de saída para o smartphone, do qual já se fala que no futuro poderá ser implantado no próprio corpo… Por falar em corpo, é justamente “a supressão do corpo do outro na interação que elimina todo constrangimento”, como o provam os insultos das redes sociais. No geral, o ambiente físico e humano é percebido de modo “apenas acessório”, passando a segundo plano. Dessa forma, como um “fetiche contemporâneo, um fim em si mesmo”, o smartphone, de par com a comunicação eletronicamente mediada, faz o sociólogo observar que estamos diante “de uma profunda ruptura antropológica: a emergência de um novo mundo da palavra e da relação com o outro […]”. Na prática, já estamos vivendo num mundo de zumbis ou, noutros termos, numa “sociedade espectral”.

A conversa atual não é mais uma arte de estar juntos. Perde-se inclusive a capacidade de ter empatia. Breton nota que, nas calçadas das cidades, há uma “desaparição do rosto”, o que vê como um “sintoma da desaparição da conversa”. Todos os passantes estão absorvidos e capturados pelos celulares. Nesse novo mundo, “é preciso falar por falar; melhor a insignificância do que o silêncio”…

Em suma, sem que aparentemente tenham se lido um ao outro, Le Breton expressa, por outras palavras, a mesma preocupação do neurocientista ao afirmar que “Conectividade não é sociabilidade”. A ruptura antropológica encontra-se com a ruptura orgânica, neurológica, que vem suprimindo do cérebro algo essencial a seu pleno florescimento.  A perda é imensa. Afinal de contas, ter amigos e conversar são dois dos melhores prazeres da vida.