
Um equilíbrio delicado
É tanto pitaco na interpretação do que aconteceu em 4 de outubro, tanto palpite bizarro em declarações de voto a posteriori e sobre os movimentos a esperar até o dia 25, que vou acrescentar meus palpites: alta tolerância ao risco, por parte dos eleitores, e de Lula também, na sua busca do quarto mandato. Os eleitores cansados de mais um governo Lula se lançaram no escuro, se meteram num buraco, apostaram no desconhecido, sem raciocínio, sem observar dados e fatos, sem avaliar os riscos.
Provas não tenho, mas tenho uma percepção de que a tolerância ao risco, em geral, é alta na sociedade brasileira comparada a outros países. Há quem diga o contrário, que o brasileiro nem tem especial tendência a assumir riscos, estaria num padrão médio entre os países. Citam pesquisa em que se perguntou a uma amostra de cidadãos, em diferentes países, em que nível se colocavam numa escala de 0 a 10, na disposição de assumir riscos. Só que o que eu percebo é algo mais difuso, não é a quantia limite em que a pessoa opta entre o recebimento garantido e o risco de não ganhar nada. Tal avaliação pelo limite entre remuneração certa e lucro incerto talvez explique o paradoxo de que, no Brasil, o mercado acionário é pouco desenvolvido em relação ao tamanho de sua economia e população, é relativamente menor a proporção dos que se arriscam na compra de ações de empresas. Mas, por outro lado, sofre a febre das bets.
O que lembro é da quantidade das ultrapassagens arriscadas e dos acidentes de trânsito, de veículos e pedestres passando no sinal vermelho e acelerando de última hora no sinal amarelo; dos que jogam nas bets o dinheiro que está faltando, no sucesso de qualquer brincadeira de apostas e da popularidade do “bolão” de apostas; o número dos que esquecem de tomar suas vacinas; dos cachorros que encontro na rua sem coleira, e ninguém sabe se são vacinados ou não. E mais: as estatísticas sobre empreendedorismo e enorme abre e fecha das empresas, sobretudo das pequenas empresas; ou a preferência pelo trabalho por conta própria, com mais flexibilidade do que permitem os contratos de trabalho na rigidez da legislação trabalhista. Até a quantidade de vezes que os bombeiros foram salvar perdidos em trilhas na selva e na montanha, e a proporção dos que experimentam esportes de aventura por pura diversão, como mergulho, paraquedismo, bungee jumping, canoagem em corredeiras. E um certo desinteresse por seguros e por alguma poupança para situações de emergência; o número elevado dos que não contribuem para a previdência; a facilidade com que se tomam decisões sem reunir os dados do problema. Em suma, um ambiente geral em que precavidos são minoria.
E precavido o Presidente Lula não foi. Longe disso. Houve muitas vozes a propor que ele não se candidatasse em 2026. Não chegaram a ponto de insistir na idade, como na história de Joe Biden, e nem foi um vozerio tão alto quanto o que se levantou contra a candidatura Biden. Imagino até que Lula deve ter sido encorajado pelo fato de que a desistência de Biden não impediu a derrota do Partido Democrata nos Estados Unidos em novembro de 2024. Mas aqui se ouviu muito a palavra “cansaço” e “desgaste de material”, tempos atrás. Aqui mesmo na “Será?” tivemos há algum tempo o artigo Sergio C. Buarque argumentando pela indicação de um tertius, com o empenho de Lula em favor de algum candidato com aceitação mais ampla para além do PT mais antigo, como poderiam ser Alkmin e Haddad. (Sérgio C. Buarque, “O Brasil Pós-Lula? Quando?”, na Será? de 3 de abril de 2026) As reações de petistas nos comentários foram as de que só Lula poderia derrotar Bolsonaro. E houve leitor que então reagiu xingando a revista de “antilulismo explícito”, de ter “ranço elitista” e saudades de Paulo Guedes. Não se falou ainda na influência de Janja.
Muito antes, já em outubro de 2023, houve quem sugerisse que Lula deveria preparar um sucessor para as eleições de 2026. É impressionante como se fala em reeleição de Lula já desde o começo do 3º mandato. Em outubro de 2023 havia fortes rumores de que Lula pensava em indicar Dino para o STF -Supremo Tribunal Federal. Naquela ocasião já houve uma movimentação/especulação de que Lula, em vez disso, deveria deixar Dino em um cargo em que pudesse prepará-lo como sucessor. Dino acabou nomeado para o STF na vaga de Rosa Weber. E o STF se transformaria, com ou sem Dino, na baderna que acabou prejudicando a votação de Lula.
Chorar sobre leite derramado não resolve. Mas recordo que tais propostas de uma sucessão só chegaram a ser formuladas e apoiadas por gente que não era contra Lula, apenas admitia um risco de Lula não se reeleger. Na época, abril de 2026, comentei na “Será?” o artigo de Sérgio C. Buarque: “A ideia e a argumentação de Sergio C. Buarque é a que faz mais sentido, ou pelo menos é a que me permite ter ainda alguma esperança sobre o panorama eleitoral para outubro. Isso porque está baixa a probabilidade de que o Presidente Lula consiga se reeleger. Com o apoio de um chamado centro ganhou por pouco em 2022. Pois então optaram por Lula os que não tinham entusiasmo nem por Bolsonaro nem por Lula, quando a Tebet não deslanchou. Em 2022, Lula prometeu à Gleisi Hoffmann “não farei um governo do PT”, mas isso não foi cumprido, esqueceu da “frente ampla”, que virou “aceitação das emendas parlamentares”. Escapou de uma estagflação dilmista porque o Banco Central se manteve independente e responsável, mas neste momento o PT está propondo um programa que dobra a aposta na irresponsabilidade fiscal e no aumento da dívida pública, sem qualquer aceno para os que estão tentando escapar desse aflitivo “Lula versus dinastia Bolsonaro”. Como se fosse a taxa de juros a causa do aumento da dívida e como se o juro aumentasse por culpa do BC. E esquecendo que a derrota de Haddad em 2018 aconteceu também porque este não tentou nenhum arco de alianças. Mais ainda, na atual conjuntura, a defesa de uma noção abstrata de democracia, i.e., o argumento de votar contra golpistas, se tornou mais difícil porque piorou a desmoralização da nossa Suprema Corte e do Judiciário.”
Entre as hostes de Lula nunca se considerou seriamente a possibilidade de Lula não ser reeleito. Alguém lembrou que é difícil lidar com um mito. E a liderança partidária que se movia para a direita parecia feliz em ter Lula como adversário. E assim se repetiu 2018.
Foi excesso de tolerância ao risco? Talvez os estrategistas do PT jamais pensaram no risco de Lula perder. Certamente houve um erro de avaliação do risco. E, como em 2018, foi tênue, estreita, a atenção à construção de alianças. E agora, a 17 dias do segundo turno, é meio tarde para buscar alianças novas. Só quem acredita em milagre. Mesmo o Avante de Augusto Cury, um partido minúsculo, insistiu tanto em seu programa de centro, na posição bem definida de que não endossava nem um nem outro dos candidatos à frente nas pesquisas, que é difícil imaginar que opte por Lula. Ainda menos agora, depois de observar os resultados do 1º turno.
Basta olhar a lista de derrotados. Até alguém tão popular como João Campos, no Recife, não se beneficiou de uma aliança com Lula. Em São Paulo a ligação com Lula teve efeito devastador. Só uma onda anti-PT, um efeito de manada irracional, explica que tenha perdido alguém com o currículo e a honradez de Simone Tebet contra Guilherme Derrite, um policial da ROTA que foi afastado do patrulhamento porque seus superiores consideraram excessiva a letalidade nas operações em que esteve envolvido, como o caso Barracuda. Não foi condenado por homicídio, mas a sua ideia de política de segurança é apenas “matar ladrão”. Eis o perito em segurança do bolsonarismo. Os petistas que o chamaram de “assassino” jamais suspeitaram que pudesse chegar a Senador. Difícil de entender mesmo sabendo que o PL usou a maior de todas as parcelas do Fundo Eleitoral.
Os eleitores, preocupados com segurança, ladrões, as dívidas, o pão de cada dia e muito mais, simplesmente se meteram num buraco. O salto no escuro está dado. Já não dá para corrigir agora. Quem sabe daqui a quatro anos. É quase uma questão de aritmética. Quem anula voto pensa muito, então dos quase 6 milhões de votos nulos não sairão quase 3 milhões, a metade, para cancelar os 2,6 milhões de Caiado e mais 300 mil de Zema que irão para Flavio. Augusto Cury insistiu tanto que era igualmente contra Lula e contra Flavio que os seus 3,4 milhões se dividirão, não vejo como possam cobrir o rombo de 2,228 milhões que separam Lula de Flavio. A barafunda do sistema partidário brasileiro é grande, então mais 6 partidos nanicos apresentaram candidatos a Presidente que tiveram cada um 0,1% ou menos dos votos válidos, num total de 588 mil. É até possível imaginar que votem Lula. É suficiente? Há as abstenções, os 33,4 milhões de eleitores que não compareceram no 1º turno. Quantos deles comparecerão no 2º turno? Não tenho grande esperança, que essa abstenção, que vem subindo gradualmente desde 2006, e bateu um recorde de 21% dos eleitores aptos a votar, parece ter relação com a polarização cada vez mais acentuada que resulta no que se pode chamar de “preguiça de escolher”. Seria preciso entender melhor porque tão alta a abstenção. Pois curiosamente, em 1998 a abstenção foi até maior, de 21,5%, mas aí a razão foi a oposta, já estava claro que Fernando Henrique Cardoso ganharia no primeiro turno.
Até quando a gangorra da polarização? Até quando votaremos em quem não aprovamos para evitar quem rejeitamos mais? Quando conseguiremos construir consensos para melhorar as condições de vida no Brasil? Mesmo o mercado, que tem evidência zero para alguma responsabilidade fiscal em Flavio Bolsonaro, parece reagir à sua “certeza” de que com Lula não haverá ajuste fiscal. Mas esse já é outro componente destas eleições.
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