Pages Navigation Menu

Penso, logo duvido.

A civilização na encruzilhada – Sérgio C. Buarque

Sérgio C. Buarque

Peter van Agtmael (Agência Magnum) 2012 USA Scenes from Breezy Point.

Peter van Agtmael (Agência Magnum) 2012 USA Scenes from Breezy Point.

“A civilização na encruzilhada” é o título de um livro publicado na década de 60 do século passado escrito e coordenado pelo filósofo tcheco Radovan Richta, que explorava os dilemas que a humanidade iria enfrentar diante da acelerada revolução tecnológica com suas implicações sociais e humanas. Quase na mesma época, o Clube de Roma publicou o famoso relatório intitulado “Os limites do crescimento”, com outra dramática advertência para o futuro: para continuar o ciclo de crescimento da economia o planeta sofreria uma dramática pressão antrópica decorrente da industrialização e da exploração maciça de recursos naturais.

O futuro chegou e quase 50 anos depois da publicação destes dois documentos, a civilização continua diante de um dilema grave nesta corrida desenfreada de consumo e de crescimento produtivo que não leva a lugar nenhum, exceto ao abismo. A não ser que faça uma escolha correta, normalmente a mais difícil, diante desta encruzilhada, as advertências do Clube de Roma foram adiadas mas continuam atuais.

De qualquer forma, podemos pensar, de ameaça em ameaça, desde Thomas Malthus, o mundo continua avançando e, convenhamos, melhorando em muitos aspectos de condição de vida da humanidade, embora com a exclusão de uma parcela significativa da mesma. Quando Malthus escreveu seus ensaios sobre a população, no início do século 19, o mundo tinha pouco menos de um bilhão de habitantes e a economia era essencialmente agropecuária. Segundo ele, o crescimento exponencial da população não seria acompanhado pela produção de alimentos, que cresceria de forma aritmética e com custos crescentes, antevendo o desastre no longo prazo. As mudanças tecnológicas desmoralizaram a teoria malthusiana e a produção de alimentos deu saltos espetaculares ao longo de dois séculos.

O relatório do Clube de Roma foi publicado mais de um século depois de Malthus, quando a população mundial já batia os 3,7 bilhões de habitantes, a esta altura com uma grande voracidade consumidora de energia e bens industriais. No ano 2000, já éramos 6 bilhões de habitantes, mas novos ciclos de inovação tecnológica permitiam a ampliação da produção agrícola e industrial e a geração de energia. Malthus e o Clube de Roma foram jogados no esquecimento, embora ainda existisse um bilhão de miseráveis e houvesse uma crescente degradação ambiental no planeta.

No entanto, com dois séculos de atraso, por razões diferentes e apesar de grandes inovações tecnológicas, as advertências de Malthus se manifestam agora como uma revolta da natureza contra o acelerado e descontrolado consumismo da população, amplificado pela expansão demográfica. Com um PIB de US$ 70 trilhões, baseado em energia fóssil, o planeta já não é sustentável nos padrões atuais com os 7 bilhões de habitantes. Em 2050 (daqui a pouco), estima-se uma população mundial de 9 bilhões de habitantes e o PIB mundial deve passar de US$ 280 trilhões, um salto de quatro vezes, atendendo ao desenfreado consumismo global.

A natureza não sofre mais porque, lamentavelmente, cerca de 2 bilhões de pobres ainda estão marginalizados do consumo, porém, a cada melhoria de renda e redução da pobreza, uma parte destes bilhões entra na festa, ampliando a demanda mundial por produtos e energia. Se não houver uma alteração no perfil e na intensidade do consumo de bens industriais e energéticos, a corrida de nove bilhões de pessoas alucinadas nas gôndolas dos mercados levará o planeta ao desastre. E a natureza se vinga e se revolta contra a civilização. Os que já estão na farra – os cidadãos dos países ricos e os ricos dos países pobres – não querem renunciar à compra da última novidade e dos novos produtos que se multiplicam no mercado; e os dois bilhões de pobres no mundo que estão excluídos desejam, com razão e direito, participar da festa.

Novas tecnologias podem moderar ou adiar este cenário. A civilização vem, com algum sucesso, empurrando a encruzilhada para frente, adiando as decisões, evitando fazer escolhas e torcendo para que estas tecnologias possam sempre contornar os problemas; mesmo que estas criem novos desafios e problemas humanos, sociais e ambientais, tudo para preservar esta corrida irracional de consumo. Mas a velocidade de crescimento do consumo tende a superar a capacidade de inovação e difusão de tecnologias, mesmo porque são as inovações que estão inundando o mercado com novos encantadores brinquedos para o fascínio dos consumidores, dos que podem comprar e dos que apenas sonham.

O dilema da humanidade neste início do século é simples: mais consumo ou mais consumidores? A inserção de dois bilhões de novos consumidores, esta massa de marginalizados, dentro do padrão dominante nos países desenvolvidos, para alcançar justiça, multiplicará dramaticamente a produção e, portanto, a pressão sobre o meio ambiente. Em outras palavras, se não houver uma mudança no nível de consumo e no padrão do consumo mundial, sobram duas alternativas: desastre ambiental ou marginalização social. Ou, o que seria pior e provável, uma combinação dos dois com a convivência do consumo conspícuo e desenfreado, de um lado, e a persistência de marginalização social e pobreza, de outro. Pode ocorrer um “milagre” tecnológico que quebre o impasse e adie mais um pouco a encruzilhada civilizatória. Mas, vamos esperar por este “milagre”?

 

5 Comments

  1. Além das sábias preocupações de Sergio há, dentre os que apenas sonham com bugigangas, mas não podendo t~e-las, tomavam-nas.
    Já é clássico o dialogo ente a madame assaltada que alega serem as suas joias apenas bijuterias e o “bandido” dizendo que a “nega” dele também gostava do falso brilhante.
    Aqui, em Olinda, havia um grupo de corredores que saía, ao alvorecer, até o Marco Zero, lá nos mascates. Pivetes, na Agamenon, tomaram-lhes os tênis e já saíram trocando as sandálias de borracha pela bugiganga cobiçada.
    Cuidado consumidores. essa nem Malthus sacou talvez por não ouvir o Datena.

  2. Considerando-se, como disse o autor deste artigo bastante interessante,que já se passaram quase 50 anos e o planeta, em geral,mantem-se estável ou com pequeno declínio nas condições ambientais, apesar do crescimento populacional e do consumo de energia.
    Assim o meu comentário, a guisa de estimular o debate, é o seguinte:
    não seria mais profícuo que os catastrofistas, grupo no qual não incluo o articulista,abandonassem as posições radicais e as previsões baseadas em dados muitas vezes imprecisos, e começassem a avaliar cientificamente os dogmas pelos quais se pautam?
    Há várias medidas de cunho ambiental e já adotadas inclusive nos denominados ricos que, se analisadas friamente são, no mínimo, de efeito duvidoso. Um exemplo é o de reaproveitamento de papel sendo justificado para poupar o corte de árvores. Estas tem um finalidade importante e que muitas vezes não é considerada ou até ignorada, qual seja a absorção de gás carbônico(CO2)durante seu crescimento,eis que árvores antigas não mais cumprem esta função e deveriam ser replantadas. Assim é que o aproveitamento de papel usado não deve ser considerado intrinsecamente como “poupador” de florestas, eventualmente, por questões de logística, o “vai e vem” de rejeitos para aterros sanitários venha a produzir mais gases ambientalmente nocivos que a queima controlada de lixo.
    Em suma:o enfoque deve ser sempre a busca da solução ambientalmente menos nociva, em vez de se partir de conceitos imutáveis.
    Atenciosamente
    Ednardo Melo

  3. Ao ler artigo do Sergio C. Buarque, confirmo a ideia de que o problema moral do capitalismo não é mais o lucro ou a propriedade privada, é a voracidade do consumo necessária ao aumento do lucro.

  4. O teu artigo, Sérgio, poderia se sustentar, pela relevância do assunto tratado – o dilema da sociedade de consumo versus o meio ambiente – sem você precisar ressuscitar defuntos de triste memória: Malthus e o Clube de Roma. A teoria de Malthus, como você próprio reconhece, foi ultrapassada pelo desenvolvimento da tecnologia aplicada à produção agrícola. Teoria preconceituosa contra os pobres e muito combatida pelos demógrafos sérios num certo momento em que o governo americano (em 1968 eu diria sem pejo, os imperialistas), além de todas as demais interferências no seu quintal da América Latina, também queria impor o controle da população. Quando se sabe que a queda do crescimento da população está relacionada positivamente aos níveis de desenvolvimento do país ou região. O dilema de que você trata não estava no cerne da teoria de nenhum desses defuntos.

  5. Teresa

    A referência que faço a Malthus e ao Clube de Roma é importante no meu artigo porque pretendo destacar que o fracasso das suas previsões tem levado a imaginar que tudo estará bem no futuro já que a tecnologia, que derrubou as hipóteses deles, vai também nos salvar, mesmo com a enorme multiplicação da população e o acelerado consumismo que, não é mais dramático porque 1/3 da população está fora da festa. Será? As previsões de Malthus ocorreram numa época em que quase não existiam inovações na agricultura; e se não fossem as novas tecnologias agrícolas, o mundo teria enfrentado crises agudas de fome no mundo e convivido com grande inflação de alimentos (como houve em anos recentes) se os 800 milhões de esfomeados no planeta passassem a se alimentar com as calorias mínimas necessárias. As advertências do Clube de Roma foram bem mais sofisticadas e amplas e já introduziam o risco de uma catástrofe ambiental por conta do crescimento. As previsões não se confirmaram pelos enormes avanços tecnológicos e pela introdução de políticas que preveniram algumas tendências. E para o futuro? Confiamos que tecnologias mágicas vão equacionar todos os problemas?

    Por outro lado, Teresa, mesmo sem assumir a defesa e a posição dos autores (Malthus e Clube de Roma) não considero adequado e justo classifica-los como “defuntos de triste memória”, menos ainda como teóricos a serviço do imperialismo, bem no estilo das teorias da conspiração. No seu tempo e nas suas circunstâncias e apesar de hipóteses questionáveis, Malthus e o Clube de Roma foram precursores da incorporação da natureza na análise econômica e no desenvolvimento. O grande equívoco do Clube de Roma, que terminou por contaminar toda a base analítica, reside na proposta errada e inviável de crescimento zero da economia. Não vejo também nada de “preconceito contra os pobres” no estudo “Os limites do Crescimento”; acho que, ao contrário, existe é uma aversão ao trabalho por parte de muitos intelectuais, muitas vezes sem o conhecer e sem compreender as suas hipóteses e fundamentos. Incomodados com o equívoco da proposta de crescimento zero, rejeitam todo o estudo, rejeitam até mesmo o grupo de pesquisadores que realizaram o estudo. Preconceito?

Leave a Comment

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *