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Penso, logo duvido.

Autocrítica? – João Rego

Galileo Galilei Before Members of the Holy Office in the Vatican in 1633 -By:Joseph-Nicolas Robert-Fleury (1847)

Galileo Galilei Before Members of the Holy Office in the Vatican in 1633 -By:Joseph-Nicolas Robert-Fleury (1847)

João Rego.

Recebi vários comentários sobre meu recente artigo Crise e Democracia, publicado aqui na Revista Será?. Um deles, entretanto, me inquietou. Era apenas uma palavra me interrogando “Autocrítca? ”. Esse enigmático comentário pode ser interpretado de duas formas: a primeira, como um elogio por estar mudando minha visão de mundo, posto que a realidade muda; a segunda, como uma crítica por que estou abandonando antigos ideais.

O autor é um velho amigo militante de boa cepa do PT que, assim como muitos outros, há décadas, dedicam todas as suas energias em busca de transformar a realidade social e política, cunhada pela sua ideologia. Gente valiosa para questionar o status quo.

Vejo aqui uma oportunidade para esclarecer alguns pontos relevantes sobre minha crítica à forma como algumas pessoas são infantilmente capturadas pelo discurso do líder político. Uma captura que turva-lhes a capacidade de ver a realidade com suas diversas facetas.

As sociedades em que vivemos hoje não surgiram do nada, são resultado de complexos processos evolutivos ao longo da história. As relações entre líder e liderados eram práticas primitivas guiadas por costumes totêmicos, onde o totem representava sempre algo místico, divino, que tinha poderes sobre o tempo, os astros, a colheita, sobre a vida e a morte. O líder era um igual que, uma vez colocado naquela posição, incorporava aqueles poderes.

O Estado Moderno, as religiões e seus aparelhos ideológicos são herdeiros diretos daquelas sociedades. Por mais que nos vejamos distantes delas, alguns traços primitivos persistem latentes, indestrutíveis— imunes ao tempo. Basta que as condições sejam favoráveis, para eles emergirem com toda a força, moldando o comportamento humano como se estivéssemos vivendo ainda na pré-história. Um exemplo claro e incontestável são as guerras. O caso mais recente, e que se destaca pela extrema crueldade, são as ações do Estado Islâmico, queimando pessoas vivas em jaulas, decapitando reféns num espetáculo de horror inaceitável para nossos padrões de civilização.

Ajustando um pouco mais nossas lentes para entender essa relação líder e liderados, a primeira compreensão é a de que o líder carrega significantes que os liderados, vendo-se desprovidos destas qualidades e as desejando ardorosamente, identificam-se e as projetam à figura do líder – numa sublimação que os completam e, algumas vezes, os levam ao êxtase. Os mecanismos psíquicos dessa operação são os mesmos dos primitivos: tudo se passa pela via do inconsciente e encontra, nos misteriosos caminhos do afeto mais dos que nos da razão, os meios para alcançar expressão. É por esta mesma trilha, pavimentada pelas identificações e suas relações transferenciais com a figura paterna, que a submissão do liderado é materializada, infantilizada, perante a poderosa figura do líder. Tudo isto se dá em um perigoso processo de alienação do sujeito, o qual, como um sintoma, o constitui.

As leis que moldam e sustentam os estados democráticos e suas instâncias de representação compõem importante envoltória sobre os costumes bárbaros — um extraordinário avanço na história, embora muito recente. Os partidos políticos e suas ideologias são instâncias operativas desses modelos modernos de governo. Entretanto, assim como nossas necessidades fisiológicas são as mesmas desde as mais remotas eras – afinal, os orifícios pulsionais do nosso corpo estão onde sempre estiveram—, a relação do sujeito com seu líder carrega também traços atávicos de quando dançávamos em êxtase e fazíamos sacrifícios diante do sumo sacerdote para que tivéssemos boas colheitas.

Autocrítica? Sempre.

Diante destas poderosas forças que nos impelem à vida alienados dos nossos próprios desejos – essência da nossa existência—, a autocrítica na práxis política deve ser uma prática sistemática e permanente, individual e coletiva. Uma espécie de antídoto, através do conhecimento, contra estas instâncias que operam no submundo de cada um de nós, aprisionando-nos a uma realidade que somente existiu no passado e que, como mortos vivos, atormenta, sem tréguas, os espíritos de alguns no presente.

 

***

4 Comments

  1. Valeu, João, belo escrito. Também sou dos que acham fundamental a crítica e a autocrítica. Pena que poucos a exercitam. Não podemos vestir a realidade de hoje com camisa de ontem. Uma questão são os princípios humanistas (dos quais não podemos nem devemos abrir mão) e outra é a compreensão de uma realidade sempre dinâmica e em processo contínuo de transformação. Portanto podemos e devemos mudar alguns critérios de análise, para não vestir a realidade de hoje com camisa de ontem. Valeu!!!

    • Caro Sílvio
      Um depoimento sobre minhas reflexões vindo de você, que viveu com intensidade os anos de chumbo, fortalece o poder dessas ideias as quais, espero, ecoe nos espíritos de alguns. Não muitos — o que seria esperar demais —, apenas alguns e já me dou por realizado.
      Um forte abraço.

  2. Tem ainda, além da projeção no Totem, o canibalismo do bem, isto é, aquele em que a rapaziada comia o adversário pera incorporar as suas virtudes. Deixo de lado o canibalismo do mal, exercido em prisões de estados mal administrados por décadas.
    Se me prover de uma perna de Cunha ou de um dedo de Malafaia reforço meu “direitismo” e, sem pagar dízimo, torno-me puro, livre dos pecados?
    Se eu saborear uma coxa de… eita! Procurei a de um “esquerdista” e não encontrei um totêmico e deglutível, mesmo empurrando, com uma boa, das de Minas. Quem sabe um toutiço de João Rego, pois ele foi e, se não é mais, deve estar entranhado.
    Essa dificuldade é devido ao fato que há tantas esquerdas que fica difícil achar um totem paradigmático.
    Anos atrás eu pensava que sabia essa diferença. Hoje duvido. Tento, axiólogo preguiçoso, ficar com a mais simples: os que se sentavam à direita do Rei na Assembleia dos Estado Gerais eram os quem queria deixar as coisas como estavam e os que preferiam as cadeiras à esquerda eram que queriam mudar as coisas, de diversas formas, dos três poderes de Carlos Luís de Montesquieu até Zé Inácio Guillotin.
    Aí lascou tudo: à esquerda e à direita era do ponto de vista da cadeira do Rei.
    Que Rei sou eu?
    Sei que minha coroa não é de ouro nem de prata. Quem sabe, de bonina disfarçada.
    Apenas contribuinte, patrão de empregada doméstica, aposentado pelo INSS, eleitor, infiel por trocar Luciano Pinheiro por Bibi Ferreira e ledor da “Será?” e é nesta que a porca torce o rabo.
    Sérgio Buarque, por favor, elucide (me).

  3. Eita João: Não deixa margem pra comentar! Assunto esgotado, PARABENS

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