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Penso, logo duvido.

Charlie Hebdo e a delinquência – Fernando Dourado

Fernando Dourado

FRANCE. 2006. Paris. Muslims rally vs. publication of cartoons of their prophet Muhammad the in the western press. Young men, hiding their faces behind a mask, lead a section of the march. By Abbas ( Agência Magnum).

FRANCE. 2006. Paris. Muslims rally vs. publication of cartoons of their prophet Muhammad the in the western press. Young men, hiding their faces behind a mask, lead a section of the march. By Abbas ( Agência Magnum).

A ação homicida ocorrida na redação da Charlie Hebdo foi, na verdade, um ato de delinquência. Como tal, tem origens banais. O que não quer dizer que devamos ignorá-las. O mal e a banalidade são péssima combinação e já vimos no que resultam. É claro que ir na contracorrente do paradigma civilizacional de Samuel Huntington – moeda de troca na imprensa do mundo –, não é fácil. Conhecer a obra do professor de Harvard mudou minha percepção da História e os acontecimentos em pauta lhe dão certa razão. Até por isso, acho importante singularizar algumas determinantes culturais do mundo árabe. Assim fazendo, e incorrendo nas generalizações inerentes a esse tipo de ensaio, se pode dizer que na intersecção deste com o universo muçulmano, ocorrem alguns fenômenos que estão no contra fluxo dos ganhos civilizacionais do ocidente. Eis, portanto, um ponto de partida confiável.

Ora, na encruzilhada aludida a lealdade conta mais do que mérito. Logo, nesse microclima, as emoções serão mais importantes do que a racionalidade, e a intuição tem primazia sobre a precisão. Outro traço inequívoco sublinha que laços de sangue estão acima da cidadania, esta  vista como estranha ao oriente. Por outro lado, o tribalismo – ou pertencimento – prevalecerá sobre noções entre nós conhecidas como patrióticas. Serei patriota se for fiel a tal facção; não o sendo, estarei contra meu país. Daí a adoração aos líderes pelo que representam como pessoas, e não pela plataforma. Nesse mundo, a retórica é divinizada. Aplaude-se, ovaciona-se, carrega-se o chefe em triunfo; lhe exigir comprovação ou verificação factual do discurso é  considerado grosseiro e desrespeitoso. O nepotismo é de regra e o profissionalismo só comporá a fachada. Como não poderia ser diferente, o espirito de clã conta mais do que o indivíduo – obrigado a se alinhar para sobreviver em várias dimensões da vida: amorosa,  ideológica e econômica. Isso dito, é bom ressaltar que essas determinantes permeiam como uma nuvem as populações muçulmanas – excluídas ou não – do cenário europeu. Minha tese: a história dos irmãos Kouachi obedece ao padrão sócio carcerário vigente em qualquer
país da América Latina. Portanto, a balança analítica se inclina mais para a experiência de Dr. Drauzio do que para os cenários de Huntington.

Isso dito, afirmar que estamos tratando de fanáticos religiosos é ver a árvore e ignorar a floresta. Pois não há no histórico deles, nem no de Amedy Coulibaly – o tresloucado do supermercado “kosher” de Vincennes –, muito que os singularize em meio a dezenas de milhares de suburbanos. É claro, até o 7 de janeiro. Órfãos desde cedo, imagino, essa gente geralmente conheceu a mãe, mas não teve pai. Elas, por certo, tentaram compensar a precariedade da vida cinza com proteção excessiva. Na efervescência do consumismo suburbano, não puderam lhes dar limites. Já não era sofrer muito não ter pai? Daí a que cometam pequenos delitos, é um passo curto; aos quais elas fazem vista grossa, coitadas. A escola, pobre dela, lá como aqui, tentará enquadrar o adolescente em franca mutação. Ora, mesmerizados pela satisfação imediata, os rapazes a abandonam e se dirão perseguidos, senão humilhados. As mães até acreditarão. Um dia, eles alegam que arranjaram trabalho no Carrefour, mas passam o tempo na companhia de assemelhados em exercícios de auto piedade. Logo formam gangues, pulam catracas de metrô, batem carteiras e surrupiam bijuterias para presentear meninas que, altivas, os repudiarão. Até que vem o primeiro  indiciamento. Com ficha na polícia, eles abraçam teorias conspiratórias. Se a revolta e a impotência preserva do ódio jogadores de futebol e astros da música, o “establishment” é tido por cruel. É feito pelos brancos, e para benefício deles e dos judeus.

Uma ação malsucedida os levará, afinal, à cadeia onde redes de apoio se formarão. Confrontados com a miséria material e espiritual de uma vida sem amanhã – depois de ter traficado droga ou sido garoto de programa – eles se identificam pelo que não são. Não são nem famosos, nem ricos, nem cultos, nem vitoriosos. Um líder, então, aparecerá, como é de regra no reino animal. Então lhes dirá que estão presos porque são franceses de segunda classe. Que seriam prósperos se seus pais não tivessem saído dos países de origem onde eram felizes. Precisando acreditar numa patranha que lhes dê um horizonte, aplaudem a nova voz. Afinal, são egressos da civilização do Livro – logo, amam a palavra. Para atenuar os rigores da cadeia, uma hora se convertem ao Islã em busca de proteção contra a dura lei carcerária. Esta, entre bandidos, se cumpre. Sendo a religião, contudo, de proselitismo, eles alardeiam Alá para tudo. Ora, doravante o que lhes soar atentatório ao credo ferirá a recém-adquirida derme de brios. Analfabetos na tradição corânica, brandirão nas ruas, uma vez em liberdade, a pregação da cadeia – a única escola de onde não puderam fugir. Criou-se um perigoso norte.

Ora, a junção de dois fundamentalismos balizadores – o que nem a mãe nem o Estado conseguiram dar – fará de cada um fanático no espaço público. Quantas vezes não vi, em 42 anos visitando Paris, um deles se levantar no metrô e começar a distribuir ordens como se estivesse de volta à cela? Aos gritos, de olhos injetados, mandará jovens ceder lugar aos mais velhos. Onde já se viu? Tentará imitar o macho-alfa em quem se agarrou como náufrago no cárcere. Moralista, alterado, não raro drogado, vai querer provar à vintena de nacionalidades espremidas no vagão, que é educado, justo, protetor dos fracos e sensível. Para horror das mães, afagará crianças e, empático, dirá que também é pai. Transidos de medo, os passageiros aguardam a próxima parada. Se alguém o encara, recebe uma descompostura. Em qualquer estação próxima à Porte de Clignancourt, essa conduta é de lei. Basta ir lá. Cada dia mais histriônico, ele se vê agraciado com encontros com irmãos. O que espera? Uma chance de se mostrar valioso, quem sabe de rifle na mão. Vizinhos de prédio nada percebem, salvo a observância a códigos melífluos: “bonjour”, “merci”, “excusez-moi” e “au revoir”. Em suma, a  repetição mecânica de salamaleques que os franceses confundem com “gentileza” – um clichê aberrante por lá.

Histérico e belicoso, ele já está no radar das forças de segurança. Mas caiu também no dos aliciadores de religiosos de ofício. Líderes querem seguidores. Ora, por que não o faria a religião cujo símbolo é justamente a espada? Em pouco tempo, ele receberá de presente uma  viagem de treinamento em algum valhacouto iemenita de onde sonha em voltar efetivado. De resto, como qualquer estagiário de multinacional. Sem que sua existência mofina tenha sequer sido notada pelas grifes do terrorismo, o pobre diabo se arvorará de ligado ao Estado Islâmico ou a Al-Qaeda. Da mesma forma que um adolescente se diz barcelonista.

Alguém duvida? Pois a hora chegará em que ele mostrará o quanto vale a uma audiência maior. Então, algo pretextará a deflagração do grande dia: falta de dinheiro, rejeição, droga ou tudo junto. Terrorista? Que nada. Estes são os modelos inspiradores. Ele é só a quintessência do fracasso. Assim como a pobreza não é fábrica de homicidas – o que seria da Índia? –, a mesquita, onde ele só aparece quando não bebeu, não é criadouro de suicidas. E assim chegamos ao Charlie Hebdo. Ironicamente, semanas depois de a França ganhar dois prêmios Nobel, e consagrar Thomas Piketty, um economista original.

O resto é conhecido. A televisão mostra em tempo real quaisquer ações espetaculares. Da tomada de reféns num café australiano ao resgate de uma fuselagem do fundo do mar. Quanto mais cinematográfico, melhor. Só assim as pessoas saem do casulo dos celulares onde carregam a vida. O criminoso conta com isso. Na dúvida, posta falas bombásticas nas redes. Ora, quando a ação bárbara ocorre numa cidade-cenário, mais ressoarão os louvores ao Profeta. Seriam os irmãos Kouachi a ponta de lança da Jihad? Não; são, desde sempre, caso de polícia. Um porém: não se pode negar as raízes beligerantes do Islã. A sura 8.60 do Alcorão,  diz: “Preparai contra eles toda a força, toda a cavalaria a fim de aterrorizar o inimigo de Alá, o vosso”. Na 8.39, ela reforça a mensagem: “E combatei até que não haja mais ´fitna`(discordância fundada na não-crença) e toda a religião no mundo seja a de Alá”. O  certo é que a “laïcité” – secularismo – francesa, o credo da Charlie Hebdo, desafia a compreensão até de muçulmanos brandos pela permissão implícita para que se lhe ridicularizem os símbolos de fé. Pior: proíbe-se o humorista Dieudonné de fazer o mesmo com os judeus. Ora, o Islã consagra Deus, governo, segurança e estado – nessa ordem, porém  amalgamada numa só unidade. Ao perceber dois pesos e duas medidas, vem o reforço à desconfiança de que eles, efetivamente, são o lado perdedor. O ocidente e a França os condena à marginalidade, concluem até os maometanos de boa-fé.

É gritante que a Europa não pode assistir a essa degradação de braços cruzados. Se o suplício dos cartunistas uniu a opinião pública por um tempo, a sanha dos assassinos nos passa uma amarga sensação de impotência. A França tudo fez nos anos 80 para incutir noções de planejamento familiar, maternidade responsável e contracepção às jovens da África e do Magreb. Mas as bombas demográficas se assemelham a certas doenças. Quando eclodem, é porque já se perdeu a janela de tratamento e só restará a contagem regressiva. Mas como se dá com as enfermidades, também se pode viver com elas. O resto será conflito contínuo.

***

10 Comments

  1. Amigos,

    Por oportuno, gostaria de sacudir a poeira do primeiro artigo meu publicado em Será?, no distante 29 de janeiro do corrente ano. Fazendo um apanhado quase acadêmico – nem por isso menos cruel – dos fatos então ocorridos, acredito que muitos elementos ali contidos podem ajudar na reflexão dos acontecimentos de Paris da noite fatídica do dia 13 de novembro.

    Como nosso intuito é sempre debater e estimular a boa discussão, os cânones inegociáveis de nosso núcleo editor, resolvi ressuscitar o pequeno ensaio. Como se verá, embora sendo o mais antigo, é o mais atual. E, por incrível que pareça, o problema dos refugiados, o desencontro dos serviços de informação e as ameaças ao Tratado de Schegen só se agravaram nesse ano de 2015 – um ano que desnudou a crueldade num estágio inaudito.

    O brutal massacre da redação do Charlie Hebdo já se esvai como uma ação quase distante. O que esperar para 2016?

    Vive la République, vive la France.

    FD

  2. Fernando, só li hoje, 16 de novembro, porque v. se referiu a esse artigo sobre o atentado de janeiro em Paris nas respostas a comentários ao seu artigo sobre o 13 de novembro.
    Tem razão, desgraçadamente é atual. Confesso que estou perplexa, e sobretudo eu sei,pelos meus ex-colegas de ONU muçulmanos, o quanto ficam devastados com esses atos horrendos os muçulmanos comuns e sobretudo o intelectual muçulmano que não consegue entender como pode existir gente matando e fazendo a “jihad” por um texto que surgiu há 400 anos atrás. Eu acho que seu artigo busca uma explicação, pelo menos uma explicação para o recrutamento de jihadistas nos países ocidentais mais desenvolvidos, com esse perfil que você mostra, a tentação do consumo, a percepção de que v. “não é ninguém”, o vazio, e a adesão a “ser alguém”, de fuzil na mão. Mas não consigo aceitar que isso é tudo. Eu não sei apresentar um quadro e uma explicação satisfatória, mas não acredito que o culpado seja o “deus-consumo”. Esse assunto é mais complicado. Porque esses jihadistas estão destruindo templos e documentos da Antiguidade Muçulmana, em Sanan, Palmyra, Timuktu? (Em Politica Externa fiz uma resenha do filme Timbuktu, que aliás mostra como muçulmanos comuns sofrem por causa desses extremistas). E agora vão sofrer ainda mais os refugiados! Enfim, a minha angustia é como combater o terrorismo islamista, liderado por quem se acha califa, até adota o nome do primeiro califa, ou pelos que se acham califas, e ao mesmo tempo não cometer injustiça e causar sofrimento aos muçulmanos comuns (para meus colegas de ONU, os “mainstream muslims”). Pois na jihad, apesar do 11 de setembro e do 13 de novembro, há mais mortos e feridos entre os próprios muçulmanos, sem falar no sofrimento dos que fogem de seus países em guerra entre fanáticos. Invadir os territórios do EI com tanques e tropas vai matar muita gente inocente. Há gente tão devastada cuja única esperança é que algum dia esse califas se matem entre si, e que ISIS colapse por desavenças e batalhas entre os próprios grupos jihadistas dentro do Estado Islâmico. De tudo pra mim o mais chocante é ver que tem gente aqui no Brasil se mostrando “compreensível” e “tolerante” com os terroristas com o argumento ultra-simplista de que toda a confusão no Oriente Médio é culpa das potências coloniais. (Como, aliás, também apareceu gente culpando a “exploração colonial” pela crise dos refugiados na Europa.) De certa forma, pela história da minha família, eu me considero produto de duas guerras mundiais. Que horror dos horrores, então, imaginar uma terceira guerra mundial, por causa de uns fanáticos que estão se autoimolando e acham que vão encontrar sei lá quantas virgens à disposição deles lá no céu.

  3. Querida Helga

    Se a equação fosse simples, o mundo todo não estaria debatendo nesse momento o que fazer. Nesse contexto, cada um vai avançando hipóteses e, de forma até inconsciente, um ou outro ousa simplificar o que, na verdade, é uma tremenda salada de interesses. Isso porque o que os turcos querem não é o que os russos desejam nem muito menos o que querem os americanos que, por sua vez, não respaldam as posições francesas. Fazendo uma sombra meio imperceptível sobre o cenário, o Irã e a Arábia Saudita.

    Assim sendo, como a gente todo dia vai evoluindo na reflexão, te sugiro ler no “Paris sitiada” o post que deixei para meu editor no Rio Grande do Sul, Eugênio Esber. Posso ter sido um pouco cruel com Hollande – o caipira bonachão, namorador e meio naïf – , mas só muito pouco. É claro que nada explica isoladamente tudo: maternidade irresponsável, bomba demográfica, exclusão, busca de satisfação imediata e muito do que faz desa geração – no meu entender – das mais desinteressantes de todos os tempos.

    Mas essa é só minha maneira de enxergar o mundo sob uma ótica “freakonomics” empírica e pessoal.

    FD

  4. Fernando, d’accord. Fui ler a) b)… e concordo com aqueles seus comentários, e concordo com você que um quadro completo e acabado que ilumine tudo é impossível de pintar, mesmo porque muda tudo cada dia. Por ora, sou mais Obama que Hollande, ainda que deva ser reconsiderada a ideia de tirar Assad antes de qualquer outra medida.
    Prometi à Teresa Sales, para 26 de novembro, voltar a escrever sobre refugiados, agora que o Wlllkommen passou (ou pelo menos ficou “pragmático”, os economistas já começaram a discutir o impacto sobre o orçamento público da Alemanha, ainda que iniciem com a consideração de que a questão não pode ser encarada apenas do ponto de vista do gasto). Você advertiu sobre isso, ao observar como a Merkel estava, por assim dizer, deixando de ser quase uma unanimidade Mas ela voltou a defender a ajuda a refugiados na reunião do G20. Basicamente – ou então no geral – eu concordo com você – ou pelos menos não discordo… Mesmo porque devo admitir que v. conhece a realidade dos países envolvidos muito mais que eu. Minhas fontes são secundárias – só vivi mesmo nos países anglo-saxões desenvolvidos (incluindo nessa categoria a Dinamarca) e no Chile. Com a França falta-me “rapport”. Devo ser a única entre os meus amigos que não tem entusiasmo ou paixão por Paris, onde só passei uma semana infeliz, em anos diferentes, uma vez rumo a Moscou outra vez de volta de Nairóbi. É claro que isso não quer dizer que não esteja completamente a favor da união dos franceses contra o terror. V. faz uma fusão especial entre o biográfico e o histórico, e, a propósito da sua intuição sobre uma reeleição de Hollande, me lembrei de Dominique Strauss-Kahn: não fosse uma camareira novaiorquina, e os franceses teriam tido um Presidente melhor.

  5. Helga,

    Não imaginava que Paris pra você tivesse sido uma experiência tão efêmera. Mas sempre é tempo de capturar melhores impressões, apesar dos dias tensos que vive a cidade. Se calhar de nos vermos por lá, convido para o jantar.

    Verdade que as compulsões irrefreáveis de Dominique Staruss-Kahn no Sofitel de New York podem ter custado aos socialistas franceses um homem de excepcional preparo intelectual, apesar da escassa bagagem moral. Dizem que foi armação de Sarkozy, um ególatra.

    Como para tudo que é mal-explicado na França eles se saem com o velho: “cherchez la femme” – procure a mulher -, o caso Hollande é não menos patético que o do antecessor. Por bom tempo, foi só o marido de Ségolène Royal.

    Depois, já presidente, se envolveu com uma atriz de segunda e a flamejante jornalista que estava a seu lado na posse saiu do cenário batendo as portas. E assim começou a presidência opaca dele. Até que em 2015 o terror bateu forte à porta.

    Mais grave do que um terceiro grande atentado, seria o bisonho Hollande ganhar um segundo mandato. Igual a Dilma, falta a ele repertório propositivo. De resto, é até um homem urbano e agradável, o que ela não saberia ser.

    Para mim que gosto tanto do País, Helga, o homem providencial seria o prefeito de Bordeaux e ex-Ministro Alain Juppé – tido como o último dos grandes cérebros do setor público. Até fisicamente se assemelha ao análogo brasileiro: José Serra. Mas essa já é outra história.

    FD

  6. Fernando, estou com medo de tomar reprimenda dos nossos editores, Teresa, João e Sergio, pois estou me afastando do tema que provocou inicialmente os comentários , os atentados terroristas em nome de Allah – apesar do dito de que uma borboleta batendo asas na Tailândia pode causar um tufão no México. Sim, as “escapadas” dos presidentes franceses estiveram no noticiário. E já Mitterand teve a dele – se bem que na época dele havia privacidade também para os homens públicos, a “civilização do espetáculo” ainda não dominava. Sobre as peripécias de Hollande, de moto pela noite, até saiu a piada de que o caso só podia ter sido plantado nos jornais pelo PS , para melhorar a reputação dele. É normalidade francesa, não deve ser por acaso que no Rio, naqueles tempos em que uns e outros tinham “garçonnière”, e até emprestavam p’ros amigos, uma das primeiras frases em francês que ouvi foi “Faute de mieux je couche avec ma femme”. Nada contra a França, mas não está no alto da minha lista de interesses. Nem porque o contato foi efêmero. Efêmero é tudo, eu gosto até da palavra. De resto, me lembrei de outra semana que passei em Paris, essa agradável, tinha esquecido. E voei Paris-New York dia 10 de maio de 1981! Dia da eleição de Mitterand, durante o voo, da Air France, os franceses comemoraram com champanhe. Mitterand só me interessou mais tarde, quando ele não teve outro jeito senão reverter totalmente a política econômica que defendera em sua primeira campanha eleitoral. Peripécias antigas, essas. De qualquer modo, a fase de “jet set” da minha vida, em que eu tomava um avião em New York para ir a um aniversário em Cambridge, England, está encerrada há bom tempo. Il n’y a pas la moindre probabilité que j’aille a Paris. E já que v. outro dia falou em Piketty, o original francês foi praticamente ignorado, ele só virou ”popstar” quando “O Capital no Século XXI” saiu em inglês. So much for “la grandeur”.

  7. Helga,

    Enquanto tu cruzavas o Atlântico norte no dia da vitória de Mitterrand, eu precisamente cheagava a São Paulo para começar a segunda parte da vida. Não, não posso me alhear aos destinos da França, se é que consigo fazê-lo com relação a algum país. Ainda hoje, quatro décadas depois de tê-lo conhecido, choro quando recito esse poema de Aragon:

    « Je vous salue ma France »

    Je vous salue ma France, arrachée aux fantômes !
    Ô rendue à la paix ! Vaisseau sauvé des eaux…
    Pays qui chante : Orléans, Beaugency, Vendôme !
    Cloches, cloches, sonnez l’angélus des oiseaux !

    Je vous salue, ma France aux yeux de tourterelle,
    Jamais trop mon tourment, mon amour jamais trop.
    Ma France, mon ancienne et nouvelle querelle,
    Sol semé de héros, ciel plein de passereaux…

    Je vous salue, ma France, où les vents se calmèrent !
    Ma France de toujours, que la géographie
    Ouvre comme une paume aux souffles de la mer
    Pour que l’oiseau du large y vienne et se confie.

    Je vous salue, ma France, où l’oiseau de passage,
    De Lille à Roncevaux, de Brest au Montcenis,
    Pour la première fois a fait l’apprentissage
    De ce qu’il peut coûter d’abandonner un nid !

    Patrie également à la colombe ou l’aigle,
    De l’audace et du chant doublement habitée !
    Je vous salue, ma France, où les blés et les seigles
    Mûrissent au soleil de la diversité…

    Je vous salue, ma France, où le peuple est habile
    À ces travaux qui font les jours émerveillés
    Et que l’on vient de loin saluer dans sa ville
    Paris, mon cœur, trois ans vainement fusillé !

    Heureuse et forte enfin qui portez pour écharpe
    Cet arc-en-ciel témoin qu’il ne tonnera plus,
    Liberté dont frémit le silence des harpes,
    Ma France d’au-delà le déluge, salut !

    Louis Aragon

  8. Comovente. Terá sido escrito logo depois da guerra? Não li praticamente nada dele. Por razões biográficas, é claro, me comove mais uma frase de Aragon logo depois que tropas soviéticas invadiram Praga em agosto de 1968 « Et voilà qu’une fin de nuit, au transistor, nous avons entendu la condamnation de nos illusions perpétuelles… »

  9. Fico contente de que goste.

    Na verdade, ele data de 1943.

    Linda também “…a condenação de nossas ilusões perpétuas”.

    Quem vê Praga hoje, não imagina de que foi palco, não é?

    FD

  10. Na fria manhã da sexta última, a escassas três semanas da chegada oficial do inverno, nem eu nem ninguém pôde ficar indiferente à sobriedade e beleza da cerimônia que homenageou as vítimas dos atentados de 13 de novembro. Pequenino diante da grandiosidade do cenário, Hollande soube ser composto e altivo, sem resvalar para a soberba. O tom de voz era o de um avô contando uma história triste á cabeceira de um neto. Depois as meninas entoaram “Quand on a que l´amour”, do cantor belga Jacques Brel. Sublime. Do lado de fora, ninguém segurou as lágrimas. Lá dentro, nada de aplausos e olhos enxutos. “Comme il faut. Noblesse oblige”.

    Quando os nomes dos mortos foram mencionados, muitos me chegaram associados às imagens que deles eu vira na tarde da quinta-feira no eixo Place de la République – Boulevard Richard Lenoir, mais precisamente diante do Bataclan – cujo térreo continuava encoberto por uma lona branca. O mais marcante de tudo, foi percorrer a rua lateral da casa noturna, onde a tecnologia nos fez acompanhar ao vivo as imagens dos que acudiam amigos e até de gente que era dissuadida de saltar das janelas. Fiquei bom tempo parado entre as marcas de bala 38 e 39, assinaladas pela perícia.

    Ironicamente, havia visitado a antiga redação do satírico Charlie Hebdo ainda em 2015 e jamais me passaria pela cabeça voltar a um endereço quase vizinho para um programa tão fúnebre quanto brutal. François Hollande conclamou a Nação à solidariedade e disse que a República não deixará desamparados seus filhos. A França continuará a ser o que sempre foi. Pediu que as pessoas encham as salas de concerto; o terraço dos cafés onde se debatem as ideias e se diluem os conflitos; e os estádios de futebol onde reina a alegria. Sobre Paris, o palco do massacre, disse que é uma cidade que vive intensamente o dia e que brilha à noite. No Bataclan, que vem de duzentos anos de história, tinha gente que havia desfilado ao lado dele e com o mundo na enorme manifestação de 11 de janeiro que reuniu centenas de milhares de pessoas.

    Num tom sereno, concitou o mundo a vencer o obscurantismo pelas armas que a Europa consagra: direito, democracia, república, e pela concertação das forças militares e de dissuasão. Nessas horas, convenhamos, o francês é uma língua insubstituível. As digressões em torno da fraternidade são intraduzíveis. Nada os levará a alimentar o medo e o ódio, vaticinou. Antes de uma nova execução triunfal da Marselhesa, dessa vez com o corpo da Ópera de Paris, disse, com razão, que o mundo todo se sente atingido quando a França está ferida. É verdade. Aduziu: liberdade não se vinga, ela é honrada. Patriotismo é universalismo. Nacionalismo é ser contra o outro.

    Saí matutando a caminho de meu compromisso pela rue de Grenelle: eis um homem simples, quase opaco, mas que tem se portado com extrema dignidade em momentos de terríveis. Com a boate juncada de corpos desfigurados, ele foi lá dentro ver a barbárie, consolar as pessoas e mobilizar os médicos que vararam noites em claro . Nada fez desse padrão “aloof” de sobrevoar rios de lama de helicóptero. Pelo bem da França, espero que ele não se reeleja. Mas que ocupe um lugar de destaque na galeria dos ex-presidentes. Pelo bem do Brasil, prefiro silenciar sobre essa inadiável sucessão. Em respeito aos mortos de direito, não falarei de mortos de fato.

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