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Penso, logo duvido.

Paul Klee entre duas guerras mundiais – Helga Hoffmann

Helga Hoffmann

Equilíbrio Instável (deitado) Paul Klee 1922.

Surpresa! Não só a pintura de Paul Klee. Mas uma exposição de mais de 100 das suas obras no Centro Cultural Banco do Brasil em São Paulo. Não surpreenderá quem já sabe que o Brasil, país tão atrasado, tem bolhas de excelência. Ou quem se lembra do que dizia de São Paulo, às vezes, a historiadora Maria do Carmo Campello de Souza, querida Carmute: “São Paulo é uma cidade feia com bolsões aprazíveis”. Às vezes bolsões de excelência temporários, como esta exposição “Paul Klee EQUILÍBRIO INSTÁVEL” (de 13 de fevereiro a 29 de abril de 2019).

O nome da exposição é adequado ao momento brasileiro. Mas o quadro de Paul Klee que tem esse título, Equilíbrio Instável (Schwankendes Gleichgewicht, Aquarela sobre papel, 1922), não é parte desta exposição em São Paulo. Estava na exposição do Museo Thyssen-Bornemisza em Madrid, que vi em outubro de 1989. Fui lá ver, quase por acaso, e desde então Klee é meu pintor preferido, já que não posso dizer que o tranquilo gigante da arte moderna é o maior de todos os tempos.

Equilíbrio Instável, 1922.

Minha primeira memória de Paul Klee são desenhos de pessoas em abrigos antiéreos, durante os bombardeios, sobretudo velhos, e mães e filhos. Nunca esqueci os rabiscos pretos de lápis. Minha curiosidade não é só pela obra imensa – pinturas, aquarelas, desenhos com lápis e bico de pena, textos de aulas, poesia, seu diário – mas sobre o que esta possa expressar. E o que pode revelar sobre o período conturbado em que viveu, na Europa entre duas guerras mundiais.

O que revela está muito longe de representação realista do que lhe aparecia. Cito o próprio artista no caderno publicado em Berlim em 1920 “Confissão de um criador” (Schöpferische Konfession), talvez o seu texto mais comentado e traduzido: “A arte não reproduz o visível, a arte faz visível. A natureza da arte gráfica induz à abstração, facilmente e com pleno direito. Nela, o fantasioso e o esquemático próprios do imaginário estão dados de antemão e ao mesmo tempo se expressam com grande precisão.” (Tradução minha) De outros textos didáticos, em que explica a diferença entre impressionismo e expressionismo, vê-se que sua arte não faz visível algo do momento, e sim muito tempo depois, retirado da memória. O que entende por “precisão” está documentado (e pode-se verificar na exposição do CCBB): estudou técnicas, até ao modo artesão da escola Bauhaus, a geometria das formas, o espectro cromático, a mecânica dos movimentos, a função do movimento e do tempo comparando desenho e música, o uso de diferentes materiais. E conhecia, com empatia, a obra dos seus contemporâneos, como Robert Delaunay (que visitou em Paris), Kandinsky (sobre quem escreveu), Picasso (a quem dedicou um quadro), August Macke (amigo com quem viajou para a Tunísia e que morreu no front em 1914).  Sua arte é o extremo oposto de uma arte ingênua.

Jardins do templo, 1920.

A vida de Paul Klee foi dedicada à arte, não só à pintura e à gravura, mas também à música. E sempre ganhou seu sustento da arte, ainda que em algumas ocasiões isso tenha sido difícil. Nasceu perto de Berna, em dezembro de 1879. O pai, músico, era alemão e Paul Klee tinha nacionalidade alemã. Sua formação foi em Berna. (Há desenhos infantis dessa época na exposição do CCBB.) Cedo decidiu que seria artista, mas estava em dúvida entre música e pintura. Tocou violino a vida toda, só parou impedido por uma rara doença. Com 19 anos, em 1898, foi para Munique, onde continuou estudos de arte e teve contato com a vanguarda dos artistas na época – e se decidiu pela pintura. Casou-se com a pianista Lily Stumpf em 1906 e um ano depois nasce seu filho Felix. Ficou em casa, em Munique, cuidando do filho pequeno, enquanto Lily ganhava o sustento deles dando aula de piano. (Há na exposição do CCBB o vídeo de um belo depoimento de Felix Klee sobre sua infância e o teatro de fantoches que aparece muito na obra do pai.)

A guerra destroçou de imediato as perspectivas, alguns de seus amigos morreram no front logo no primeiro ano ou se exilaram. Klee continuou pintando, até com maior intensidade. Só é recrutado para a guerra em março de 1916, mas escapa do front e é designado para servir em aeroportos militares.

Ângulos coloridos e gráficos, 1917.

Finda a I Guerra, viu nascer a República de Weimar, viveu suas esperanças de modernidade e o sopro de liberdade logo abafado. Nos 1920s foi professor da Escola de Arte Bauhaus em Weimar, que havia sido fundada em abril de 1919 por Walter Gropius. Klee continuou professor da Bauhaus em Dessau, depois que pressões políticas levaram ao fechamento da escola em Weimar em abril de 1925.

Em julho de 1932 o NSDAP (Nazionalsozialistische Deutsche Arbeitspartei) torna-se o maior partido no Parlamento Alemão. O NSDAP, resumido como “nazi” das duas primeiras sílabas, foi criado na República de Weimar com um programa de antisemitismo e nacionalismo, e rejeição da democracia e do marxismo.  De 2,6% da votação em 1928 passou a 18,3% em 1930 e a majoritário em 1932. Nesse ano o Conselho Municipal de Dessau, com a prevalência do NSDAP, dissolveu a Escola de Arte Bauhaus. Paul Klee já era desde 1931 professor na Academia de Arte de Düsseldorf, que era também uma escola de arte, como a Bauhaus. Ainda consegue trabalhar ali até 1933, quando se vê obrigado a sair.

Em janeiro de 1933 o Presidente Hindenburg nomeia Adolf Hitler chanceler. Em março de 1933 a casa que Paul Klee ainda mantivera em Dessau sofreu busca e apreensão e levaram sua correspondência. Em vários locais na Alemanha houve apreensão de suas obras. Paul Klee já não conseguirá mais nenhum emprego como professor, mas considera que já tem condições de viver apenas de sua arte. No fim desse ano emigra para a Suiça, volta a Berna.

Partida dos navios, 1927.

Paul Klee morreu em junho de 1940, sem que tivesse obtido a cidadania suíça. Mas foi na Suíça que viveu metade da sua vida.

Na arte de Klee se percebe a ironia com que devolve, em seus quadros e desenhos, observações do seu serviço militar na I Guerra Mundial, o que viveu de esperança de liberdade, igualdade e modernidade na República de Weimar, e logo o que sofreu de amarras pela expansão política do nazismo e, mais tarde, por sua doença. Mas a sua arte, única e pessoal, está acima de escolas, partidos e classificações de estilo.

Declarações e comentários políticos não fizeram parte de sua vida e obra. Nem mesmo quando, perseguido na Alemanha, emigrou em 1933. Em um resumo autobiográfico que escreveu em janeiro de 1940, explica seu pedido de cidadania suíça (ao qual finalmente dera entrada em 24 de abril de 1939, quatro meses antes de a Alemanha invadir a Polônia): “A tormenta política da Alemanha afetou também as belas artes, restringindo não só minha liberdade de ensinar, como também o livre exercício do meu talento.”

Paul Klee, de ponta a ponta, me confirma a percepção do designer dinamarquês Poul Henningsen: “Toda boa arte é política, toda arte política é ruim.” A exposição do CCBB não tem um catálogo. O dinheiro não deu para tanto, pois fazer uma exposição dessas hoje em dia é caríssimo, pelo seguro do translado internacional das obras preciosas.  Uma surpresa no fim, que só vem quando se examina o excelente folheto explicativo da exposição, em português e inglês. Começa com letra pequena, no alto da página à esquerda:

“Ministério da Cidadania apresenta/Banco do Brasil e BB Seguros apresentam e patrocinam”. Bolsão de excelência de um governo surreal! Nos termos da Lei de Incentivo à Cultura.

Quem puder vá ver Paul Klee. Só vendo, qualquer relato é pobre. Como ele já disse em aula, citando Goethe, (“cria artista, não fale”): “Sou pintor e me sinto dono dos meus meios e capaz de comunicar a outros o movimento que me arrasta, mas não me sinto em condições de traçar com igual segurança, pelo uso da palavra, esses mesmos caminhos.”  Pode ser a última chance, pois logo o Brasil e suas estatais já não terão dinheiro para patrocínios de alto custo. Não há multidões em fila diante do CCBB, apesar de ser evento gratuito, mas sábado e domingo tem estado lotado. E ao sair de lá uma indagação mais geral: como é que não aprendemos com os museus americanos como fazer dinheiro? Seria adequada uma sugestão, educada, de pagar uma entrada, algum valor pequeno, simbólico e voluntário. Mas para isso é preciso organização. E confiança.

9 Comments

  1. Helga, seu artigo me deixou com uma inveja danada dos paulistanos. Que você continue inspirada e com sua sensibilidade estética continue nos ilustrando com artigos como este.
    J.Rego

    • Obrigada pelo estímulo, João Rego. Não vejo motivo de inveja de São Paulo. O Recife tem seus bolsões de excelência também.

  2. O artigo é uma aula! É um suspiro em meio a tanta tragédia que temos para ler hoje!

  3. Inspirado e inspirador artigo.
    Lido, divulgado e aplaudido.

    • Quando Teresa Sales me convidou a colaborar com a “Será?” ela me fez prometer que eu responderia a comentários dos leitores. A comentários que são elogios, como o seu e o de Tania Miorando, só dá para responder “obrigada”.

  4. “Declarações e comentários políticos não fizeram parte de sua vida e obra. Nem mesmo quando, perseguido na Alemanha, emigrou em 1933.”
    Qualquer comentário crítico de arte, seja cinema, teatro, exposição de pintura, livro, é acrescido de muito valor quando nos leva a querer conhecer a obra de arte comentada. Assim, fiquei chateada porque adiei minha viagem a São Paulo e vou perder essa exposição motivo da crítica de Helga. Muito embora Paul Klee não esteja na lista de meus cinco primeiros, onde Lucien Freud está à frente, esta seria uma exposição imperdível, sem nem precisar pagar o preço de viagem à Europa ou Estados Unidos. Por acréscimo, Helga ressalta um aspecto essencial da vida do artista: seu recado é dado pela obra de arte, e não por declarações verbais, que frequentemente empobrecem o valor do artista.

    • Pena que você não vem a São Paulo agora, Teresa. Terá que ir ao Zentrum Paul Klee em Berna, onde está a maior concentração de suas obras. Você captou por que digo que a obra de Klee (imensa, teve ano em que produziu mais de 200 quadros) demonstra a “frase de efeito” do crítico Poul Henningsen. Klee é uma figura da República Infeliz, a República de Weimar. E ele tem impacto político até hoje. No Zentrum Paul Klee, em Berna, ensinam quem foi o pintor a grupos de crianças:
      “Em 1933 proibiram ele de ser professor.
      Políticos poderosos na Alemanha não gostavam da sua arte.
      E da arte de muitas outras pessoas.
      A arte era moderna demais para os políticos.
      “Entartete” significa “não-normal”.” (Traduzi do folheto “Paul Klee in Leichter Sprache”)

  5. Nenhum homem ama a forma arte pelo que ela é mas pelo que ela expressa, segundo Nietzsche, “Ser artista ao custo ser de modo que o não artista clama de forma o conteúdo”. Ser artista é pagar o preço de ser, de modo que o não-artista clama de forma o conteúdo. É que “na pintura, a linha …é o lugar ontológico”

    • Depois do seu comentário devo explicar que, de crítico de arte não tenho nada. O artigo é muito circunstancial: amo Klee e sou intrigada com a República de Weimar, na qual viveu minha avó, Lucia De Ponte. E a vida de Klee permite mostrar como surgiu o nazismo que, depois que o NSAPD se tornou partido majoritário em 1932, começou perseguindo intelectuais, aparelhando a administração e dela expulsando seus críticos e assim assumiu o poder na Alemanha, tornou-se ditadura e só foi expulso do poder com o fim da II Guerra Mundial.

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