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Penso, logo duvido.

Nossos Mortos – Jose Paulo Cavalcanti

Jose Paulo Cavalcanti

Death and Life – Gustav Klimt.

O mundo acabou. Morreu meu pai. Lembro como se fosse hoje. Quem já passou por isso, (infelizmente), sabe como é. Poucos dias depois ligou Hélio Naslavsky. Convidando para comemorar o nascimento de um neto. Agradeci a lembrança e prometi que iria. Por educação. Não sentia disposição para nada. Ocorre que o amigo ficou insistindo. Seja, então, a vida continua. Dona Lectícia chegou no escritório fim da tarde e, de lá, fomos à maternidade.

Hospital Albert Sabin (Ilha do Leite). Logo no início do corredor dos quartos, ficava o berçário. Com 10 ou 20 recém nascidos rebolando, lá dentro. Minha mulher acha todos lindos. Para mim, são quase ratos. E tudo igual. Sem aquela pulseirinha, simplesmente não consigo distinguir um filho meu do de outro qualquer. Quase. O quarto daquele neto de Hélio era o último. Fomos caminhando, bem devagar. No corredor, pregada nas portas, uma sucessão de mensagens idiotas, próprias de pais de primeira viagem. Cheguei, meu nome é Pedro. Coisas assim. Tudo, naquele ambiente, dava notícias de vida. No quarto, uma grande festa. A do herdeiro que chegava. Com direito até a charuto, maravilha. Num hospital! E pode? Alí podia. Fomos logo embora. Estranho foi que, ao entrar no carro, me senti em paz. A opressão no peito desapareceu, como por encanto. Mas o que aconteceu?, eis a questão.

Em casa, nessa noite, tudo ficou claro. É só a maneira certa de ver quem somos. E entendi, afinal, que os homens nascem, vivem vidas se possível dignas e fazem amigos. Poucos ou muitos. Até que um dia se vão. E deixam saudades. Poucas ou muitas. No mesmo momento em que outros netos, de outros Hélios, estão nascendo. Mais tarde, estes serão também substituídos por novos netos dos netos de Hélio. E assim será, sucessivamente, até os fins dos tempos. Por isso, amigo leitor, nesse dia quase de finados, me permito dar conselho. Se perder alguém da família, ou amigo próximo, não lamente em demasia. É que, caso tenham tido vidas dignas, com amigos e saudades, afinal cumpriram seus destinos. Valeu a pena.  A vida é breve. Como disse Pessoa (no Desassossego), apenas “hesitação entre uma exclamação e uma interrogação. Na dúvida, um ponto final”. E esse ponto final chega, sem choro nem vela, para todos nós. Só que até lá, com alma, coração e a consciência da maravilha de aproveitar intensamente cada instante, viva a Vida.

P.S. Esta semana, perdemos o cientista político Wanderley Guilherme dos Santos. Tinha uma doença estranha, nem sei o nome. Certo é que não podia receber luz. Mesmo à noite, usava filtro solar. Mas era um homem feliz. Morreu de pneumonia. Complicado é que o destino parece escolher sempre a pessoa errada. Tanta gente ruim que não faria falta, à nossa volta ou em Brasília, e em troca a Ceifeira leva os bons? Sobre esse amigo escrevi versos em um livro de afetos, Aos Amigos Tudo. Reli isso, agora. E estranhei o contraste entre a alegria de antes, que se vê nas palavras, e a tristeza em lembrar mais um que se foi. Segue a prova. Ele fez comentário sobre artigo que escrevi, afirmando “eis-nos do outro lado do tempo”. Respondi:

 

Tem quem cala e o que mente

O da sombra e o do dia

O que sabe e o que confia

O que nega e o que consente

pois há dois lados somente

No trajeto do oprimido

E no barro percorrido

mais vale o corpo suado

Que o tempo do outro lado

É o tempo não vivido.

 

Descanse em paz, amigo.

 

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