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Penso, logo duvido.

2020 em Girona – Fernando Dourado

Fernando Dourado

Céu em Passeio da Muralha (Passeig de la Muralla) – by Alfonso Navarro Táppero.

1 de janeiro

Fiquei plantado na janela a partir de meia-noite e poucos minutos, só vendo a banda passar. As pessoas tinham acabado de ouvir as doze badaladas da catedral de Girona, já tinham comido as doze uvas regulamentares e desciam para o baile na praça da Universidade. O hotel Bellmiral é perfeito para apreciar o trajeto. Lá de baixo, quem me via na janelinha fazia acenos de feliz ano novo. “Bon any, bon any nou”. Parecia haver uma certa piedade no olhar dos passantes. O que faz aquele gordote no terceiro andar? Será que não tinha condições físicas de acompanhar a festa? De soprar línguas de sogra, de usar o chapeuzinho de três pontas, de tomar Cava no gargalo e saudar perfeitos estranhos com euforia? É assim mesmo. Primeiro a gente olha da janela o desfile da vida enquanto ainda está bem, mas já nem tanto. É uma prévia para os dias em que a incapacitação chegará para valer, até que sobrevenha aquela nostalgia de já não poder fazer tudo o que um homem comum faria: descer as escadarias da parte alta de Girona até a cidade, procurar uma mulher com quem passar a noite, levá-la para dançar e esvaziar a cabeça de preocupações. A propósito, comi bem hoje pela manhã. A estalajadeira me esperou até as 11 horas e me serviu um café da manhã para além da medida. Muitas fatias de queijo, ótimo fuet catalão, chá verde e uma jarrinha de suco de laranja industrializado em que não toquei. O pão, grande problema dessas latitudes de tão gostoso que é, desceu bem com uma geleia caseira de ameixas azedas. À tarde fui até a cidade para um longo passeio e algumas divagações. O problema é uma dorzinha ou outra nos pés. Preciso comprar um tênis decente, sob pena de não poder dar os passeios que a profilaxia do corpo recomenda. Nos jornais, especulações em torno da fuga de Ghosn, a maior alegria que poderia ter me dado o fim do ano passado. Pela manhã, reli parte de meus contos que foram bem acolhidos por Jorge Reis-Sá, em Portugal. O que é melhor, ele parece ter gostado do projeto, antes de encampar o mérito literário em si, se algum. É bom ficar hospedado perto da catedral, a dois passos da grande muralha que faz da cidade uma das mais belas da Europa em seu estilo. Mas dá preguiça de descer até o centro. São pelo menos uns quatrocentos degraus para voltar à base. Aqui em Girona, como em Évora no mês passado, os sinos da catedral regem minha rotina.

2 de janeiro

Manhã de trabalho aqui no Bellmiral. A posição da cadeira da sala dos hóspedes me fez mal à coluna, mas uma boa caminhada ajudou a resolver o problema, como se a ossatura fosse uma catraca que precisasse de óleo na engrenagem. No fundo, é o que é. O calçamento das ruas, todo feito de pedras irregulares, não ajuda nada. Depois desci para o apartamento definitivo que vou ocupar pelos próximos dias, no 34 do Carrer de la Barca, que é excelente. Almocei uma saladinha no König e voltei para então me instalar seriamente. Isso feito, trabalhei um pouco, vi o noticiário e à noitinha fui até o restaurante basco onde comi umas tapas de almeijoas, omelete de bacalhau, fundo de alcachofra e cogumelos. Tomei uma garrafa de vinho encorpado da Empordà e tive uma boa conversa com duas colombianas que estavam sentadas ao lado. Em dado momento, a loira se debruçou para beijar a boca da moreninha que ficou meio constrangida e sorriu amarelo. Está marcando território, pensei. Ato contínuo, ela foi ao banheiro, deixando a contemplada meio sem jeito diante de todo mundo. No caminho de volta para casa, sentei num banquinho para deixar que os 3 graus de temperatura me impregnassem os ossos.  E por vinte minutos, retomei o fio de uma reflexão que começara a fazer em Évora, um mês antes, e que – só agora me dava conta – chegara a bom termo. O que era? Depois digo. Em casa, fiquei amoquecado no sofá. Tirei o casaco pesado, mas mantive o cachecol de caxemira azul-claro e deixei a vista passear pelo apartamento. É bom viajar na baixa estação. Normalmente, ele me teria custado o dobro do que estou pagando, chegasse aqui entre o fim da primavera e o começo do outono. Gosto das paredes de pedra, do chão de cerâmica fosca, da cama bem feita e do banheiro moderno e bem iluminado. Preciso perder minha resistência em mandar minhas colunas para o Estadão. Toda a implicância decorre de um artigo que nem foi publicado nem sobre o qual eles me deram satisfação. Talvez nem tenham recebido, sei lá eu. Mas daí a eu me fechar em copas, vai grande diferença. Quem perde sou eu – em todas as instâncias. Estou eufórico com o caso Ghosn. Sempre que alguma coisa ameaça toldar meu estado de alma, penso nele e abro um sorriso. Ele é um castigo implacável para os pobres de espírito.

3 de janeiro 

O dia foi muito agradável. Convenhamos, a  essência de considerarmos um dia bem sucedido decorre só e estritamente da performance do trabalho. Se houve produtividade, se a gente sente que avançou em alguma direção, então tudo vai bem. É claro que é fundamental não sentir muitas dores, além das de praxe, as que assolam este corpanzil sexagenário de tantas arroubas. O almoço foi no pequeno “El cul de la leona” e estava delicioso. O que comi? Fígado de vitela com uma espécie de gratin dauphinois. À noite, chegou o casal de amigos de Blanes, e Jordi me disse que era aniversário de Marta, sua esposa. Então fomos jantar num lugar despojado onde reinava um chefe jovem, mas que sabia das coisas. Propôs um menu degustação de 7 pratos baseados na Odisseia. Uma verdadeira graça de inspiração em que, ao final, ele traz a resolução das charadas gastronômicas sob forma de um pequeno folheto que lembra os de cordel – em que revela o nexo de cada prato com um trecho da história. Um tal menu, que nada tinha de excessivamente rebuscado, pede um planejamento e um rigor de execução que não combina com o Brasil. Imagino que um chefe do Recife resolva oferecer aos comensais uma proposta parecida, baseada quem sabe na culinária presente nos livros de Jorge Amado ou mesmo de Gilberto Freyre. O que aconteceria em alguma das 7 etapas? Conversa mole e tergiversações, ora. “Vocês vão desculpar. O quarto prato deveria ser um mexilhão a escabeche, mas o fornecedor hoje faltou porque o filho ficou doente e foi levado para o hospital de Igarassu. Então a gente vai substituir o mexilhão por ostra, pedindo perdão porque sabemos que ostras já constaram da entrada e não é legal servir duas vezes a mesma coisa. Já que notícia ruim se dá de uma vez, queria dizer que a sobremesa, que seria um quindim, também está em falta porque ontem o menu fez tanto sucesso que teve gente que repetiu o prato e o rapaz não pensou que o cardápio estaria valendo para hoje. Peço sua compreensão para aceitar um bolo de nozes , que sei nada ter a ver com nossos mestres, mas…” Enlouqueço só de pensar. Não poderia viver no Nordeste. Em casa tentei ficar sem nada fazer, de computador desligado, apenas sentindo pela vidraça as lufadas que sacudiam os galhos da pracinha. Depois fui deitar e li metade de “1989”, de Michael Meyer, bom jornalista que era da Newsweek. É um ótimo livro. Não é à toa que 1989 foi o melhor ano de minha vida.

4 de janeiro  

Hoje trabalhei bastante. Finalizei cinco histórias para meu revisor literário, o que não é pouca coisa nesse estágio. Mal sabe ele que ainda posso tirar mais cinco da cartola, a depender dos entendimentos com o editor e, mais ainda, levando em conta que lhe mandarei toda uma série de escritos de reminiscências que está apenas esperando a vez na fila. Almocei em casa um excelente salmão com gengibre, tendo brócolis como único acompanhamento. O mercado onde me abasteço é uma espécie de Picard francês, e vende pequenas porções sem conservantes nem edulcorantes, e que não perdem o sabor no forno. De sobremesa, apenas um caqui. À tarde, fui dar um passeio pelo parque que fica do outro lado da ponte. O começo foi penoso, eu tinha uma enormidade de dores nas costas. Mas depois improvisei um cajado e melhorei sensivelmente. No café, pedi um papelzinho e fiz umas anotações sobre Girona. Eis o que escrevi: “Parece Florença, não é? Mas não é. É Girona, na Catalunha, uma cidade de muitos encantos, às vésperas da festa do Dia de Reis. Parece que estou cansado, não é? Mas não estou. Pelo contrário, tenho curtido esses últimos dias com critério. Tenho dormido cedo e aproveitado o embalo do frio. Tenho comido com moderação e trabalhado pelo menos dez horas. Portanto, estou cheio de energia. Parece que o mundo vai bem, não é? Pois não vai. As consequências da eliminação do general iraniano não se farão esperar e vamos ter um ano de cavilações aeroportuárias mundo afora – para dizer o mínimo. Parece que estou pessimista, não é? Não mais do que o normal. Mas no plano profissional, estou até bem animado com a agenda, sob certos aspectos melhor do que a de 2019. É tudo uma questão de dar o melhor de mim. E cada um de si mesmo.” Parece sensato, não é? E é. Seja como for, vamos ver se prevalece o bom senso no Irã e nenhum maluco vai querer vingar o general Suleimani com um banho de sangue de quaisquer lados da fronteira Irã-Iraque. Uma coisa me parece certa: Trump consegue tirar do embornal um kit de leitura do panorama mundial bastante eficaz. Sem ser um homem especialmente inteligente ( ou será que é?), ele está botando no bolso a fina flor do establishment, demonstrando incrível capacidade de diagnosticar e agir. No fundo, ele quer o segundo mandato. E eu que pensei que esse paspalhão ia espirrar o taco no primeiro. Quem é o idiota da história?

5 de janeiro

Vi “Dois papas” na televisão. Num passe de mágica, as dores nas costas cederam. Ambas as interpretações foram sensacionais e daria tudo para saber como eles – Bergoglio e Ratzinger – agiram aos personagens levados à tela quando viram o filme longe do olhar público. Em qualquer fase de minha vida, eu teria dito que prefiro Hopkins a Pryce. Isso porque gosto de rigorosamente tudo o que o galês Hopkins faz. O que dizer de um sujeito que já encarnou na tela o maníaco Hanibal Lecter e o cardeal Ratzinger? Ou será que, cá entre nós, os dois não estão lá tão longe assim um do outro? Hopkins de fato é um homem de muitos recursos e consegue dar simpatia a um alemão que não cansa de se reconhecer como chato. Mas Pryce está muito mais perto de Bergoglio do que Hopkins está do bávaro, se é que isso é importante. Pryce consegue emular aquela boca meio arreada dos hispanofalantes, aquela beatitude que parece ser própria dos clérigos da Teologia da Libertação, um não sei o quê de populismo callejero que é muito comum em nosso continente. Sempre fui da tese de que não devemos nos deixar impressionar pelas pessoas, não devemos nos apequenar diante de sua estatura política, moral ou espiritual. Muito menos de seus cargos. É todo mundo feito da mesmíssima matéria e que vivam nossas fraquezas. Pensei nos extremos a que chegou uma namorada judia que levei ao Vaticano. Lá ela achou de positivar sua indignação para com Pio XII com uma sonora cusparada em seu túmulo. “Este ben zona não teve beitsim para denunciar a Solução Final.” No seu patoá, a mãe do Papa não era digna de grande respeito, e a este teriam faltado colhões para mudar o curso da história. Ora, nossos amigos Ratzinger e Bergoglio são eivados de pecadilhos. Mas quem não os tem? É claro que as cenas da coreografia do tango e dos copos de cerveja na partida de futebol foram de imensa beleza. E pensar que milhares ficam criticando o filme por não ter revelado as razões da renúncia de Ratzninger. Por que não explicam primeiro a de Jânio Quadros? Por que o filme haveria de ser documentário? Que chateação. No entardecer, fiz longo passeio à praça da aglomeração dos reis magos onde as crianças estavam eufóricas com as caracterizações e as lanterninhas. Aqui o presente de Natal é dado na noite de Reis, de hoje para amanhã. Há dez anos estava em Barcelona no mesmo dia.

6 de janeiro 

Hoje saí de casa no meio da tarde e peguei o caminho oposto ao costumeiro. Subi e desci as escadas do mosteiro, passei pelas termas romanas e andei em direção a uma mata fechada onde a umidade era intensa e rescendia eucaliptos. Ao longo de um córrego atravessado por pequenas pontes de pedra, me senti na Catalunha profunda. Nas paredes de limo, lia-se “Fora Espanha”. Continuei a perseguição ao fundo do vale até que esbarrei no restaurante “El cul del món” – uma denominação adequada às paragens. Como já tinha almoçado, pedi um chá de menta e fiquei na varanda. O garçom que me serviu, desatou a falar, adivinhando meus pensamentos. “Esta é uma zona onde o sol não chega. É muito úmida. Temos vinte tipos de sapos. E uma variedade imensa de pássaros.” Na volta, me senti dentro de um livro arrebatador que não leio há 40 anos: “Le grand Meaulnes”, de Alain Fournier, morto aos 27 anos. Quase em casa, a zona úmida sumiu por encanto, o chão de molhado e escorregadio ficou seco e confiável. Na virada final, a igreja de pedra e um quinteto de ciprestes me lembrou Jerusalém, às portas do hotel King David. Então dei o passeio da tarde por encerrado e desisti de ir à confeitaria ver as pessoas comerem a torta de Reis, alusiva à data. Foi como se a caminhada tivesse me provido de tudo o que precisava para terminar mais um dia. Inclusive de paisagens bucólicas, viagens interiores remotas e frio nos ossos em cota bastante para apreciar o calor de casa. O que pede a noite escura? Silêncio, recolhimento e um chá de ervas para ver um filme. Adorei o dia – o pouco às vezes é muito. Já da noite, gostei menos. Quando estou acelerado, tomo metade de um Lexotan de 3 mg, que venho tentando evitar. Ocorre que sem ele, sem o meu encosto de cabeça de avião que esqueci no último voo e com um pouco de secreção na garganta, estava configurado o quadro para uma noite insone. Então peguei um pedacinho de remédio e já resolvi o problema antes que ele tomasse conta de mim. Não quero integrar essa tribo que tanto critico que, ao invés de se medicar de cara e garantir uma noite em paz, só o faz às 3 da manhã para ter que acordar às 6 – com sono bíblico e reflexos de tartaruga. Terminei na cama o livro “1989” e já engatilhei uns contos em catalão, língua de que gosto tanto e que está voltando com força. Já tinha esquecido o quanto me viro bem nela e tudo entendo. .

7 de janeiro  

A vida pode mesmo ser um filme. Muitas vezes vejo no cinema uma cidade deslumbrante ou apenas bonitinha. Espero então o fim do filme para ver nos créditos onde a ação aconteceu. Em outras tantas, dá-se o inverso. Por puro acaso, posso descobrir um lugar na Itália, Espanha, Bósnia, Suíça ou Eslováquia e pensar: que lugar bárbaro para uma filmagem. Como é que ainda não o descobriram? Mas também ocorre de estar morando a metros de um cenário idílico e não saber o que ele já representou para a indústria. Foi o caso de hoje. Lendo o jornal com tranquilidade, à medida que Girona retoma o curso da vida, acabo de ser informado pelo dono do quiosque que meu bairro foi palco das filmagens mais impactantes de “Game of thrones”, a que nunca assisti. Aliás, não sei se por coincidência, mas eis um filme que congrega a maior legião de fãs uniformemente chatos que já conheci. Pois bem, ignorante do fato, eu vinha dormindo há dias no cenário do filme. Não muda nada, mas é uma metáfora da vida. Só sei que nem por isso pretendo entrar na catedral para conhecer. Pelo contrário, só reforça minha vontade de vê-la de fora. João Paulo II quando foi ao Recife, passou bem abaixo da janela de papai. O edifício todo se dependurava na varanda, acenando para João de Deus. Papai ficou impávido no sofá assistindo a Tom & Jerry.  “Desde os tempos que eu viajava pelo interior do Paraná, aprendi a ter birra de polonês carola. E esse é um deles”, foi o que disse. Amanhã teremos Ghosn na televisão à partir das duas da tarde, hora da Europa. Ele falará desde Beirute, dez dias depois da colossal evasão do sistema judicial japonês. Muita gente passará a noite em claro em Tóquio, onde foi urdida uma denúncia vazia para pretextar um certo destrato, sem o qual o Japan Corporation ficaria em desvantagem vis-à-vis uma empresa ocidental – fato aceitável em todo o mundo desenvolvido, salvo lá. Para mim, não importa como Ghosn saiu de Osaka. Em abril de 1973, o ex-premiê Ehud Barak, à época comandante do Sayeret Matkal, desembarcou em Beirute vindo do mar de peruca loura, olhos com sombras azuis e salto alto. Na agenda, uma missão nada amistosa junto aos líderes da OLP, que não sobreviveram. Ghosn entendeu que guerra é guerra. Que tenha serenidade para denunciar o complô sórdido. E paz de espírito para fazê-lo sem ódio, o que não deve ser de todo fácil.

8 de janeiro 

Tive o dia mais produtivo do ano. Tudo somado, trabalhei 6 horas no novo livro, para além do tempo gasto com noticiário e amenidades. Tudo isso para poder acompanhar a entrevista de Ghosn que, pelas minhas contas, durou duas horas e vinte. Achei o desempenho dele soberbo – em ambos os sentidos, o que só me alegrou a alma. Passei vinte anos trabalhando com o Japão, fiz mais de 100 viagens até lá e alimentei muitos anos de reflexão para entendê-los. Carlos decodificou a charada rapidinho e não esperou a boa vontade de ninguém. O Japão está como uma barata que leva uma carga grande de veneno e agoniza de papo para o ar. Viva o mérito, abaixo a torpeza, abaixo a mente falaciosa e estreita de burocratas e pobres de espírito – onde quer que eles estejam. No fim da tarde, vi que o relógio parara de funcionar. O que seria? Seriam as porradas que dei na mesa? Levei-o à loja para um diagnóstico. “Está comigo há 5 anos, nunca deu problema e custou só 150 euros. Se o conserto for caro, melhor esquecer, vejo as horas pelo celular.” Pouco depois, o rapaz o devolveu. “Era só a bateria. Já a trocamos, são 6 euros. Consertamos também um mini ponteiro de segundos que estava solto.” Fiz as contas: 4.5% do valor da peça depois de 60 meses no pulso, ou 1800 dias. Se não perdê-lo, a próxima parada será aos meus 66 anos. Farto de pensar bobagem, sentei no terraço do café para sentir o declínio da temperatura do entardecer. Então vi um céu lindo, encarneirado de vermelho: “Vai chover na sexta”, disse o garçom. Como faço todo dia ao voltar do passeio da tarde, entrei na loja de Oriol. Olhei as prateleiras e xeretei a procedência dos azeites trufados, pimentas e condimentos. Ele comentou: “Foi uma loucura o Natal. Éramos 3 a trabalhar e a fila chegou à rua. Não exagero se disser que laminamos 80 presuntos e já nem falo dos que vendemos inteiros.” Bravo. Enquanto isso na França, os pequenos comerciantes demitem e entram em concordata por conta da greve ignominiosa. Disse-lhe que de minha parte nunca comecei um ano tão frugal. “Melhor assim. O bom comerciante prefere vender menos por mais tempo. Clientes longevos são nosso melhor ativo”, ele falou como se eu fosse fiel morador de Girona. Na terça-feira, termina minha missão por aqui. Para onde vou? Não sei, o destino mandará sinais.

A hora da partida

Entardeceu. Durante 15 dias estive aqui, embalado por uma ou outra conversa; por uma média de 6 mil passos ao dia (é o telefone quem diz, não eu); marcante frugalidade à mesa (comparada a meus padrões nos últimos 10 anos), e dieta severa de jornais (só 1 ao dia, no máximo 2). Sobre as belezas de Girona, mais senti-as do que as vi. Em nenhum momento me abalei sequer a entrar num museu dos tantos. Nunca explorei tão pouco as tentações gastronômicas de um lugar desde 1990, e tão poucas vezes saí de meus domínios para explorar a região (a Catalunha) – que, de resto, já visitei à exaustão entre 1996 e 2006. Fracassado como turista (que nunca consegui ser), sou mais do que nunca um viajante assumido. As questões que me mobilizaram pouco tinham a ver com a cidade e poderiam ter me ocorrido aqui, em Timbuktu, Hanói ou Votuporanga. Alguém pergunta: mas então por que viajar para tão longe? Pois bem, respondo com o clichê: longe é um lugar que não existe. E depois: longe do quê? Eis um elemento sem resposta possível. Depois, é verdade, aqui estive mais perto de mim do que estaria em qualquer lugar do mundo. Aqui as casas são de pedra, a temperatura à noite fica em torno de 0°, fala-se um catalão melodioso, as livrarias são escuras e depois das 10 da noite é raro que se ouça um passo na rua. Aqui pensei nos amigos que já morreram, e nos que não estão tão bem, mas que vão melhorar. Acompanhei a chegada de 2020, a agonia da França numa greve ensandecida, a ciclotimia do Irã – onde se foi do pranto solidário à determinação golpista em dias, constatadas as responsabilidades na queda do avião ucraniano -, a escapada para a liberdade de Ghosn, o movimento da barbearia que fica diante da janela, a vida dos hóspedes do Bellmirall e todas as delícias dos burgos europeus no inverno. Amanhã tudo é possível. Tenho um dado: 1 é Norte, 2 é Sul, 3 é Leste, 4 é Oeste. Joguei-o na mesa depois do almoço para saber onde vou. Deu 3. Já tenho o ponto cardeal. Amanhã saberei o país. Liberado para qualquer escala até Pequim, é para sentir isso que viajo. Viajar é ter a sensação de que nos distanciamos da morte. Quanto àquele pensamento que me assaltou pela primeira vez em Évora e forçou entrada mais uma vez aqui, ele se confirmou: eu estava precisando mesmo começar um ano sozinho, sem quaisquer companhias. Calhou de ser 2020 e foi muito bom.

3 Comments

  1. Caro Fernando,
    Você mais uma vez nos surpreende com sua sensibilidade em captar paisagens, naturais e humanas, e nos brindar com os frutos de sua enorme vivência internacional.
    Mas desta vez tenho algumas restrições. 1) Embora admitindo que os sócios japoneses de Carlos Ghosn tenham tido diferenças com ele, não posso imaginar a Justiça Japonesa como injusta. É o mesmo que achar que a nossa Justiça foi parcial e arbitrária ao condenar, já por duas vezes, o ex-presidente Lula. E a festa que o sr. Ghosn promoveu no Palácio de Versalhes é um verdadeiro escárnio à pobreza do mundo. 2) Mesmo sendo você um cidadão do mundo, um cosmopolita, não é um esnobe. A depreciação dos serviços brasileiros de hotelaria pegou mal. Também temos as nossas virtudes e amenidades.

  2. Prezado Clemente,

    Obrigado por seu comentário. O mérito não está na minha escrita, mas nas inúmeras experiências que a vida me proporcionou pelo mundo. Tentar reproduzi-las em palavras e compartilhá-las com vocês é uma coisa que vejo quase como dever. Menos mal que alguém as lê – logo você um homem tão eclético.
     
    Insisto na presunção de inocência de Ghosn que lhe foi negada no Japão. Vou ao Japão desde 1984, foram mais de 150 viagens e lidei com alguns de seus maiores conglomerados. Acompanho de perto os ritos nipônicos desde então e sei quando o país se arma como uma corporação para emular golpes de judô no tatame empresarial.

    Ghosn fez muito bem em se evadir e em denunciar o sistema. Isso concorrerá para o bem do próprio Japão, se bem que não foi esta a motivação dele. De resto, um homem dessa envergadura não é um querubim nem gostaria de ser visto como tal. Desde o golpe branco que lhe foi desferido, essas empresas (Renault, Nissan, Mitsubishi) perderam dezenas de Bilhões de dólares em valor de mercado. Isso dá uma medida de quem ele era. 

    Quanto à festa, a empresa era mantenedora de Versailles. Vejo isso acontecer frequentemente no meu mundo. Desfiles de Armani na praça Vermelha e recepções particulares no Duomo de Milão, na ópera de Zurique são lugar comum. Afora casamentos de jogadores de futebol nos maiores castelos do Loire. Ronaldo Gorducho casou em Chantilly e ninguém disse que foi um escárnio contra a pobreza. Aliás, o salário anual de Ghosn não chegava à metade do de Neymar. Isso para ter 3 cartões de presidente de empresa, e dormir 100 noites por ano num tubo de alumínio e espuma a 12 mil metros de altura durante 20 anos. É pouco, é muito pouco. Nos EUA ele ganharia o dobro. 

    Daí achar que ele fez muito bem em fazer o que fez. O mal de Carlos é ser multicultural, é ser um amazonense que estudou no Líbano, graduou-se na França, trabalhou nos Estados Unidos e foi ser presidente de uma empresa japonesa. A legião de invejosos de todo mundo não pode perdoar uma trajetória dessa. Nem no Brasil nem na França nem no Japão – talvez só mesmo nos códigos culturais fenícios.
     
    Já pelo meu lado esnobe, queira me desculpar. É o risco que se corre quando se dá para publicação textos íntimos, não editados, feitos para consumo próprio, mas que julgamos em dado momento atender ao interesse geral.

    A idade não me tem feito bem, Clemente. Meu pai quando tinha 61 anos como eu, em 1988, começou a ser revelar um homem mais tolerante e conciliador. Morreu aos 72 quase dócil, comparado ao homem inflamado e sentencioso que foi a vida toda. 

    Eu era até um bom rapaz. Fui um menino meigo. Na meia idade, passei a vida conciliando posições, criando pontes por sobre culturas no mundo todo, numa experiência que bem poucas pessoas tiveram. E no entanto, a entrada no outono da vida me transformou. No caso em questão, admito profunda aversão à cultura de procrastinação e de tergiversações que é tão presente nos setor de serviços do Nordeste. E que tem começado a chegar a São Paulo em função da imbecilização propiciada pela era do numérico, do algoritmo.

    Tenho regularmente experiências nesse campo. Paga-se comparativamente muito para ter pouco em retorno. É a civilização da redundância, do trabalho dobrado, do desprezo pelo caráter sequencial do uso do tempo. Não faz muito tempo um sujeito operou a tireoide de mamãe no Recife e tirou a banda errada. Pálido, admitiu o erro. Teve que anestesiá-la de novo, coitada, então já aos 80 anos. Marceneiro, eletricista, enfim, todo mundo se reserva o direito de só acertar na segunda vez. É como no tênis. O primeiro saque vai de bônus.
     
    No diário, admiti a intolerância que sequer aqui consigo ocultar. No mais, por estar falando dos meus, talvez tenha ficado à vontade para dizer o que disse. 

    Abraço daqui de Belgrado,

    Fernando

  3. Caro Fernando:
    Você respondeu elegantemente ao meu comentário com uma nova crônica, de qualidade, como sempre. Eu me senti homenageado, e ganharam seus leitores.
    Mantenho meu respeito pela Justiça japonesa, como pela brasileira, neste último caso até com menos razões. Admito que os colegas executivos de Ghosn tenham sido traiçoeiros, e tramaram para descartá-lo. Mas ele deve ter feito, como os outros, alguma coisa que não tenha sido estritamente legal, embora nem tenha ultrapassado o círculo maior da ética. (Um professor meu de Direito costumava dizer que Direito e Moral eram círculos concêntricos). Fui executivo e assessor de grandes empresas, e sei que isso pode acontecer.
    Quanto à crítica à qualidade dos nossos serviços, você tem toda a razão. A ineficiência, a impontualidade, o amadorismo, são a face mais melancólica do subdesenvolvimento, que ainda precisamos vencer. Mas é sempre melhor lavar a roupa suja em casa. E as suas crônicas, para honra da Revista Será?, atravessam continentes e oceanos…

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