Edgar Morin, é um antropólogo, sociólogo e filósofo francês judeu de origem sefardita (101 anos).

 

Certa vez, anos atrás, na praia, conversávamos, eu, Monteirinho e Fernando Menezes, sobre velhice. Como encará-la? Como enfrentá-la? Como vivê-la? Como desfrutá-la?

Após o almoço, no terraço, olhando aquele marzão de Deus, parei. Colhendo a brisa que acariciava meu rosto. Distraidamente, passei a mão numa mesa colocada na extremidade do terraço. Senti na fissura da madeira a ação do tempo. Que, de certo modo, dava à peça o valor do tempo. Compunha um quadro. Dava-lhe um peso. Era companhia na serventia de nossa convivência. Aquilo tinha a ver com a conversa que tivéramos antes do almoço.

Li, ontem, que, nos anos 50, uma cabelereira, no estúdio, perguntou à atriz Anna Magnani se queria corrigir suas rugas. Ela respondeu: “Não toco nas minhas rugas. Levei muito tempo para adquiri-las. São símbolo de minha experiência, de minha vida”.

Vivemos época em que se valoriza muito a beleza exterior. A juventude. Como se ela fosse eterna. Como se o tempo fosse uma coluna apenas de passivo. E não fosse também uma coluna de ativo. Nós não nos preparamos para a maturidade. Não só para vivê-la. Mas para compreendê-la. Na amplitude de visão da vida. E na profundidade de experiência vital.

Leio quase diariamente notícias sobre morte de pacientes que buscam rejuvenescer. Uma busca, quem sabe, desesperada para permanecer jovem. Em vão. O tempo é tríbio: passado no presente, presente no futuro. E os três conceitos envelopados. Para serem vividos numa cartada única. Misturados. Sem escala. Cada pessoa com seu destino. E a sensação do tempo varia conforme a cultura. O tempo norte-americano é medido em dólar: time is money. O tempo ibérico é mensurado pela siesta no interior da Espanha. Ou por certa melancolia no deslizar do Tejo. Por sua vez, o tempo tropical, moreno, do brasileiro é lúdico. Percebido, brincante, na percussão.

O homem primitivo ignorava o futuro. O homem moderno enxergava só o curto prazo. O homem pós-moderno enxerga o longo prazo. Mas o enxerga mais na economia do descarte. E menos na instância da sustentabilidade. Esta consideração vale para coisas. E para os velhos.

O homem pós-moderno precisa enxergar, na velhice, o sábio. O sábio que existe nos velhos. E o velho será tanto mais sábio quanto mais completo for. Apreciador da beleza da vida, da música, da pintura, da ciência, da filosofia. Basta ouvir a ária da quarta corda de Bach. Ou olhar Noite Estrelada, de Van Gogh. Ou escutar o silêncio do mar. Ou aprender a esperar com as estrelas. Ou sentir o arrebol descaindo por trás do rio da minha aldeia. Ou bater bola com o neto e conversar sobre desenho com a neta.

Pode também ler O Elogio da Serenidade, de Norberto Bobbio. Mas não monetize a vida. Não a desperdice na miudice da prata. Como disse Gilberto Freyre, o moderno apenas moderno é efêmero. A questão de nossa era é a obsolescência. O carro fica obsoleto. O computador fica obsoleto.

Mas, o afeto não fica obsoleto. O amor não fica obsoleto. A estima nos amigos não fica obsoleta. A amorosidade no outro não fica obsoleta. Quanto mais afeitos ao afeto, menos obsoletos ficamos. Quanto mais amorosos e velhos, serenos, sábios seremos.