
Diego Rivera
O presidente Donald Trump está aplicando, de forma inconsequente e completamente extemporânea, as teses da CEPAL-Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe e do seu criador, Raul Prebisch, formuladas nos anos 50 e 60 do século passado. As teses cepalinas levaram à implantação da política de substituição de importações em vários países de baixo desenvolvimento, incluindo o Brasil, com o objetivo de industrialização em economias primário-exportadoras, exportadores de produtos de baixo valor agregado e importadores de bens industrializados de maior valor agregado. Esta relação centro-periferia, como denominavam, era prejudicial aos países subdesenvolvidos devido à tendência de deterioração dos termos de troca, com impacto negativo na balança comercial.
O principal instrumento da política de substituição de importações foi o protecionismo. Com o estabelecimento de tarifas alfandegárias elevadas sobre as importações de produtos industrializados, os Estados nacionais estimulavam o investimento no setor industrial do país para atender à demanda nacional. Com os produtos importados entrando nos países por um preço alto, devido às tarifas, a produção própria, mesmo com menor produtividade, tornava-se viável. Em países com um amplo mercado interno, como o Brasil, esta reserva de mercado tornava atrativo o investimento de capitais externos, que passavam a produzir internamente para evitar as restrições alfandegárias.
Durante alguns anos, a política de substituição de importações deu certo, abrindo um ciclo de industrialização e modernização das economias subdesenvolvidas, sucesso muito notável no Brasil, favorecido pelo tamanho do mercado interno. O modelo teve, contudo, um custo social: o consumidor brasileiro foi obrigado (ainda está sendo) a pagar mais caro pelos produtos que eram importados, financiando a industrialização da economia. O resultado positivo gerou, como contrapartida, a proteção de setores industriais de baixa produtividade, que continuam dependendo da reserva de mercado. No fundo, o protecionismo beneficia as indústrias ineficientes que se acomodam com o mercado protegido e não sentem estímulo ou pressão para a inovação. Os lobbies resistem à redução das tarifas alfandegárias, de modo que o Brasil continua sendo uma das economias mais fechadas do mundo.
Alguma semelhança da guerra tarifária de Donald Trump com a Cepal? Apenas o protecionismo, que, no entanto, está sendo utilizado agora em condições históricas radicalmente diferentes, completamente inadequado, portanto, para um país industrializado e de alto desenvolvimento, como os Estados Unidos. Sem falar na forma perversa do protecionismo como instrumento de chantagem da grande potência contra inimigos e aliados. Trump, claro, nunca leu Prebisch e não o teria mesmo entendido. A economia e o comércio globalizados são muito diferentes dos anos da Cepal, com o alto nível de integração em cadeias globais de valor e intensas trocas de componentes na composição dos produtos. Além disso, os Estados Unidos são uma potência industrial e lideram a economia do conhecimento, com maior agregação de valor que as tradicionais indústrias. Trump pretende trazer de volta aos Estados Unidos indústrias que, ao longo dos anos, se transferiram para países de menor custo de produção, sem perceber que as empresas estadunidenses se beneficiam dos baixos custos e concentram os lucros nas etapas de conhecimento das cadeias de valores – pesquisa e inovação, design e marketing – e na exportação de serviços de alta tecnologia (big techs, streamings, serviços financeiros e seguros, e royalties, entre outros). Com um superávit de quase 300 bilhões de dólares (2024), a balança comercial dos serviços contribui para moderar o déficit comercial total dos Estados Unidos (cerca de US$ 293 bilhões).
As multinacionais com sede nos Estados Unidos organizam a produção em escala mundial, distribuindo a produção dos diversos componentes e a montagem final dos produtos de acordo com as vantagens locacionais de cada país, aumentando a eficiência e a lucratividade geral da economia norte-americana. Os Estados Unidos lucram com a operação industrial fora do seu território, graças ao menor custo de produção, e concentram no país os elos nobres da cadeia global de valor – na concepção dos produtos e componentes, na inovação de processo e produto, no design e no marketing – precisamente os elos mais rentáveis e que mais agregam valor ao produto final.
Recorrendo ao modelo de substituição de importações, que sequer serve mais para os países de menor desenvolvimento na era da globalização e da economia do conhecimento, Trump pretende “reindustrializar” os Estados Unidos. Uma visão retrógrada e condenada ao fracasso. Como um homem de negócios do setor imobiliário, ele é um saudosista do ciclo industrial do século XX, atropelado pela revolução científica e tecnológica e pela intensa integração produtiva global. Impulsivo e voluntarista, o presidente dos Estados Unidos está empurrando a maior economia do mundo na contramão da História, restaurando o velho e ultrapassado mercantilismo.
Nada como a análise de um especialista, para dissecar as opções irracionais de Trump, na tentativa de favorecer a economia do seu país.
Magister dixit. Também posso acrescentar, fazendo coro às palavras do autor: Dixi, et animam meam salvavi.
Interessante artigo do Sergio. Nos faz lembrar como a direita, tipo Trump, se encontra com a ex-querda, tipo Ciro e outros que se consideram radicais mas na verdade são nostálgicos, logo não são esquerda. E nos desperta para que entre esses que se encontram, os demais continuamos sem proposta, nova intelectualmente e viável politicamente.
Esta comparação que Sérgio C. Buarque faz, entre o argumento do protecionismo no Brasil nos anos 50 e 60 do século passado e o protecionismo dos Estados Unidos no século XXI, mostra que este, de Trump, é o protecionismo da indústria nascente de ponta cabeça. O protecionismo em países subdesenvolvidos exportadores de matérias primas tinha uma lógica e fez algum sentido no imediato pós-guerra, mas já nos 1980s a CEPALC (agora com C adicionado para incluir o Caribe) havia passado à tese do “regionalismo aberto”. O protecionismo de potência econômica tem características diferentes, está sendo usado também como chantagem para extrair, país por país, concessões específicas, como promessa de investir nos EUA e suspensão de compras de terceiros (e até o voto para Prêmio Nobel da Paz). Além disso inclui-se nesse neoprotecionismo a preocupação de segurança nacional, pelo que o governo dos EUA está adquirindo participação em empresas de tecnologia. Já vi até analista dizer, por esses investimentos do governo, que Trump está adotando o “modelo chinês”.