
Quando éramos mais jovens, José Álvaro Moisés era um expoente intelectual do PT, fundador do partido. Conversei várias vez com ele sobre isso. Eu, na época, militante comunista tão democrático que me sentia incomodado com o dogmatismo e a rigidez do Partidão. Cheguei a sugerir a Moisés, numa bela manhã de sol em Águas de São Pedro, durante uma reunião da ANPOCS, que ele nos ajudasse a democratizar o Partidão ou a refunda-lo. Foi cauteloso, disse que não era o momento certo de dar esse passo.
Éramos ambos professores universitários de ciência política, ele na USP, eu na UNESP. Ambos militávamos no que se poderia chamar de esquerda democrática, com suas variantes.
Alguns anos depois – creio que no início do governo FHC – Moisés deu o passo. Junto com Francisco Weffort, tornou-se um crítico do PT. Juntos, passaram a fortalecer o PSDB, enquanto eu permanecia fora de partidos. Alcançamos, assim, uma sintonia que foi ficando mais fina com o tempo.
Moisés sempre foi um cientista político dedicado aos estudos sobre democracia. Escreveu bastante a esse respeito. Analisou greves e movimentos sociais, buscou compreender o valor da cultura política e nunca perdeu de vista a questão da qualidade da democracia, da representação e dos representantes. Suas aulas e seus livros formaram uma geração.
Nos últimos anos, atuava como professor sênior no Instituto de Estudos Avançados (IEA-USP), onde coordenava o projeto Qualidade da Democracia e integrava o Núcleo de Pesquisa em Políticas Públicas (NUPPS), que dirigiu por duas décadas.
Moisés atuava no movimento “Direitos Já! Fórum Pela Democracia”, preocupado com a criação de uma frente democrática que qualificasse eleições para o Senado, em 2026, evitando assim o predomínio de uma representação majoritária da extrema direita.
Ele também se integrou ao Movimento Roda Democrática, no qual pudemos retomar conversas antigas. Com vários outros companheiros, tentávamos clarear o terreno da luta pela democracia, com seus impasses, exigências e possibilidades. Muitas conversas virtuais, muita troca de informações, muita ironia também.
Moisés queria organizar um livro sobre a trajetória e o pensamento de Francisco Weffort, de quem foi parceiro em várias atividades e ao qual esteve ligado por grande amizade. Pediu-me que participasse da iniciativa. Foi sobre isso nossa última conversa.
A Roda certamente continuará a girar, mas a ausência de Moisés será sentida demais.
A vida tem disso. A morte desaba sobre os vivos como um pedra dura.
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