
COP30
Encontrando-me na Conferência das Partes (COP) por dever de ofício e participando pela primeira vez, decidi registrar as minhas impressões sobre o evento.
A percepção predominante sobre a COP é a de que se trata de uma reunião de representantes de países para debater a questão climática. Uma espécie de parlamento mundial, com o escopo de definir e, sobretudo, recomendar ações globais que enfrentem os eventos críticos, mais intensos e frequentes, decorrentes das alterações climáticas. Esta conferência ocorre anualmente, há trinta anos.
As COPs são saturadas de discursos, promessas e compromissos que, até o momento, não lograram provocar mudanças substanciais, apesar da vasta cobertura midiática.
A despeito dos esforços empreendidos, as emissões de gases de efeito estufa continuam a crescer anualmente, acarretando impactos negativos progressivamente maiores na economia e na saúde dos seres vivos, sejam eles humanos ou não humanos. É imperativo notar que o número de óbitos decorrentes desses eventos críticos, como os ocorridos com o tornado em Santa Catarina na semana anterior, não cessa de aumentar.
Ao avaliar essa trajetória, os otimistas defendem que, mesmo que as conferências não tenham gerado muitos efeitos positivos, a situação seria pior sem a sua existência. A realização das COPs é tida como uma vitória do multilateralismo, dos defensores da ciência e dos democratas em geral, uma vez que todos os países são convidados e seus resultados exigem consenso. É, por outro lado, uma derrota para os negacionistas – forças políticas frequentemente autoritárias que desvalorizam a ciência e a própria existência das mudanças climáticas. Essa perspectiva não carece de fundamento.
Contudo, é inegável que se trata de uma vitória pífia, com poucas alterações observadas na emissão de gases de efeito estufa e na preservação da vida na Terra.
Impõe-se uma mudança. As promessas de investimentos, que outrora se mediam em bilhões e agora atingem a casa dos trilhões, destinadas a mitigar os efeitos nocivos das atividades humanas e a auxiliar os países em desenvolvimento a se adaptarem às alterações climáticas, persistem quase exclusivamente no domínio da promessa.
Nesse sentido, os documentos e as inovações sugeridas e negociadas durante a COP — e a dificuldade dessa negociação é inegável — têm a sua gênese meses antes da reunião.
No entanto, a COP constitui-se também como um encontro de inúmeras tribos humanas. Não arrisco afirmar que sejam todas, por impossibilidade de prova e de conhecimento dessa totalidade. É uma vasta feira de múltiplos pequenos eventos que ocupam diversos espaços. Os mais notórios são as Zonas Verde e Azul. Simultaneamente aos acontecimentos nesses espaços, desdobram-se inúmeros outros, como a Cúpula dos Povos na UFPA, a reunião dos jovens do GYCP na UFRA, o encontro da bioeconomia amazônica no Museu Goeldi, e muitos outros. É uma profusão de eventos, todos buscando a oportunidade de manifestar-se e ser ouvido.
A Zona Azul é o local do encontro internacional, regido pela Organização das Nações Unidas (ONU), para o qual se exige a obtenção de uma credencial específica, mediante solicitação e apresentação de passaporte. Esta é, de fato, a zona central da COP, visto que a Zona Verde, de acesso livre, apresenta uma ampla predominância de participantes brasileiros. Ao percorrê-la, encontrei pouco mais do que meia dúzia de entidades não brasileiras. A sensação é a de um espaço onde “nós falamos para nós mesmos”.
O público é composto por pessoas de múltiplas cores, culturas e idiomas, embora, como esperado, haja a predominância do inglês na Zona Azul e do português na Zona Verde. O inglês é o idioma mais difundido no mundo, pelo menos por enquanto. É provável que, no futuro, essa realidade se altere, quando cada indivíduo poderá, porventura, falar seu idioma materno e ser compreendido pelo outro em seu respectivo idioma. Este fenômeno soma-se a outros que prenunciam um empobrecimento intelectual.
Observando os que circulam nas Zonas Verde e Azul, é possível notar a presença de pessoas que aparentam simplicidade, algumas com um ar ingênuo — muitas, aliás, particularmente na Zona Verde. E, sempre sob um olhar superficial, há indivíduos com uma postura arrogante, que almejam ser donos do mundo, ou que se veem como tal. Pessoas que, a exemplo de certos juízes (ou políticos ou artistas), se julgam deuses. A caminho de Belém, ainda no avião, deparei-me com um desses indivíduos. Uma mulher, branca, jovem, de cabelos escuros, discutia acaloradamente com a aeromoça por não ter recebido o upgrade para a classe premium. Aos gritos, reivindicava seu “direito” de ser tratada de forma diferenciada. A aeromoça explicava que o upgrade era uma cortesia concedida pela empresa e que ela não podia intervir, sobretudo porque todos os assentos daquela classe já estavam ocupados. A passageira, contudo, “exigia” o upgrade, chegando inclusive a tentar impedir o fechamento da porta da aeronave. Eu, que surpreendentemente havia sido agraciado com essa cortesia, assistia à sua alteração. Por esse fato, a aeromoça sentiu-se na obrigação de me explicar a situação. Respondi-lhe apenas que ela havia agido corretamente e que, se necessitasse de um testemunho em seu favor, poderia contar comigo.
De forma simples e dicotômica, a COP é uma “luta” entre os lobistas da degradação versus os lobistas da salvação. Lobistas que se digladiam em torno daqueles que ocupam, provisória ou permanentemente, posições de liderança em seus países ou em organismos multilaterais (políticos e autoridades). Contudo, é uma luta silenciosa, discreta e, na maioria das vezes, extremamente elegante. A disputa desenrola-se longe dos olhares dos simples mortais que frequentam os diversos estandes de países ou entidades, onde se observam apenas conversas, palestras e mímicas.
Dentre os lobistas da salvação, alguns se veem como salvadores do planeta ou da própria vida, como se estes necessitassem de resgate, enquanto outros se julgam “apenas” salvadores da humanidade. A polarização é por vezes extrema, eliminando qualquer possibilidade de diálogo. No entanto, o extremismo não costuma prevalecer, pois o diálogo se manifesta em declarações como a de que a exploração do petróleo será mantida apenas por mais alguns anos, com o fim de financiar as alternativas econômicas ao modelo intensivo em carbono. Há ambientalistas que concordam, argumentando que não se pode deixar a ideia de desenvolvimento nas mãos da “direita”. “Precisamos defender o desenvolvimento sustentável ou humano”, afirmam. Outros, mais radicais, pressionam por uma moratória do petróleo e demandam o fim das novas explorações. Não obstante, que o leitor não se assuste, há aqueles ainda mais radicais que pleiteiam o fim do crescimento econômico e o término da utilização de combustíveis fósseis o mais rápido possível, pregando uma vida simples, austera e sem ostentação.
Há discursos para todos os gostos. Apenas os mais moderados ganham visibilidade na grande imprensa, exceto quando os radicais realizam manifestações de protesto, como a tentativa de invasão da Zona Azul — o espaço da ONU —, impedida pela segurança do evento na terça-feira, 12 de novembro. Esse fato foi amplamente divulgado pela imprensa. Os manifestantes exigiam impostos mais elevados para os bilionários (que em geral sequer pagam impostos) e a paralisação das operações de sondagem de petróleo na costa equatorial que se inicia no Amapá, perto do estuário do rio Amazonas. Um segurança ficou ferido. Não houve notícias de que algo similar tenha ocorrido entre os manifestantes.
Os defensores da degradação, é claro, não se apresentam como tal. Ao contrário, declaram-se pessoas preocupadas com a conservação da natureza, com a redução da pobreza e da desigualdade. Afirmam que o mundo precisa crescer economicamente, o que se traduz na necessidade de ampliar a exploração de recursos naturais, alguns não renováveis, para erradicar a fome e reduzir a pobreza. Ao se examinar os últimos trinta anos, constata-se que a fome diminuiu, embora pouco, e a desigualdade aumentou, e muito.
A COP se desenrola em muitos lugares, e em poucos. Nos muitos lugares, as pessoas se apresentam em defesa do planeta Terra; nos poucos, definem-se as promessas, os compromissos e as declarações. Demarca-se o terreno do embate e as regras do jogo, que invariavelmente favorecem os lobistas da degradação, mais poderosos nos âmbitos econômico, ideológico e político.
Na COP, há espaços de ilusão e espaços de decisão.
Bom artigo do Elimar com o toque local para os que não foram à COP terem o sentimento do evento. Ótimo que ele comece explicando o que significa do acrônimo COP que muitos não sabem: conferência das PARTES, se
propondo debater o TODO ecológico, da civilização, do Planeta. É um encontro de países preocupados com a crise ambiental mas comprometidos com os interesses nacionais, querem a transição para um desenvolvimento equilibrado no mundo, mas querem saber quanto cada um vai receber para fazer a transição sem reduzir o consumo. Na COP nem entra o tema educaçao para um desenvolvimento harmônico. Além do artigo do Elimar sugiro uma resenha do livro “O Sonho da COP – uma conversa com Carlos Nobre”, escrito graças à peogramação do IEPfD.