Lula

Lula

A sete meses das eleições, o Brasil atravessa uma área de fortes turbulências que comprometem o desempenho da economia e alteram o humor do eleitorado. A tempestade perfeita combina a crise mundial do petróleo com o pânico nos meios políticos diante do provável acordo de delação premiada de Daniel Vorcaro. Mesmo sem essa delação, a análise dos muitos telefones celulares do empresário preso já foi suficiente para atingir dois ministros do STF — Supremo Tribunal Federal, Dias Toffoli e Alexandre de Moraes —, levantar suspeitas sobre o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, e sobre líderes do Centrão, como o senador Ciro Nogueira.

Os desdobramentos do escândalo do Banco Master podem não chegar ao Palácio do Planalto, mas a desmoralização das instituições da República e a sensação de uma grande promiscuidade político-institucional criam uma atmosfera propícia a discursos e candidaturas antissistema. O que elegeu Jair Bolsonaro, em 2018, pode voltar a operar agora, a não ser que surjam suspeitas de relação entre Vorcaro, seu banco e o candidato da extrema direita.

Para completar o quadro de instabilidade e incerteza política, o Brasil sofre as consequências da crise do petróleo — com a explosão do preço internacional em mais de 50% — provocada pela agressão da dupla Trump-Netanyahu ao Irã. O resultado imediato foi a elevação dos preços dos combustíveis no Brasil, gerando uma indesejada pressão inflacionária. Embora o governo não tenha responsabilidade pela guerra no Oriente Médio, os impactos internos recaem sobre o presidente Lula e complicam sua campanha pela reeleição.

Principalmente se os caminhoneiros repetirem a paralisação de 2018, que, como se sabe, contribuiu para a eleição de Jair Bolsonaro. O governo federal adotou medidas para moderar os impactos da crise do petróleo, como a suspensão de PIS/Cofins, negocia a redução das alíquotas de ICMS pelos governos estaduais e pretende garantir pisos mínimos para o frete de transporte rodoviário de carga. O efeito é duvidoso e, se a guerra persistir por mais tempo, nada será suficiente para impedir uma aceleração da inflação. Será um desastre para a economia brasileira e uma dificuldade adicional para a campanha de reeleição do presidente Lula.

Por outro lado, é lamentável o discurso demagógico do governo ao tentar transferir a responsabilidade do aumento de preços para os distribuidores finais, acusados de especulação, ou ao insistir na crítica à privatização das refinarias, como fizeram o ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, e o próprio presidente da República. Lula afirmou: “Venderam a refinaria da Bahia, nós vamos comprar a refinaria da Bahia”, como forma de retomar o controle de preços e a soberania nacional na produção de combustíveis.

Essas declarações não contribuem para o debate político, confundem a opinião pública e ocultam dados da realidade: a Petrobras responde por cerca de 60% da produção de diesel, e o Brasil ainda precisa importar mais de 20%, enquanto as refinarias privadas contribuem com apenas 20% da oferta total. Com esse discurso, Lula joga mais combustível em um ambiente político já explosivo. E, se eventualmente a Petrobras forçar para baixo o preço de suas refinarias, o Brasil poderá enfrentar um grave desabastecimento de diesel. Seria o pior dos mundos.