
Odisseia
O termo da moda é lacração, que por sua vez deriva do verbo lacrar, transitivo direto, que significa “aplicar lacre em; selar ou fechar com lacre”.
Como gíria, ampla e vulgarmente utilizada no Brasil, foi concebida na internet, nas mais diversas redes sociais, para “descrever alguém que se destacou, teve sucesso/arrasou em alguma argumentação”. Com o transcurso de breve tempo, tendo em vista a brutal velocidade de “maturação” frequentemente duvidosa de assuntos, temas e conceitos no mundo virtual, o termo passou a ter uma conotação pejorativa, destinado a pessoas que utilizam um determinado tema ou fato para se promover de alguma maneira.
Pois bem. Busco evitar o uso desses termos, à medida em que o português é uma língua complexa e rica, com um vasto repertório que dispensa a necessidade da adoção de “modismos” e, em certa medida, até inibe a inovação, estimulando o conhecimento mais profundo do idioma e de seus vernáculos.
O caso em tela é justamente um exemplo atual, de um movimento esdrúxulo destinado a causar espécie e, de certa maneira, ferir a cultura e subverter os fatos, com base na inclusão às avessas. E por meio desse pretexto, pode-se imaginar, ou até esperar, efeito contrário de racismo.
O presente texto foi inspirado no maravilhoso artigo “Nolan e sua Helena de Troia”, escrito por Thiago Braga e publicado em 15/02/2026, na Gazeta do Povo, que aborda o filme Odisseia, do diretor britânico Christopher Nolan, como uma “maneira gananciosa” para conquistar a estatueta do Óscar.
A versão de Odisseia, dirigida por Nolan, escalou para o papel de Helena a atriz Lupita Nyong’o. Antes que algum leitor apressado tente imaginar qualquer intenção diferente, ou até me acuse de racista, já deixo claro que se trata de uma belíssima atriz negra.
O que nos leva a um lugar comum, entre o meu texto e o artigo de Thiago Braga, é justamente a necessidade de causar impacto para se conquistar um prêmio, da forma mais maquiavélica possível. O Óscar deveria ser uma premiação voltada à arte, sem interferência de movimentos políticos, como o da cultura Woke.
Por meio da cultura Woke, com forte adesão em Hollywood, a escolha de uma atriz negra para o papel de Helena, reforça a suspeita de que os fins justificam os meios.
Ou seja, contrariando o objetivo de Fernando Pessoa, “tudo vale a pena, se a alma não é pequena”. Nesse belíssimo poema, “Mar Português”, Pessoa enaltece os sacrifícios, os esforços e a bravura dos navegadores portugueses. E foi além, com poesia, para nos ensinar:
“quem quer passar além do Bojador
tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu”.
E é justamente com esse propósito que concordo com Thiago Braga. A versão de Odisseia, ao tentar emplacar uma atriz negra não combate o racismo, nem é inclusivo. É apenas uma forma de chocar a plateia com o objetivo claro de conquistar o Óscar.
Não é criando um roteiro primoroso, rico em detalhes, com fundo musical estudado. Pode até ter tudo isso. Mas nos parece que busca o prêmio não pelo esforço em criar arte, mas pela ruptura dos padrões étnicos, travestido de inclusivo. Em último caso, sugere que tenta passar o Bojador sem dor.
Odisseia é um poema grego que trata da epopeia do retorno de Odisseu, o herói grego também conhecido por Ulisses, à sua casa, na Ilha de Ítaca, após dez anos lutando na Guerra de Troia.
Por sua vez, Helena, deusa mitológica grega, esposa de Menelau, era filha de Zeus e de Leda. Era notoriamente reconhecida por ser a mulher mais bela do mundo. Sua beleza era atribuída a uma herança divina, quase sobrenatural. Seu sequestro motivou a Guerra de Troia.
O estereótipo de Helena sendo fiel à mitologia, aponta para uma mulher de porte alto, de faces rosadas, de “braços brancos” e “belas tranças”, como Homero a descrevia em Ilíada, sobre seus cabelos loiros.
O filme de Nolan, ao escalar Lupita Nyong’o para o papel de Helena, atende indiscutivelmente ao requisito de beleza. Mas rompe com os padrões de etnia, subvertendo os fatos não em prol da luta contra o racismo.
De maneira análoga, seria o mesmo que escalar o ator Leonardo DiCaprio para representar Martin Luther King, ou Sharon Stone, para fazer o papel de Gladys West, matemática negra americana, considerada a mãe do GPS, cujo legado revolucionou a navegação global.
Não se trata de padrões predefinidos de beleza. A crítica diz respeito ao interesse escuso, utilizando como pano de fundo uma causa nobre, a luta contra o racismo.
Reforço a tese com alguns exemplos de notórias mulheres negras, que deixaram um legado para a humanidade, entre elas Wangari Maathai, professora do Quênia e primeira mulher africana a receber o Prêmio Nobel da Paz; Bessie Blount Griffin, responsável pelo desenvolvimento de próteses e de equipamentos para amputados no pós-guerra; Toni Morrison, primeira mulher negra americana vencedora do Prêmio Nobel de Literatura.
O Brasil seria um terreno fértil para apresentar outros bons exemplos, sobretudo na música. Imaginem Pinxinguinha sendo representado por Rodrigo Hilbert. Ou Dona Ivone Lara, a nossa eterna dama do samba, por Luana Piovani.
Imaginem o que seria, para essas pessoas, um diretor usar seus legados para emplacar um filme e elevar o seu patrimônio pessoal, subvertendo os fatos, com o simples e raso propósito financeiro? Pois bem, a crítica tem início e fim nesse aspecto.
A “arte imita a vida” na visão de Aristóteles. A “vida imita a arte”, na visão de Oscar Wilde. Independente de quem imita quem, a arte deve cumprir o seu papel: estimular a reflexão e promover a compreensão do mundo, sendo sempre fiel aos fatos, sem espaço para “lacração”.
Excelente, meu amigo. A parte que mais gostei foi a que Nolan tenta passar o Bomador sem dor. É isso mesmo!
é o que temos, infelizmente, visto com certa frequência. O imediatismo permeia todos os espaços. Obrigado pelo comentário!
Bem, aqui no Brasil tivemos a realização de um filme, que talvez tenha também buscado essa lacração. O filme é “Mariguella”, de 2021, adaptado da biografia “Marighella: O Guerrilheiro que Incendiou o Mundo”, de Mário Magalhães, dirigido por Wagner Moura, tendo o ator Seu Jorge, um negro, mesmo, representando Mariguella, que estava mais para pardo, filho de uma negra casada com um italiano.
Isso mesmo, Elson.
E acho que a ideia não foi nada feliz.
bem lembrado, caro Elson. Mais um exemplo para ilustrar essa tendência, de resultados duvidosos.
Perfeito , irretocável , informativo e rico . Mais uma qualidade q não conhecia em você, o dom da escrita dentre t tantas outras qualidades, inclusive um excelente formador de opinião. Continue nos proporcionando lindas pérolas para nosso deleite. Parabéns!