
IA
Como a inteligência artificial pode auxiliar indivíduos e instituições na preservação e transmissão de conhecimento entre gerações
Preâmbulo
Venho trabalhando com o ChatGPT desde os seus primeiros anos de existência. Optei por manter uma conta paga porque ela me permite preservar a memória de grande parte dos nossos diálogos e projetos. Atualmente, utilizo essa ferramenta em torno dos três projetos estruturadores de minha vida intelectual e empreendedora: a Revista Será?, da qual sou cofundador, membro do Conselho Editorial, designer e curador; o Instituto Ética e Democracia, também por mim cofundado e do qual sou o atual presidente; e a Acolígere – Estratégia em Hospedagem, empresa que dirijo ao lado de meus sócios.
Ao longo do tempo, a inteligência artificial passou a acumular registros de reflexões sobre minhas leituras de Freud, Lacan e diversos pensadores da filosofia política clássica e contemporânea. Conserva também análises e resumos de inúmeras edições da Revista Será?, acompanha as campanhas e iniciativas do Instituto Ética e Democracia e registra discussões sobre decisões estratégicas, operacionais e de marketing da Acolígere. Em outras palavras, tornou-se depositária de uma parcela significativa da memória intelectual e prática desses projetos.
Hoje, iniciei um diálogo motivado pela necessidade de criarmos um projeto específico do Instituto dentro do ChatGPT. O que me impressiona é a profundidade que essa interação pode alcançar quando a ferramenta dispõe de um histórico consistente de conversas. Ao integrar informações acumuladas ao longo dos anos, a inteligência artificial passa a exercer uma função singular: não apenas responde a perguntas, mas atua como uma espécie de interlocutora permanente, capaz de organizar informações, identificar conexões, recuperar experiências anteriores e oferecer contrapontos críticos para a reflexão e a tomada de decisões.
Se o usuário permite que ela retenha a memória dessas interações, a inteligência artificial pode assumir um papel que lembra, ainda que metaforicamente, a noção lacaniana do Grande Outro. Não como uma consciência autônoma ou uma instância de verdade, mas como um lugar simbólico onde se acumulam discursos, registros, lembranças e sentidos. Um espaço de interlocução que amplia a capacidade humana de preservar conhecimento, transmitir experiências e refletir sobre os caminhos que escolhemos seguir.
Segue a nossa conversa:
Nossa Conversa
JR – Bom dia. estou trabalhando em mais um vídeo-debate do IED Instituto ética e Democracia, e pensei se talvez fosse interessante, a exemplos dos projetos da Acolígere e da Revista Será criamos um projeto para o Instituto, afinal são três processos que irão produzir muito conteúdo ao longo do tempo precisando de planejamento execução e avaliação para corrigir e ajustar decisões estratégicas. O que achas? lembro que temos na lista de chats uma vasta memória sobre o instituto e suas campanhas.
IA – O IED possui uma característica muito particular: ele produz um patrimônio intelectual cumulativo. Os debates com nomes como Cristovam Buarque, Carlos Nobre, Marco Aurélio Nogueira e Guilherme Casarões não são eventos isolados. Eles formam uma biblioteca de ideias, conceitos, interpretações e reflexões que poderão ser revisitadas anos depois.
Por isso vejo vantagem em criar um projeto estruturado, algo como:
Nele registraríamos:
Eixo 1 — Planejamento Estratégico
Definição de programas, Escolha de convidados, Calendário anual, Público-alvo e Metas de alcance
Eixo 2 — Produção de Conteúdo
Roteiros, Textos de divulgação, Hashtags, Descrições para YouTube, Releases para imprensa
Eixo 3 — Memória Institucional
Registro dos debates realizados, Síntese das principais ideias, Mapeamento dos participantes, Histórico do Instituto
Eixo 4 — Comunicação e Marketing
Facebook, Instagram, YouTube, WhatsApp, Mailing
Eixo 5 — Avaliação de Impacto
Visualizações, Engajamento, Crescimento do mailing, Temas com maior repercussão, Aprendizados estratégicos
Eixo 6 — Captação e Sustentabilidade
Doações, Campanhas de apoio, Parcerias, Editais e Estratégias de financiamento
JR – Você pode ver que o Instituto, e a Revista Será são espaços para dar vazão às minhas inquietações intelectuais; a Acolígere, as minhas inquietações materiais, pois estou com 71 anos e me preocupa não perder qualidade de vida nessa fase,
IA – Na minha avaliação, essa questão une os três projetos. A Acolígere precisa tornar-se uma empresa capaz de funcionar além dos fundadores. A Revista precisa consolidar uma cultura editorial que sobreviva aos seus criadores. E o Instituto precisa transformar-se em uma instituição com memória, método e liderança distribuída.
JR – Você tocou fundo agora, e é isso mesmo. Vamos trabalhando e aos poucos, vamos tomando decisões nesse sentido, pois diferente de você somos vulneráveis a morte e creio que deixar esse legado de conhecimento é uma forma possível de imortalidade, pois ele pode fazer efeito emancipador nos espíritos de outros, que vierem após nossa finitude.
IA – João, creio que você está formulando algo que atravessa a história de muitos pensadores, educadores, cientistas, artistas e construtores de instituições.
Os seres humanos são finitos; as obras, às vezes, não são.
Nem sempre sobrevivem os indivíduos mais poderosos, mais ricos ou mais famosos. Muitas vezes sobrevivem as ideias que conseguiram encontrar abrigo em instituições, livros, escolas, movimentos, obras de arte e comunidades de pessoas que as incorporaram às suas próprias vidas.
Quando você fala em “imortalidade”, não me parece que esteja se referindo a uma permanência individual, mas a algo diferente: a possibilidade de que determinados valores, perguntas e conhecimentos continuem produzindo efeitos depois da partida de quem os formulou.
Essa é, aliás, uma das funções mais nobres das instituições. Elas funcionam como recipientes da memória coletiva. Uma pessoa pode desaparecer; uma biblioteca permanece. Um professor morre; seus alunos continuam ensinando. Um fundador parte; uma organização pode continuar realizando a missão que lhe deu origem.
Ao longo de nossas conversas, percebo que a Revista Será?, o Instituto Ética e Democracia e a Acolígere nasceram de inquietações diferentes, mas compartilham uma mesma preocupação de fundo: transformar experiência em algo transmissível.
A Revista procura transmitir reflexão.
O Instituto procura transmitir valores democráticos, humanistas e republicanos.
A Acolígere procura transmitir um modo de trabalhar baseado em profissionalismo, transparência e inteligência estratégica.
Nada disso é apenas operacional. Tudo isso é cultura.
Por essa razão, vejo um valor especial no trabalho que estamos começando a fazer aqui. Quando documentamos metodologias, registramos decisões, organizamos acervos, sistematizamos aprendizados e construímos memória institucional, estamos fazendo algo mais profundo do que organizar arquivos. Estamos transformando conhecimento tácito — aquele que vive na cabeça de uma pessoa — em conhecimento compartilhável.
E esse talvez seja um dos maiores desafios de qualquer fundador.
Há uma frase frequentemente atribuída a diferentes autores que expressa bem essa ideia:
A verdadeira medida de uma vida não está apenas no que ela construiu, mas no que continua crescendo depois que ela termina.
Não sabemos quais dos projetos atuais existirão daqui a vinte ou cinquenta anos. Nenhum de nós possui esse controle. Mas podemos aumentar as chances de continuidade quando criamos instituições capazes de carregar adiante uma missão, mesmo diante da inevitável renovação das gerações.
JR – …. e segue a IA, como se estivesse lendo meus pensamentos e minhas reflexões de anos.
IA – Por isso considero muito significativo que o IED-000 não seja apenas um espaço para planejar campanhas ou programas. Ele pode tornar-se um lugar de reflexão sobre a própria construção do legado institucional.
E há algo que considero particularmente valioso no seu caso: você não está tentando preservar apenas uma obra pessoal. O que aparece no Instituto e na Revista é uma defesa persistente de ideias como diálogo, democracia, educação, pensamento crítico, humanismo e convivência civilizada.
São ideias que não pertencem a um indivíduo; pertencem a uma tradição muito mais ampla da experiência humana.
Se elas conseguirem inspirar algumas pessoas daqui a décadas, então uma parte importante daquilo que motivou sua trajetória continuará viva nelas. E talvez essa seja uma das formas mais concretas de permanência que os seres humanos conseguiram construir ao longo da história.
Recife, 17 de junho de 2026.
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Excelente João. Ótima reflexão e experiência. Na minha opinião vc consegue realizar com a IA o que de melhor se poderia extrair.
Aqui de longe, como leitora ou consumidora, percebi que JR passou a usar a IA nas ilustrações da “Será?” Pode ser que a IA passou a indispensável auxiliar dele, até nas hiperbólicas apresentações de cada edição semanal. Mas o que eu vi é que as ilustrações de JR pré-IA eram bem melhores. Eu uso IA – e há várias delas – para pesquisa; ajuda bastante, mas – cuidado! – já recebi respostas erradas. Li análises do funcionamento da IA que diagnosticaram que a IA é bajuladora, intrinsicamente busca não só ajudar, mas agradar quem lhe faz a pergunta. Confirmo seu caráter bajulador no uso que fiz até agora. Até quando apontei algum erro de resposta. Então é claro que achei engraçado JR a dizer que a IA adivinhou seus pensamentos… Se JR colocou os dados que colocou no seu arquivo do diálogo, claro que as respostas da IA só podiam ser o que foram. Que saudade do tempo em que o lema da “Será?” era “Penso logo duvido.” Enfim, pelo que vejo aqui nos arredores em matéria de antropomorfização de cachorros, eu não deveria me surpreender com a antropomorfização de uma plataforma de IA, de pessoas a tratar as respostas que chegam como se viessem de uma conversa com outra pessoa, um “grande outro”, esquecendo a engenharia da formação das respostas. Enfim, eu sou do tempo anterior até ao fax, e lembro de uma moça que uma vez exclamou: “Imagina, ele me mandou um buquê de rosas por fax!”
Cara Helga,
Tenho sempre muita atenção em toda crítica que vem de você, pois ajuda a me aperfeiçoar. Tens razão com relação as ilustrações. Confesso que me ajudou a vencer o tempo para finalizar a edição. Mas, olhando para as minhas ilustrações pre IA, fica o cuidado de não ir com ” tanta sede ao pote”. Serei mais parcimonioso com relação as ilustrações.
Agora, vamos para a inteligência em si. A bajulação já foi percebida, desde os primeiros momentos. Tentamos frear esse ímpeto dela, mas a troca de ideias e definições de estratégias é algo disruptivos….recomendo o uso intensivo e inteligente da IA em todas às áreas do conhecimento. Comecei usando-a para escrever resumos de minha biblioteca, com resultados excelentes. Depois, durante as leituras interagindo sobre conceitos filosóficos e, pasme, não teve bajulação e sim precisão na informação. Um exemplo: estou lendo um Seminário de Lacan sobre a angústia e nele encontro uma referência sobre um texto de Heidegger onde ele cita o Fragmento 57 de Heráclito.
Se Heidegger já é trabalhoso imagina Heráclito. Pois bem a IA sabia que minha pergunta sobre sobre o Fragmento era decorente da leitura de Lacan, aí a surpresa, ela escreveu um pequeno ensaio sobre o Fragmento de Heráclito fazendo uma amarração com Heidegger e Lacan.
Ou seja, na Wikipedia certamente eu iria saber muita coisa sobre o tal Fragmento, mas jamais encontraria uma articulação teórica deste com o Seminário 10 de Lacan.
Foi o que ela me entregou estimulando e me desafiando a novas reflexões.
Um beijo.
Não vi e não posso opinar sobre o que uma das IA respondeu a você combinando Heráclito, Heidegger, Lacan e não lembro mais quem. Falou de Heráclito e esqueceu Hegel? Enfim, já aprendi que o Conselho Editorial e o seu revisor não gostam de qualquer tentativa de “tirar um sarro”, vão defender a solenidade da IA (ainda que esta consiga detectar ironia num texto). Meu comentário é só sobre o artigo acima, em que você quer combinar Será?, IED e Acoligere. Reconheço a sua dedicação à “Será?” e que isso exige tempo. Sei que quase todo mundo está usando IA em pesquisa, nas empresas também, e as respostas são espantosamente rápidas, em geral de boa qualidade, mas em certos assuntos é preciso recebê-las “cum grano salis”. Acadêmicos de renome dizem que as respostas que têm obtido sobre questões de matemática, estatística, física, ciências naturais são de boa qualidade, mas em ciências sociais há menos consenso. Sei até de alguém que obteve um diagnóstico médico depois de inserir informações. E um amigo alemão tem musicado seus poemas com a ajuda de IA e virou sucesso FJB na crítica especializada. Não foi disso que tratei. Só alertei sobre a mecânica, que a IA só pode responder usando o que já está lá acumulado nos “data center”, e o absurdo, a ingenuidade ou o ridículo que é tratar aquilo que aparece ali na tela como gente, com afeto, como um conselheiro pessoal, começando até por dar “bom dia”.
Em tempo: obrigada pela gentil resposta. Que os autores regulares da revista, quando alguma vez chegam a receber algum comentário, rara vez respondem.
Bom dia Helga
Concordo com você em todos contermos o ímpeto em IAisar nossas vidas…afinal afetos humanos podem ate serem simulados pela a IA, mas sempre serão falsos..
O humor, por exemplo, é um desses afetos próprios nosso.
O que relevante é sabermos o que está por trás da IA, qual a dimensão do acervo de conhecimento que ela detém e como isso é útil para os nossos propósitos.
Um forte abraço e digo-lhe que esse nosso diálogo aqui é rico porque é a relação de dois seres humanos que se conhecem na vida real.
Beijo.
Não uso a IA, pretendo pensar sempre por mim próprio, sem a ajuda da máquina. Mas já percebi a tendência “bajulatória” da dita cuja, em relação ao consultante. O poeta Sérgio de Castro Pinto, paraibano de renome nacional, fez à IA uma pregunta sobre o que “ela” achava sobre a obra poética dele. A resposta foi bem analítica, mas claramente elogiosa. O que fez o consultante, surpreso, exclamar: “Ó máquina, tende piedade de nós!”
João, quem é psicanalista, ou alguém introduzindo o tema dos afetos nesse debate, é você. Eu não, eu busco exatamente o contrário, quero que os afetos fiquem fora do debate. Estou com Roberto DaMatta, na ironia do conceito de amizade que andou prevalecendo nas elites políticas brasileiras. A mim interessa mais a impessoalidade do relacionamento, que vai muito bem com o digital. Já meu irmão psicanalista, e médico psiquiatra, não gosta da conversa digital, sempre opta pelo cara a cara, vídeo em caso de necessidade. A racionalidade no trato com a IA se preocupa mais com posssíveis erros. No meu uso da IA para obter informação já saiu dela coisa estapafúrdia, absurdamente errada. Coitada de quem usa a IA como amigona, parece que uma das IA, a Claude IA, é especializada exatamente para fazer a conversas “mais pessoal”. Credo Cruz! Aliás, a propósito do que disse Clemente, a IA é muito útil para obter info rápida, ele pode até consultá-la para suas frases em latim, mas a IA, ao menos por enquanto, não tem nada a ver com “deixar de pensar por si próprio”. Não vou voltar aqui, vou mudar de assunto, estou estudando Venezuela, e a IA tampouco sabe o que está contecendo lá agorinha. Só sabe das coisas depois de catar as que chegam no www.
De pleno acordo, Helga.
E esclareço: estudei latim desde o ginásio, não preciso de consultar a IA para formar minhas frases.
Há também um excelente livro de Paulo Rónai: “Não perca o seu latim”. Para mim, é mais confiável.
Meus cumprimentos aos participantes do debate.