
Remada Norueguesa
“Cesse tudo o que a Musa antiga canta, que outro valor mais alto se alevanta”: a Copa do Mundo de Futebol. Com licença de Camões, a Copa do Mundo é este poder mais alto que quase para tudo, deveria parar a guerra da Ucrânia, a desastrosa insensatez de Donald Trump e os desmantelos da política brasileira. Durante um mês, as atenções de bilhões de pessoas se voltam para o maior espetáculo da terra, acompanhando com grande emoção a disputa de 48 seleções nacionais pela glória. O futebol reúne emoção e prazer estético, ao que se agrega sentimento nacional quando se trata da Copa do Mundo.
O futebol é antes de tudo um espetáculo artístico, como um ballet com coreografia livre que vai sendo construída pelos movimentos dos atletas em grupos que disputam o palco com lances que provocam suspiros de encantamento. O espetáculo do futebol é a combinação da arte dos atletas no gramado com a força emocional da torcida, que são participantes ativos do jogo, incentivando, criticando, xingando e gritando, o som que inspira a dança dos bailarinos. Se o ballet desperta emoção estética nos silenciosos (e passivos) espectadores, uma partida de futebol é uma arenga em torno da bola, envolvendo e mobilizando os sentimentos da torcida, na perseguição do gol, momento máximo de exaltação do espetáculo.,
Ao longo das décadas, essa arte transformou-se num negócio bilionário de escala global, uma poderosa indústria de entretenimento. A globalização se manifesta na abrangência do interesse e das emoções que desperta (mais de dois bilhões de pessoas assistindo aos jogos da Copa do Mundo) e no volume de negócios que mobiliza (bilhões de dólares só em transmissão e publicidade), numa intensa mercantilização do espetáculo. A globalização se reflete na enorme mistura de nacionalidades e culturas dos atletas, nas grandes equipes e nas diversas seleções que participam da Copa do Mundo.
Na elite do futebol mundial, a maioria dos atletas de diferentes nacionalidades joga em times da Europa, verdadeiras multinacionais do entretenimento que atraem e reúnem os melhores jogadores de diversos países para vender ao mundo um bilionário produto comercial. A Copa do Mundo de 2026 é o estágio mais elevado dessa globalização: quase 70% dos atletas que representam as seleções de 48 países atuam em clubes europeus, evidenciando a hegemonia da Europa no futebol. As seleções europeias estão repletas de jogadores africanos nascidos ou naturalizados europeus, e as seleções africanas reúnem muitos atletas nascidos na Europa. Na seleção do Brasil, apenas sete jogadores estão vinculados a clubes brasileiros, fenômeno semelhante na maioria das seleções nacionais. Em Cabo Verde, o sucesso desta Copa, 80% dos seus jogadores atuam na Europa, e na seleção de Curaçao, outra sensação, apenas um dos atletas nasceu no país e todos jogam fora.
A globalização do futebol provocou uma interação de diferentes estilos que refletem a diversidade cultural entre os latinos e africanos, de um lado, e os anglo-saxões, do outro, o futebol arte versus o futebol técnica dos europeus. O cineasta italiano Pier Paolo Pasolini distinguia o futebol poesia, praticado pelos latinos – drible individual, passe inspirado e inovação – do futebol prosa dos europeus – jogo coletivo, organizado e disciplinado. Na formulação de Gilberto Freyre (nos anos 30), o futebol latino seria dionisíaco – caracterizado por surpresa, malandragem e astúcia – enquanto o europeu seria apolíneo, lógico, racional e disciplinado.
Com a globalização, a diferença desaparece, se dilui num novo estilo miscigenado, a malandragem e a disciplina misturadas e reunidas numa mesma força. Os dois se misturam e convivem e se manifestam no meio do campo. O certo é que os latinos (destaque para os brasileiros) levaram para a Europa a cultura do improviso individual, ao mesmo tempo em que apreenderam e incorporaram as táticas e a disciplina. Alguns brasileiros, saudosistas da improvisação, consideram que a contaminação com o rigor europeu teria acabado com o futebol brasileiro. Pelo contrário, melhorou o Brasil e melhoraram os europeus com a síntese que resulta da mistura de poesia e prosa, equilíbrio tenso entre o apolíneo – a beleza contida e organizada – e o dionisíaco – movido pelo caos, pela emoção e pelo instinto. O que torna a competição na Copa do Mundo muito mais equilibrada e bela, combinação de arte e técnica.
Apesar da mercantilização global do futebol, a Copa do Mundo continua despertando sentimentos nacionalistas em torno das seleções formadas por atletas que, na sua maioria, jogam fora do país. Continua válido o que disse Eric Hobsbawn: “a dimensão identitária da nação tem um lócus especial nos esportes (…) espécie de reduto do nacionalismo moderno, e as Copas do Mundo de futebol (…) se transformaram em evento símbolo desse nacionalismo”. A seleção brasileira parece longe de ser a “pátria de chuteiras”, como definida por Nelson Rodrigues, mas a Copa do Mundo permitiu que os brasileiros tomassem de volta a bandeira nacional, que parecia indevidamente apropriada pelo patriotismo canhestro do bolsonarismo.
Excelente, Sérgio.
Mas insisto na minha tese: o uso da violência está mutilando o futebol.
As últimas partidas estão demonstrando isso: Japão, Noruega, etc, ninguém aceita mais ser driblado.
Excelente, Mestre Sérgio.
Abraço
Paulo Gustavo
Sérgio, foi muito feliz na abordagem desse mega evento que mobiliza milhões de pessoas, formando uma verdadeira torre de Babel, devido a diversidade de nações com um motivo maior, que é a disputa das partidas.
Apesar da mercantilização, a Copa do Mundo preserva um forte sentimento de identidade nacional.
O esporte passou a ser simultaneamente arte, entretenimento de massa e grande negócio global.
Excelente, Mestre Sérgio.
Abraço
PG
O final do delicioso artigo do S.C.B, é uma surpresa e um impacto. Gostei da arte com que conduziu a bola ao gool! Parabens!!!
*Magnífico artigo e bela escolha para ilustrá-la. Foi impressionante esse momento de tocar para a frente nossos desejos, sonhos, amores e algo difícil de construir: um Consenso Universal: a Copa do Mundo. Aquele final de todos nós remando, acreditando no futuro, foi de chorar de alegria. Eu estava em casa, muito triste, até que os outros moradores apareceram trazendo pipoca, um pratinho para cada um, garantia de que estávammos em bando, sustentando uma paixão, recuperando a bela imagem do imortal Nelson Rodrigues, “A Pátria de chuteiras”. Para nós alí era a Copa do Mundo, que vai continuar brilhando “Per Sempre”.*
Não entendo de esporte nenhum, lindo mesmo eu acho balé moderno. Mas Sérgio C. Buarque sabe escrever como poucos e mostrou a beleza da Copa. Esquecemos por um momento coisas bem feias que aconteceram na recepção a alguns times e alguns nacionais, e também a violência e lesões por todo lado. No sentido de ser uma indústria globalizada, me impressionou o comentário de Steve Scheibe no seu lindo artigo “O discípulo do Zico vai enfrentar o Mestre”, sobre o jogo Brasil-Japão, de que as duas seleções eram meio que “duas seleções europeias”, por seus membros jogadores de times europeus.