Homem e natureza

Homem e natureza

“O desenvolvimento verdadeiramente humano significa o desenvolvimento conjunto das autonomias individuais, das participações comunitárias e do sentimento de pertencimento à espécie humana.”

Edgar Morin

Sempre me intrigou o fato de que um conceito nascido no domínio da física possa oferecer pistas para compreender algo tão complexo quanto a vida em sociedade. A entropia, em seu sentido mais elementar, exprime a tendência natural dos sistemas à desordem. Nada permanece organizado por si mesmo. Um jardim abandonado é tomado pelo mato, uma casa desabitada se deteriora e um quarto arrumado, se não houver cuidado constante, inevitavelmente se entrega ao caos.

A segunda lei da termodinâmica descreve precisamente esse fenômeno: em um sistema isolado, a entropia tende sempre a aumentar. A natureza parece nos ensinar que a ordem não é uma condição definitiva, mas uma conquista provisória, sustentada por um fluxo contínuo de energia.

Com o passar do tempo, essa ideia extrapolou os limites da física. Na teoria da informação, a entropia mede o grau de incerteza. Na psicologia, está associada ao desconcerto provocado pelas mudanças e pela perda de referências. Não me parece despropositado, portanto, perguntar se as sociedades humanas também não estariam sujeitas a uma espécie de entropia própria.

Ao observar o panorama político da América Latina, tenho a impressão de que atravessamos um desses momentos de crescente desordem. Como tantas vezes em nossa história, o pêndulo ideológico se desloca. Hoje, em muitos países, ele parece inclinar-se para formas mais radicalizadas de conservadorismo e de direita. Trata-se de um movimento que ultrapassa as fronteiras latino-americanas e se manifesta, sob diferentes formas, em boa parte do Ocidente.

Não creio que fenômenos dessa natureza possam ser explicados por uma única causa. As sociedades humanas são demasiado complexas para admitir interpretações simplificadoras. Ainda assim, é difícil não perceber que a concentração da riqueza, a persistência das desigualdades e a sensação de que os benefícios do crescimento econômico se distribuem de maneira cada vez mais desigual acabam corroendo a confiança coletiva.

Quando uma parcela significativa da população deixa de perceber perspectivas reais de ascensão social e passa a desconfiar das instituições encarregadas de garantir o interesse comum, instala-se um ambiente propício à polarização, ao ressentimento e às soluções extremadas. Em outras palavras, aumenta a entropia social.

Talvez não seja diferente do que ocorre nos sistemas físicos. A coesão social tampouco surge espontaneamente. Ela exige investimento contínuo em educação, saúde, mobilidade social, confiança institucional e senso de justiça. Quando esses elementos se enfraquecem, a ordem começa lentamente a se desfazer.

Chama-me a atenção, igualmente, a crescente centralidade do sistema financeiro na vida contemporânea. A expansão da bancarização e da economia digital trouxe benefícios inegáveis. Mas, por vezes, tenho a impressão de que a lógica econômica deixou de ser um instrumento a serviço da sociedade para se transformar em uma espécie de finalidade autônoma. Como se o ser humano, em vez de orientar a economia, passasse gradualmente a ser orientado por ela.

Não deixa de ser paradoxal que sociedades capazes de produzir níveis extraordinários de riqueza sejam, ao mesmo tempo, palco de sentimentos crescentes de solidão, ansiedade e perda de sentido.

Mas a entropia não é necessariamente sinônimo de decadência. Nos sistemas complexos, os períodos de instabilidade frequentemente antecedem novas formas de organização. Talvez as crises de nosso tempo estejam sinalizando não apenas a exaustão de determinados modelos, mas também a possibilidade de outros equilíbrios.

É nesse ponto que uma ideia me parece particularmente fecunda.

Se a entropia corresponde à tendência à desordem, a negentropia representa a capacidade de produzir ordem e preservar a complexidade. Os organismos vivos são sistemas negentrópicos: retiram energia do ambiente para manter sua estrutura e resistir à degradação.

Pergunto-me se algo semelhante não ocorre também no âmbito das culturas.

Talvez as sociedades humanas encontrem suas fontes de negentropia não apenas na economia ou na tecnologia, mas em algo mais profundo: nos vínculos afetivos, nas tradições compartilhadas, na memória coletiva e na relação com a natureza. Em suma, naquilo que confere sentido à experiência humana.

Ao observar as sociedades europeias, impressiona-me a extraordinária sofisticação de suas instituições. São sociedades que alcançaram elevados padrões de bem-estar material e de organização. Contudo, essa mesma complexidade tornou a vida cotidiana profundamente dependente de sistemas abstratos e altamente especializados.

Paradoxalmente, quanto mais sofisticado se torna o sistema, mais artificial parece tornar-se a existência humana. A dependência das estruturas financeiras, tecnológicas e burocráticas cresce à medida que se enfraquece a relação direta com o ambiente natural e com as formas mais elementares de comunidade.

Talvez por isso não seja irrelevante o fato de que, apesar de todas as suas carências, a América Latina ainda preserve algo que as sociedades mais desenvolvidas foram, em parte, perdendo ao longo de sua trajetória.

Persistem entre nós formas espontâneas de solidariedade, laços familiares mais intensos, relações de vizinhança menos impessoais e uma convivência mais imediata com a natureza. Evidentemente, não se trata de idealizar nossas fragilidades nem de romantizar a pobreza. A desigualdade, a violência e a precariedade institucional continuam sendo desafios imensos.

Mas talvez exista aí um patrimônio invisível cuja importância ainda não compreendemos inteiramente.

Arrisco chamar esse patrimônio de negentropia cultural.

Uma capacidade de gerar coesão e sentido não exclusivamente por meio da eficiência econômica, mas a partir de valores comunitários, da memória histórica e de uma compreensão menos utilitária da relação entre o ser humano e o mundo que o cerca.

Não deixa de ser significativo que algumas cosmovisões indígenas latino-americanas concebam o homem não como proprietário da natureza, mas como parte dela. O ideal do Bem Viver (Sumak Kawsay), presente em tradições andinas, expressa precisamente essa percepção de equilíbrio entre indivíduo, comunidade e ambiente.

Talvez essas concepções, frequentemente consideradas resquícios de um passado ultrapassado, encerrem intuições preciosas para uma civilização que começa a se interrogar sobre os limites do crescimento ilimitado.

E aqui reside uma das ironias da história.

É possível que sociedades consideradas periféricas conservem justamente alguns recursos culturais que as sociedades centrais foram gradualmente sacrificando em nome do progresso. É possível que aquilo que durante décadas foi interpretado como atraso contenha, na verdade, elementos essenciais para enfrentar as crises de sentido do século XXI.

Os sistemas mais complexos nem sempre são os mais resilientes. Às vezes, a verdadeira força encontra-se naquilo que mantém vivos os vínculos humanos e preserva a consciência de pertencimento a algo maior do que nós mesmos.

Não há, evidentemente, qualquer garantia de que a história caminhe nessa direção. Os períodos de desordem podem produzir tanto sociedades mais justas quanto formas mais autoritárias de organização. A entropia social não encerra nenhuma promessa de redenção.

Ela apenas nos recorda que nenhum equilíbrio é permanente.

Talvez sua maior lição seja outra: nenhuma sociedade pode sustentar-se apenas sobre a riqueza ou sobre o poder. Assim como os organismos vivos, as comunidades humanas necessitam de fontes permanentes de energia capazes de renovar sua coesão. E essa energia não é apenas econômica. Ela é também moral, cultural e espiritual.

Porque a justiça, a solidariedade e a confiança não são estados naturais. São construções delicadas, sempre inacabadas, que precisam ser cultivadas continuamente.

Talvez seja justamente nessa reserva invisível de humanidade, ainda preservada nos povos, nas culturas e em sua relação com a natureza, que se encontrem as sementes de um novo equilíbrio.

E talvez o verdadeiro progresso não consista em nos afastarmos cada vez mais de nossa condição humana, mas em reaprender aquilo que jamais deveríamos ter esquecido: que pertencemos a uma comunidade e a um mundo que existiam antes de nós e que continuarão a existir depois de nossa passagem