
Helga
Minha curiosidade sobre o que vai acontecer no mundo amanhã, mês que vem, ano que vem, deixa pouco tempo para ficar remexendo o passado. Dá é pra ficar assustada sobre o futuro com tanta guerra, estoques de armas nucleares e a nova corrida armamentista. Mas não tem jeito, Norberto Bobbio tinha razão quando disse que depois dos 80 anos é nosso “tempo de memória”: é a aritmética, que o passado passa a bloco de tempo bem maior que o esperado de tempo futuro. Então, nessa conversa toda sobre a mania de IA e como mudanças tecnológicas afetaram e afetam nosso trabalho e nossa vida, lembrei que nos meus primeiros trabalhos, desde repórter no diário “Última Hora”, e depois no “Hoje”, e até antes, na Faculdade de Filosofia, o que a gente usava era máquina de escrever mecânica. E telefone com fio. Telefone era coisa rara nos 1960s, mas ganhei do meu pai minha primeira máquina de escrever.
Até fiz curso de datilografia, em que a gente aprendia a escrever bem rápido e com mão e teclado tapados. Ainda hoje, 70 anos depois, escrevo sem olhar o teclado. Pudera! Uns 60 anos acumulados de treino. Comparado com os instrumentos e a tecnologia que eu tinha à disposição nos meus primeiros trabalhos remunerados, a facilidade de hoje parece milagrosa: pela internet chego no site do BIS (Bank for International Settlements) e em alguns minutos imprimo o relatório anual de 2026 que alerta sobre a sustentabilidade dos investimentos relacionados com IA.
A primeira máquina de escrever elétrica eu tive no fim dos anos setenta, estava na Dinamarca, ali já era comum. Claro que me ajudou a escrever mais, não porque vieram mais ideias ou aumentou o conhecimento para a tradução, mas apenas porque ficou leve o toque do teclado. Escrever no computador é mais rápido ainda, porque acabou com a trapalhada que era corrigir e fazer alteração enquanto se escrevia, às vezes era o caso de arrancar a folha de papel, colocar outra, começar tudo de novo. E computador para escrever só comecei a usar já quase no meio dos anos oitenta, na ONU, o que de novo torna mais rápida a saída de uma página impressa. Email também começou nessa época, e foi melhorando. Era comunicação rápida, mas diferente do instantâneo do Whatsapp. Insisto, a rapidez é a da produção física, com a melhoria dos instrumentos, não é a do raciocínio, da análise, da eficácia em usar conhecimento e pensar soluções.
Pois é, vai mudando o uso da tecnologia em nosso trabalho. A mudança é muito mais do que a obsolescência do telefone com fio ou da máquina de escrever. Nem vou falar da computação, nem dos primeiros experimentos com email que parou minha coleção de cartas, cartões e selos do mundo inteiro. Muito menos dos avanços da medicina. Alguém lembra que a penicilina só chegou ao Brasil em 1947?
E cada uma das inovações se espalha pelo mundo lentamente, o acesso varia de país a país. Quando trabalhei na América Central no segundo semestre de 1978, tive que voltar a usar a velha máquina de escrever mecânica.
Em 1978 eu já morava na Dinamarca, mas ainda não trabalhava na Copenhagen School of Business Administration, ganhava meu pão com tradução do alemão para o português para a Editora Reinecke Verlag, de Hamburgo. Era interessante, mas dureza, os prazos rígidos, tudo datilografado no papel, com corretor branco de pincelzinho quando se batia na tecla errada. As folhas datilografadas da tradução tinham que ser levadas imediatamente ao correio central de Copenhague, para que chegassem em Hamburgo no horário determinado. Ainda bem que eu tinha máquina de escrever elétrica e tivera curso de datilografia 20 anos antes.
Aí apareceu uma proposta da OIT (Organização Internacional do Trabalho) para trabalhar na América Central. Não lembro quem foi, deve ter sido alguém ligado à CEPAL, creio que foi Paulo Renato Costa Souza quem sugeriu meu nome. Só sei que me chamaram da OIT, viajei para Genebra para conversar. Curiosamente o que mais lembro dessa viagem é que tomei um taxi, o taxista suíço sei lá porque cargas d’água achou de perguntar se eu era “mariée”, e quando eu disse que vivia com um dinamarquês ele exclamou “ah! concubine”. Fiquei para o resto da vida com a noção do suíço chato… Mas assinei um contrato para trabalhar na América Central, como membro de uma missão do PREALC/OIT para examinar emprego rural na América Central e no Panamá. Era um tempo em que os “desenvolvimentistas” queriam incentivar a instalação, na área rural, de alguma atividade industrial, de processamento ou artesanal, para conter o êxodo rural.
Tinha que me apresentar na Guatemala, onde estava a sede do PREALC para América Latina, dirigido pelo economista chileno Guillermo Garcia-Huidobro. O trabalho seria de agosto a dezembro de 1978, e junto com meu colega de missão, o economista argentino Angel Sciara, percorremos todos os países da América Central e o Panamá. No Panamá nos encontramos com colegas da CEPAL, entre os quais Ricardo Lagos, que viria a ser Presidente do Chile. Era o tempo de Omar Torrijos, e os cepalinos estavam fazendo um estudo sobre o Canal do Panamá, na sequência dos acordos Carter-Torrijos sobre a gradual transferência do Canal, dos Estados Unidos para o Panamá.
Só voltei para a Dinamarca no fim do ano. Meu dinamarquês foi compreensivo, que estava trabalhando intensivo num pesado livro sobre a Montanha Mágica (“Unform-Form-Überform: Thomas Manns Zauberberg und Schopenhauers Metaphysik”). O livro, aliás dedicado a mim, saiu pela Editora da Universidade de Copenhague quando eu ainda estava na Guatemala. Mas é possível que Borge Kristiansen tenha se arrependido de tal dedicatória.
Na sede do PREALC na Guatemala escrevemos o relatório do que encontramos sobre emprego rural, eu e meu colega de missão, Angel Sciara. Guillermo Garcia-Huidobro ajudou e acho que foi quem tirou as fotos, que desencavei porque saíram bonitas mostrando alguma tecnologia que nos ajudou.
A novidade agora é: como vai ajudar a nova tecnologia que é a IA? Começo de ciclo. Vai se incorporando devagar, e de novo com desigualdade mundo afora, com vantagens e desvantagens, até temores, como outros avanços tecnológicos. Se vai aumentar a produtividade da economia? Como avaliar exatamente? Vai depender de amplo acesso à internet e computadores. De novo, lembrei que meu irmão Rodolfo Hoffmann, para rodar seus modelos e cálculos, tinha que aproveitar os horários em que o único computador do campus (um IBM1130 que lia cartões perfurados) estava disponível, o que frequentemente exigia trabalhar durante a madrugada. Isso foi apenas uns cinquenta e cinco anos atrás.
Hoje aproximadamente um em cada três brasileiros usa um computador em algum lugar (em casa, no trabalho, na escola). O nível da inclusão digital poderá limitar o uso da IA para tarefas mais complexas. No Brasil o acesso a internet está predominantemente em celulares: estima-se que pelo menos 85% da população tenha um celular. Curiosamente, em percentagem da população, o maior uso de IA generativa se dá em Singapura e nos Emirados Árabes Unidos, de mais de 60%. A estimativa é bastante precária, mas essa mesma percentagem no Brasil não chega a 20%.
Eu não vejo porque não deva usar a IA, no meu caso não vai dar tempo de causar o suposto “emburrecimento” da humanidade que alguns preveem para o futuro das crianças entretidas com as telinhas já com um ou dois anos de idade. Agora mesmo perguntei pra IA se valia a pena consertar um aquecedor portátil “made in China” que durou mais de 10 anos, parou de aquecer semana passada, logo na passagem da frente fria. A recomendação imediata foi sensata, com fundamentação técnica e cálculo de custo. Ibidem para efeito colateral de remédio. Menos confiável para saber de pessoas com quem trabalhei em alguma década passada, porque aí depende de já estar na memória da Internet, e nem toda pessoa que no passado produziu algo relevante está na memória da internet. E vice-versa. Além de que para certas perguntas não há dados para permitir resposta que seja certa ou errada, pode levar a respostas diferentes dependendo de qual IA. Para mim a IA é útil para pesquisa, para obter quase instantaneamente informação que poucas décadas atrás eu teria levado meses para reunir. Mas é preciso cuidado na pergunta, não induzir a resposta, e é bom lembrar que as IAs são feitas para agradar o consumidor e aumentar o uso. E resistir à tendência, que percebo, do usuário que personaliza a interrelação com a máquina. Ainda que seja impossível impedir uma empresa que está acumulando dados individuais sobre as preferências de milhares de clientes porque quer personalizar o fornecimento de produtos.
Meus exemplos de uso são os mais primários. Para pesquisas complexas, da engenharia à medicina, para pedir ajuda na construção de uma ponte, ou na criação de uma vacina, é preciso, antes de mais nada, saber formular as perguntas, e formular a pergunta pode ser mais complicado do que avaliar a solução que vem na reposta. E saber que a resposta possível depende dos dados acumulados. A depender dos dados acumulados no modelo de IA pode haver viés cultural, religioso, político nas respostas. A preocupação com o viés da resposta é legítima. Fato é que “data centers” com fins diversos estão pipocando por todo lado. Por exemplo, tem empresa captando os micromovimentos simultâneos e sucessivos como os de alguém lavando louça para fazer um robô lava-louças, o que já exige equipamento específico para tal registro. Ou o mesmo no trânsito de Nova Delhi para colocar em movimento taxis sem chofer. A IA também está a serviço da robótica.
Entre economistas, o boom de IA causa preocupação pelo elevado insumo de energia dos “data center” e pela rápida expansão dos investimentos com elevado endividamento das empresas. Há ações de empresas de IA, as mais famosas, dos EUA, com altas de 20% a 80%. A euforia no mercado acionário com as ações de firmas de IA trouxe um “boom” de investimentos que chega a reduzir o investimento em setores não relacionados. Não se sabe se, e como, a IA afetará a produtividade da economia, fala-se no risco de monopolização do consumo de eletricidade pelos “data center”, de modo que o investimento em IA tem muito de aposta, sem base num cálculo de risco que é difícil de fazer. E assim, tão cedo, já há quem fale em “backlash”.
Essa não sou eu não. Apenas um exemplo dos usos de IA que João Rego inventou, que nunca alguém esteve datilografando algo sentado na Biblioteca da ONU. Estritamente, a foto é fake.
Muito bom!
Um texto desse jamais será concebido por IA.
— interpreto como elogio.