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Penso, logo duvido.

Dilma Rousseff, a rainha, e o seu mensageiro – Helga Hoffmann

Presidente Dilma Rousseff em polêmica entrevista com Jô Soares

Presidente Dilma Rousseff em polêmica entrevista com Jô Soares

Helga Hoffmann

Cena: um idoso um tanto desgastado e uma senhora bem maquiada, com iluminação dirigida de modo favorável, sentados à frente de uma parede de livros parecida com aquelas que certos decoradores compram a metro quadrado. Considerando a carreira do entrevistador (e da entrevistada), o clima é de algum suspense, já que, mesmo para um programa depois de meia noite, alguns haviam convocado panelaço. Convocação a noctívagos, suponho.

O entrevistador dá início, dizendo à Presidente que ele havia sido acusado de petista fanático porque fora contra o “Fora Dilma”. Até aí, normal, era uma oportunidade para declarar-se contra o impeachment prematuro; e deixou a presidente relaxada, feliz consigo mesma. Mas Jô Soares, o homem de teatro, errou no tom.  E logo de cara irritou mais um grupo, aqueles que continuam apontando razões nada triviais para um impedimento da Presidente.  Jô havia colocado a questão como se fosse simplesmente de respeito ou desrespeito ao voto.

Já o início foi surreal: Jô pediu para recordar uma história de Bíblia na prisão, e também disse e repetiu que Dilma era leitora voraz, até bula ela lia. Será que não havia ali um fiapo de ironia? Voraz leitora de bulas de remédio (como disse duas ou três vezes). Aí a Presidente contou que, na prisão, fez desenhos de totens coloridos com lápis de cera de origem controversa, o guarda viu, gostou, e pediu, porque queria dar de presente p’ra noiva. E depois que ela deu o desenho, o guarda levava a Bíblia (sem capa, conforme outra longa explicação da Presidente) de uma cela para outra. A Presidente explicou a Jô o quanto é “fantástica” a Bíblia, “tem muita metáfora”, e “nada melhor que imagem p’ra fazer a gente entender”.

Detalhe: o guarda era loiro de olho azul, era um menino, de uns 18 anos… os guardas todos eram assim,  os “catarinas”. Guardas catarinenses? Me lembrei do  meu pai, me ensinando alemão, e contando que alemão de Santa Catarina dizia “Fechíer die janelle, es chúvart” (Feche a janela, está chovendo), ou seja, não sabia nem alemão nem português. Mas guardas de prisão catarinenses durante a ditadura? Continuava surreal. Mas deve ter sido a maneira “light” de lembrar a ditadura e sugerir, mais uma vez, agora de modo subliminar, a tese hoje um tanto abalada de que quem foi preso naquela época está mais qualificado que qualquer outro para ser Presidente do Brasil: “na prisão eu aprendi”, “tenho imensa capacidade de resistir”.

Se o que entrevistador queria era deixar à vontade a Presidente, desarmar a defesa, deu resultado. A Presidente foi ficando cada vez mais solta, eufórica, mesmo delirante. Se algum forasteiro, vindo de longe, sem ter jamais lido ou ouvido qualquer coisa sobre o Brasil, chegasse ali naquele momento e ficasse a ouvir, concluiria estar em um país exuberante com todos os seus problemas resolvidos (salvo um momentâneo aumento no preço dos alimentos).

Não fossem as perguntas do entrevistador, feitas com gentileza reverencial, nem saberíamos que existem críticas. O malfadado jornalista foi quem colocou algumas questões: promessas não cumpridas (e a questão do ajuste fiscal), diretoria da Petrobrás, excesso de ministérios (“você consegue lembrar o nome de todos os ministros?”), radicalismo de críticos (como a crítica dentro do PT), oposição até mesmo na própria base (“você está olhando para Renan e Eduardo Cunha, então sabemos que você não tem medo de cara feia” ; “você, com os aliados que tem, não precisa de oposição”). A bem da verdade, a Presidente defendeu com convicção o direito de qualquer um criticar seu governo.

Estelionato eleitoral? Não está cumprindo o que prometeu?  Dilma Rousseff acha que não pode ser acusada disso porque só tem cinco meses de governo, e tem quatro anos para cumprir as promessas. Ora, a leitora voraz ignora que tudo o que está acontecendo hoje foi previsto por analistas da oposição no próprio momento em que estavam sendo adotadas as políticas da “Nova Matriz Econômica”?

A Presidente parecia plenamente convencida do que dizia, que “estamos no sétimo ano da crise”, que esgotamos tudo o que pudemos com a crise (desoneramos bens de capital, a cesta básica, demos isenções, tudo do Tesouro), mas está durando mais que o previsto: por isso é necessário o ajuste. Além de que o ajuste se dá por causa da seca (no Sudeste) e do dólar (“eu não controlo a seca” e “dólar subiu no mundo inteiro”). “Esse ajuste da seca e do dólar é passado aos preços”, “não fomos nós que provocamos”. Se a explicação fosse essa, não haveria realmente mais nada a fazer além de aguardar nosso destino de subdesenvolvimento. A Presidente simplesmente omitiu tudo o que nos trouxe até à recessão com inflação alta, e contas externas deterioradas. Justificou o gasto público descontrolado: “Usamos tudo o que podíamos”. Segundo o TCU, usaram também o que não podiam.

Petrobrás?  Pré-sal? Trocou a diretoria em 2012 porque queria ter pessoas da confiança dela. O pré-sal dará lucro mesmo com preço do petróleo mais baixo, a Petrobrás ganhou o Oscar do petróleo e gás este ano, publicou balanço, virou a página, será empresa das mais lucrativas do mundo, conseguiu captar recursos no exterior com bônus. Mas a Presidente esqueceu que a Petrobrás é a empresa de petróleo mais endividada do mundo e a venda de bônus aumenta a dívida mais ainda. E esqueceu o quanto ela continua fragilizada pelas dúvidas quanto à possibilidade de gestão sem os danos da ingerência política. A operação Lava Jato, durante a sua nona etapa, reviveu a canção imortalizada por Sinatra, My Way (considerada “muito Dilma” por uma analista).  Caso a Lava Jato chegue algum dia à responsável de última instância pela débâcle de gestão na Petrobrás, poderá reviver a Piaff em Non, je ne regrette rien  (que também pode ser considerada “muito Dilma” ).

A Presidente também defendeu os muitos ministérios, com argumentação inédita: “e alguém vai querer tirar o das mulheres, o de igualdade racial, o de direitos humanos?” E pesca? – intervém o entrevistador. A Presidente fez uma longa palestra sobre a costa, rios e lagos e o imenso potencial pesqueiro do Brasil. Ou seja, a Presidente acha mesmo que qualquer questão relevante merece algum ministério, considera dispensável mostrar de que maneira algum ministério irrelevante ajuda na abordagem de dada questão. Aliás, fez longa preleção sobre meio ambiente, saúde e educação, sem referência a ministérios.

Falou do programa de investimentos em infraestrutura lançado na semana anterior, que iria ajudar a recuperação da economia brasileira. Talvez. Vai depender de se construir a confiança na estabilidade das regras do jogo. Evidentemente a Presidente continua sem reconhecer uma experiência básica de política econômica: quando o déficit público é alto e a confiança é baixa, um aumento nos gastos públicos reduz o ritmo da atividade econômica. Acabamos de ver esse filme.

Jô provocou com a comparação caricatural entre Mantega e Levy (quando Mantega era Ministro, ela mandava nele, e agora que Levy é Ministro,   ele manda nela), mas ela desviou. Perguntou como ela recebeu a recomendação de The Economist para demitir Mantega, e de novo levanta a bola para a Presidente: meio colonialista, não é? Ela desviou de novo: Ah não! explicou que lê The Economist, encontra ali muita informação, mas acha distorcida não só em relação ao Brasil mas também à Europa. A leitora voraz não indagou de Jô se os americanos não achariam The Economist colonialista, já que a revista critica governos vários, inclusive os EUA, toda semana.

Ao final, a Presidente discursou poeticamente e com grande entusiasmo sobre a maravilha que é o Brasil, seus recursos, seu potencial, e o seu povo, mistura de etnias. Só tem uma ressalva: quer que o povo brasileiro tenha mais autoestima. Pois Dilma Rousseff, olhando outros países concluiu: “nós somos mais críticos conosco do que merecemos”. Será?  De fato, não se pode esperar que Dilma Rousseff acredite que seu governo merece críticas.

Creio que antes mesmo de terminada a entrevista já corriam os ataques pela Internet. Não às afirmações falsas, absurdas, completamente fora da realidade que Dona Dilma acabara de fazer. Não apareceu de imediato uma desconstrução das suas fantasias. Não se tratou de mostrar que suas promessas são, de novo, impossíveis de cumprir, os analistas estão mostrando isso todo dia nos jornais e revistas. O ataque que se espalhou imediatamente e mais rapidamente foi ao entrevistador. Quando perguntei se isso era justo, uma combatente anti-Jô respondeu: criticamos a Dilma o mês inteiro, agora queremos criticar o Jô.

Levei um susto quando vi um atestado de óbito do Jô sábado, no Facebook. Mas era só parte da campanha. Isso é bem mais suave que o resto que se espalhou: traidor, jornalista chapa branca, vendido que recebeu dinheiro público para peças de teatro dirigidas por ele (como Troilo e Cressida). Ah! e acusação-mor: isso não é jornalismo. No máximo jornalismo açucarado.

O cartaz mais grosseiro deve ter começado a circular somente depois que a entrevista terminou. Mostra Dilma e Jô como dois gordíssimos pornográficos pelados na cama, com aquele balão das histórias em quadrinhos indicando as falas. Ela: “Foi o melhor programa que já fiz”. Ele: “Eu não queria quebrar o clima mas, e aquela verbinha…”  As figuras eram dessas que a gente não deve deixar as crianças ver. Confesso que fiquei chocada, usei aquela opção do Facebook “Não quero ver isso.”

Pudera! Jô, no final do seu programa, agradeceu à Presidente a entrevista, “p’ra mim um momento histórico nos meus 54 anos de profissão”, “agradeço demais o seu tempo” e, finalmente, ipsis litteris: “espero que tenha sido bom p’ra você também, porque afinal hoje é dia dos namorados e temos que sair daqui satisfeitos”. Inacreditável que o homem de teatro ali não percebesse a piada pronta.  Será que, no fundo, não estava tentando voltar à comédia?

Não sei até que ponto a virulência dos ataques ao entrevistador surpreendeu. Em todo caso, parecia que havia se transmitido à oposição a doença do PT. É o PT o partido que mais comumente ataca a imprensa e jornalistas ao ver matéria que não é do seu agrado. Por que tanta raiva do Jô? Em parte, “atirar no mensageiro” era a maneira cômoda de unir oposições. Porque, dependendo do tópico tratado pela Presidente, uns oposicionistas estariam em desacordo com outros.  A crítica teria que incluir dados sobre a recuperação da economia mundial, em particular nos Estados Unidos. Por exemplo, a produção industrial no mundo subiu ao longo de 2014, enquanto a do Brasil caiu.  Teria que mostrar que a desvalorização “mundial” do dólar não foi a mesma no mundo inteiro, foi maior no Brasil, porque o governo anterior da Presidente havia segurado artificialmente, porque o endividamento público aumentou, porque a intervenção anterior do BC  e uma política de comércio exterior errada contribuíram para a piora das contas externas e do risco Brasil. O déficit no balanço de pagamentos também gera posições diversas entre oposicionistas: há os que reagem pedindo mais proteção ainda, há os que pedem abertura e mais negociações comerciais.  E ainda seria preciso discutir as políticas setoriais que a Presidente abordou (petróleo, meio ambiente, saúde, educação), onde tampouco há posição oposicionista coordenada.

Bem ou mal, a Presidente fez a defesa do ajuste. Uma defesa perigosa, porque falou em ajuste momentâneo (não falou de responsabilidade fiscal como necessidade permanente, e nem achou desmesurada a prática anterior de lançar dinheiro do Tesouro a todos os problemas ou de se endividar legal e ilegalmente ). Segundo ela, o Brasil “não está doente estruturalmente, apenas momentaneamente”, estará melhor até o fim do ano. E quando o fim do ano chegar? Hoje o mais otimista dos analistas econômicos duvida de recuperação do crescimento antes de 2016. Mas mesmo a Presidente advertiu na entrevista que não pode garantir melhora até o fim do ano. Em todo caso, essa questão do ajuste igualmente divide a oposição, pois uma parte dela está atacando agora o ajuste fiscal (que defendeu em outubro de 2014) com o argumento de que não quer ter o ônus político de consertar algo que avisou que estava quebrado antes da eleição. Então uma parte da oposição vota no Congresso a favor das medidas de contenção de gastos e aumento de impostos, enquanto outra parte vota contra o governo tout court. De novo, é mais cômodo atacar Jô Soares por haver entrevistado a Presidente.

Quem sabe bateu um desânimo, um cansaço, certa sensação de impotência das oposições, incapazes, em seus diversos agrupamentos, de enfrentar com eficácia a última peça de marketing da Presidente, ainda que seu índice de aprovação esteja abaixo de 10%. Como peça de marketing a entrevista tem a possibilidade de influenciar um público que se disponha a dar um crédito de confiança à presidente, dispor-se a aguentar o ajuste fiscal por uns meses, pois a Presidente afirmou que é importante fazer logo o ajuste, para sair mais rapidamente da crise. Prometeu “fazer o possível e o impossível para manter a inflação estável dentro da meta”. Funcionaria, portanto, um mecanismo de defesa natural, de ignorar o conteúdo das respostas da Presidente, passar por cima dessas respostas, para chegar ao entrevistador. Ou o jornalista.  O mecanismo é bastante conhecido por uma expressão corriqueira, “atire no mensageiro”.

Freud tratou também dos mecanismos de defesa contra notícias que nos são desagradáveis: “Entre a repressão e o que chamamos defesa normal ante o que é penoso e insuportável, através do reconhecimento, reflexão, julgamento e ação apropriada, há toda uma série de condutas do Eu, de caráter mais ou menos claramente patológico. Permita-me lembrar um caso limite desse tipo de defesa. O senhor conhece o famoso lamento dos mouros espanhóis, Ay de mi Alhama, que conta como rei Boadbill recebe a notícia da queda de sua cidade, Alhama. Mas, não querendo reconhecer a verdade disso, resolve tratar a notícia como “non arrivée“. A estrofe diz:

Cartas le fueron venidas

de que Alhama era ganada.

Las cartas echó en el fuego

y al mensajero matara.

Nota-se facilmente que participa dessa conduta do rei a necessidade de contestar sua sensação de impotência. Ao queimar as cartas e ordenar que matem o mensageiro, ele busca mostrar que ainda tem o poder.” (Freud, Carta a Romain Rolland, 1936 in: Sigmund Freud, Obras Completas vol. 18. Tradução de Paulo César de Souza. Companhia das Letras, S.Paulo, 2010, pp. 446-447.)[1]

Incapazes de refutar de imediato a Presidente, oposicionistas ficaram doentes de desgosto, não quiseram saber o que disse a Presidente, preferiram atirar impropérios ao mensageiro.
[1] Agradeço ao psicanalista Waldo Hoffmann ter desencavado esse texto de Freud.

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