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Penso, logo duvido.

Haverá choros e ranger de dentes (Lucas 13:28-35) – João Rego

João Rego

Slaves - Robert Riggs [American Painter and Printmaker, 1896-1970].

Slaves – Robert Riggs [American Painter and Printmaker, 1896-1970].

Esta expressão encontrada na Bíblia sempre me impressionou pela força dramática que ela carrega. Quase sempre transmite a fúria de um Deus vingativo, poderoso e justo contra o homem que cometeu um crime hediondo.

Mas nem sempre quem sofre com esta intensidade são criminosos ou culpados de algum crime. Penso nos escravos, homens livres na África, capturados e trazidos em condições terríveis nos porões dos navios negreiros. A “indústria” da escravidão marcou a ferro e fogo a alma da nação brasileira, deixando cicatrizes evidentes na exclusão social, nos trabalhos menos qualificados e nos aglomerados urbanos – as favelas e áreas de periferia das grandes cidades. São quase todos quase-negros, ou quase-brancos, como nos ilustrou Caetano Veloso no “O Haiti é aqui”.

O aparelho de Estado é formado por evidente separação de uma dominante elite branca em detrimento dos direitos e valores da grande maioria negra – um negro no Supremo Tribunal Federal é um fato exótico, um destaque histórico. Estes aparelhos ideológicos de Estado, em sua enorme complexidade, vêm atuando com essa lógica excludente e parcial, onde até pouco tempo a justiça só prendia negros e pobres – estes, predominantemente negros.

A força de trabalho escravo forjou, durante séculos, o desenvolvimento econômico da Brasil. A Nação brasileira nasce sob a cadência do estalo cruel do chicote no lombo do negro. Ouvimos, enquanto nos constituíamos como nação, o “choro e o ranger de dentes” dos negros nos porões.

Presa nos elos de uma só cadeia,
A multidão faminta cambaleia,
E chora e dança ali!
Um de raiva delira, outro enlouquece,
Outro, que martírios embrutece,
Cantando, geme e ri!  (Navios Negreiros – Castro Alves)

No Brasil de hoje, com três décadas de um regime democrático, ainda em importante processo de consolidação, eis que nos deparamos com uma nova geração de juízes, promotores e delegados decididos a fazer história. Refiro-me a Operação Lava Jato, deflagrada sob a supervisão do juiz Sérgio Moro que, entrando na sua 24º fase, denominada de Aletheia, tirou de casa o ex-presidente Lula e seus familiares, supostamente envolvidos em falcatruas, para deporem. Pode-se contar vários empresários poderosos e desonestos já condenado a mais de dez anos de prisão em regime fechado.

Não, a corrupção não foi inventada pelo PT, mas o que foi urdido pelos seus principais dirigentes foi de uma dimensão tal que seria inevitável estes desfechos. O certo é que o Brasil não será mais o mesmo após a conclusão dessas investigações – que estão ainda no começo. A Lava Jato e suas consequências estão nos levando a acreditar que estamos experimentando um vigoroso salto de qualidade em nossa história, onde as instituições estão, finalmente, colidindo de frente com uma elite poderosa, dissimulada, corrupta e corruptora – herdeira histórica de um comportamento de dominação política arcaico, injusto e excludente.

Neste novo país, que infelizmente a névoa de crise política atual nos impede de perceber, já é possível ver delineando-se no horizonte uma nação, finalmente, fincando as estacas da consolidação da democracia; uma nação na qual a impunidade será banida, para sempre, do nosso dicionário e a justiça prevalecerá sobre todos.

Hoje, cinco séculos depois, escutamos “o choro e o ranger de dentes” de empresários, agentes públicos e políticos desonestos nas prisões. Estes gemidos nos lembrarão, como um signo, as mudanças do país. A nação, mesmo atingida pela crise, navegando em águas turbulentas, segue seu rumo, cavando sulcos na história, construindo seu destino e nele estamos todos nós, os que nos antecederam e os que virão depois. Tempo haverá em que o que estamos passando será apenas mais um capítulo deste longo percurso – triste, doloroso, pobre e muitas vezes frustrantes – necessário para nos impormos como nação democrática, sólida e autônoma.

8 Comments

  1. Meu caro João Rego, permita-me o comentário ao seu escrito.
    “A Lava Jato e suas consequências estão nos levando a acreditar que estamos experimentando um vigoroso salto de qualidade em nossa história….,escreve você. Será ótimo, para as gerações futuras se assim for. Mas, será que no final de tudo, haverá mesmo o ” choro e ranger de dentes”, de que fala o evangelista? Ou, apenas os do menor escalão serão os que vão ranger os dentes o chorar?

  2. João,

    Felicito-o pela reflexão e agradeço por evocar os esquecidos versos de Castro Alves que embalaram minha juventude. Não preciso dizer o quanto seu raciocínio é cabível ao nosso momento posto que passa muito da hora de desmontar esse clube de cabeças coroadas que afastaram do País as boas práticas da concorrência internacional. Retomá-las é o primeiro passo para que possamos nos tornar uma economia robusta e competitivo mundialmente. Torço, ademais, para que a força de nosso exemplo contagie as poucas área de influência onde ainda não caímos no ridículo. Enfim, até 2018 teremos boas aragens.

    Não posso deixar de registrar, contudo, que temo muito as ciclotimias inerentes à nossa vida pública e privada (lembra do kit de primeiros socorros dos carros) ? Somos o País do oito e oitenta. Enquanto uma onda de euforia varre as ruas de São Paulo à mera visão de um Lula forçado a depor, já temo que o açodamento dos juízes – pois a função não os blinda contra a vaidade geracional e o aplauso fácil da rua – possa criar um mártir. Afinal, a condução coercitiva não deveria se aplicar a quem está sob o olhar público o tempo todo. Didatismo demais pode ser contraproducente. E dar ribalta a quem sabe usá-la com maestria.

    FD

  3. Impressionante, João, o que estamos vivendo (e sofrendo) neste país. Os comentários são de apoio inarredável à posição que levantou, à qual incorporo o meu. Assinaria em baixo, sem discrepâncias. Mas, Nealdo coloca um entretanto: “Será que haverá mesmo um choro e ranger de dentes”? Fernandinho joga um porém do: “temor das ciclotimias inerentes à nossa vida pública”! Faço um desabafo. Como quase todos os companheiros sabem, sou o que se chama por vezes de forma debochada, de velho, já meio cansado, com validade vencida, mas o meu “entretanto” é não perder a esperança, crença, fé e apostar que ainda existe muita gente boa nesta Nação que emergirá “na qual a impunidade será banida, para sempre, do nosso dicionário e a justiça prevalecerá sobre todos”. Quero ir até o final com a convicção de que encontraremos a luz no fim do túnel e aos pouquinhos deixaremos um mundinho melhor para nossos descendentes.

  4. Assim é que se fala, Ivan Rofrigues! Faço coro e bato palmas, ao articulista e a você.
    Meu amigo Marco Maciel, um liberal convicto que aceitou a colaboração de um esquerdista obstinado, sem qualquer cobrança política, gostava de dizer: ” O otimista pode errar, mas o pessimista já começa errando”.

  5. Prezado João Rego,
    Parabenizo-o pelo artigo.
    Talvez não seja um “velho” – como se coloca o senhor Ivan- mas sou por natureza um otimista, apesar dos meus quase sessenta.
    A pertinente abordagem de Fernando, nos recomenda ir com cautela – mas sem esmorecer – para não quebrarmos a louça..
    Só creio que num país onde – conforme mostrado no Globo Repórter de ontem – populações de pequenas localidades ainda precisam percorrer 100 quilômetros para fazer uma simples ligação telefônica e, um simples mosquito coloca um país inteiro de joelhos, as mudanças desejadas e “choros e ranger de dentes”, poderá demandar um tempo ainda longo demais, para o ritmo que todos nós, gostaríamos e desejaríamos impor.
    Será talvez como quando Moises tirou o povo judeu do Egito e, peregrinou por anos, para que a geração nascida em liberdade, vossa a que atingisse a Terra Prometida, já livre de uma história e de uma alma escravagista.
    A mudança veio pra ficar.Porém – lamentavelmente – é lenta.

  6. Será??? Infelizmente não consigo enxergar estes avanços… Se assim fosse, vocês não acham que teríamos políticos de outros partidos sendo investigados, condenados e presos???

  7. Gostei imensamente do conteúdo e do tom quase bíblico do artigo. É isso mesmo, João, o próprio fato de o chicote agora estalar no lombo de poderosos, quando antes só batia em gente miúda já dá motivo para otimismo. Ainda não me acho um velho (até porque essa ideia de velho envelheceu…), mas já vivi demais para ser pessimista. Para não recuar muito: há 30 e poucos anos os pessimistas diziam “não vai passar” e passou o regime militar. Há 20 e poucos anos a sociedade via a inflação como um dragão invencível e foi vencido. Há 20 anos, ainda não havia vaga na escola primária para 20% das crianças mais pobres; hoje, nessa área, o problema da quantidade está superado, resta, aflitivo, o da qualidade. Outro motivo para o otimismo é ver que coisas como a Lava Jato estão sendo conduzidas por jovens policiais, procuradores e servidores públicos agregados em torno do jovem Moro. Eles não têm cara de quem vai se aposentar ou entregar os pontos. E a ação deles (que são simples mortais e não semideuses) , demorada e profunda como está sendo, pressupõe um chão firme, o apoio de uma imensa maioria da população. Dito isso, acho que precisamos reconhecer uma dívida com os pessimistas: a voz deles serve de alerta, incita a um maior empenho. E só com muito empenho será possível realizar os sonhos comuns a todos, otimistas e pessimistas.

  8. Desculpa Ricardo Gouveia, mas é lamentável que desconheça o resultado das condenações do chamado “Mensalão”.Foram 23 (vinte e três) condenações e apenas 4 (quatro) do PT – os chamados heróis nacionais e guerreiros do povo brasileiro na visão ELITISTA do maior partido de massas que o Brasil conheceu: Os meus são heróis e os outros são ladrões mesmo. Já esqueceu, ou não tomou conhecimento, de que nos condenados do chamado “Petrolão” já existem até bi-condenados e presos como Pedro Correia do PP? E os grandes empreiteiros já condenados, não contam? O primeiro axioma básico do exercício democrático é o cumprimento da Lei e sabemos que a coerência é o caminho mais espinhoso da Democracia, por isso estremeço quando assisto pessoas que pretendem se excepcionar, no pressuposto que estão fora do alcance da Lei e Ministros do Supremo, infringindo a própria Lei Orgânica da Magistratura, ao dar pareceres jurídicos em questões fora dos autos, como que – farisaicamente – estivessem preocupados com o cumprimento das regras processuais que ele mesmo está infringindo. É preocupante, mas lembra-nos como são frágeis ainda nossas instituições e como precisam ser resguardadas a todo custo, para aperfeiçoamento do nosso defeituoso corpo social.

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