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Penso, logo duvido.

Confiança – Luiz Otavio Cavalcanti

Luiz Otavio Cavalcanti

Shaking hands.

Cen?rio da economia brasileira no final de 2017: crescimento do PIB de at? 2%; infla??o de 5%; taxa de juros de 9,5%; desemprego declinante. Improv?vel? Talvez n?o.

Com a pol?tica ajudando a economia, d?.

Na verdade, dois fatos se concretizaram no governo Temer: o regime presidencialista deu lugar ao presidencialismo parlamentarista. O governo precisa aprovar as reformas no Congresso. N?o h? outra sa?da. A PEC da qualidade do gasto j? foi aprovada. A reforma da educa??o est? em discuss?o final. A reforma da Previd?ncia entrando na pauta. Iniciativas que aguardavam decis?o h? mais de d?cada.

O segundo fato ? que, dada a fal?ncia fiscal do pa?s, o capitalismo de Estado do governo Dilma Rousseff cedeu ao capitalismo de mercado. A economia brasileira voltou ao padr?o normal de gest?o p?blica contempor?nea.

Essa realidade pol?tica ajuda a economia a funcionar. Ajuda o investidor a buscar neg?cios. Ajuda o crescimento. Porque est? lastreada no retorno de elemento fundamental em toda sociedade: a confian?a.

A confian?a pol?tica, ou a confian?a na pol?tica, ? fundamental para a qualidade da democracia. Quando existe corrup??o, a confian?a na pol?tica cai. Quando se pratica nepotismo, clientelismo, a confian?a pol?tica desaba. Por isso, as institui??es pol?ticas brasileiras s?o mal avaliadas pela popula??o.

O Estado moderno opera com base em tr?s pontos: coopera??o social (ao contr?rio do discurso do n?s contra eles); previsibilidade de comportamento ?tico (regra no espa?o p?blico) e media??o institucional (como o Poder Judici?rio est? demonstrando).

? verdade que a burocratiza??o e a falta de mudan?a, obstruindo a mobilidade social e o conforto do cidad?o, contribuem para reduzir a confian?a pol?tica. Provocam a exaspera??o e a revolta. Da?, decorre a ades?o a posi??es radicais e racistas como as de Trump e de Marine Le Pen.

A palavra cidad?o vem de do latino civitas. Designando no??es de liberdade e de virtude republicanas. Essas no??es adquiriram relev?ncia na polis grega. Na qual os la?os de lealdade e identidade dos cidad?os formavam a comunidade destinada ao bem p?blico.

Na Idade M?dia, o burgo ocupou o lugar da polis. A burguesia ent?o assumiu seu lugar na sociedade. Consolidado no contratualismo de Rousseau e de Locke. E sancionado nos ideais da Revolu??o Americana (1776) e da Revolu??o Francesa (1789).

A concep??o liberal construiu a perspectiva protetora da cidadania no contexto das associa??es pol?ticas. Desenvolvendo os conceitos de identidade social, diversidade cultural e respeito ao outro. Coroada, no s?culo XX, nos trabalhos de pluralismo democr?tico de Norberto Bobbio e de Robert Dahl.

Portanto, a confian?a, como elemento constitutivo do processo pol?tico, vai se inserindo na pr?tica democr?tica ? medida em que o institucional converge para o social, para o interesse coletivo. Reprovando o nepotismo, condenando a corrup??o.

Nesse sentido, a confian?a na pol?tica vai alcan?ando natural gradua??o. Primeiro, define-se apoio difuso da popula??o ao jogo democr?tico. Segundo, a sociedade incorpora a democracia como ideal de conviv?ncia pol?tica. Terceiro, a cidadania passa a confiar nos pol?ticos.

Atingir o est?gio concreto de confian?a nos pol?ticos significa que a democracia alcan?a n?vel de maturidade. E, como consequ?ncia, o regime democr?tico ? visto como ideal e como meio de resolu??o de conflitos.

No Brasil, conforme pesquisa realizada em 2006 (A Desconfian?a dos Cidad?os nas Institui??es Democr?ticas), citada por Jos? ?lvaro Mois?s, o apoio ? democracia era elevado. A resposta ? pergunta se a democracia ? sempre melhor que qualquer outra forma de governo, alcan?ou 64% dos entrevistados.

Governos podem ser impopulares. Mas, ? medida em que as pessoas perceberem comportamentos previs?veis e resultados esperados, o grau de confian?a empurrar? a popularidade.

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2 Comments

  1. Excelente artigo, Luiz Otávio. Eu acrescentaria que a sociedade em redes trouxe desafios adicionais, e qualquer cidadão pode acessar outro, inclusive um agente público. É tempo de abandonar a postura autocrática, pois a praça está de volta, tal na polis grega. Já não se quer “autoridades”, agora se quer servidores.

  2. Concordo com a importância da “confiança”, inclusive confiança em que as leis são cumpridas. E que existam condições que obriguem o cumprimento da multiplicidade dos contratos que existem em uma sociedade. Até acho que o seu cenário otimista para p Brasil no fim de 1917 é possível (mas o grau de probabilidade que diferentes economistas dão a isso vai variar muito). E não acredito que democracias atinjam algum nível que possa ser chamado de “maturidade”. A democracia só se mantém se for defendida por todos diariamente em suas atividades. Como nota de rodapé, acrescento que ascensão de Trump e Le Pen, assim mencionados en passant, ficou mal explicada.

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