
Gilberto Freyre
Parce sepultis. De mortuis nihil nisi bene[1]. Conheço bem os brocardos, e não os desconsidero. Ouso até complementá-los com a observação despretensiosa que ouvi, para minha surpresa, anos atrás, do então deputado estadual Aluísio Pereira, filho do criador do “Território Livre de Princesa” no ano de1930, e, portanto, insuspeito de simpatias com o Presidente João Pessoa. A proposito de mais uma das ondas recorrentes que se formam, por aqueles que sonham em revisar a História, propondo a mudança do nome da capital do meu Estado, ele simplesmente afirmou: “Isso é bobagem. Não se combate um morto”.
Sobre o título do texto, cumpre-me esclarecer também que descarto as acepções originais das duas palavras, e adoto seu entendimento popular. Pretendo tratar de excelsas personalidades, que nos impõem uma postura reverencial, inibindo, em relação a elas, qualquer visão crítica. Nada a ver, portanto, no que está expresso, com a hagiologia, menos ainda com a teratologia, como se poderia pensar.
Admito, enfim, que a atitude de criticar um “monstro sagrado” costuma ser vista como fórmula para a conquista de notoriedade, como pude observar, após a morte do meu mestre Celso Furtado, por parte de jovens e talentosos economistas, com quem cheguei a polemizar. Mas não corro tal risco: octogenário, já merecedor de máximas prioridades, não aspiro a mais créditos intelectuais além daqueles poucos que, modestamente, já tenho.
Findas as preliminares, passemos ao que interessa. José Américo de Almeida é ícone incontestável da literatura e da política paraibanas. A casa onde se recolheu, ao encerrar sua carreira política, é hoje sede da Fundação Casa de José Américo, que promove eventos intelectuais e ocupa espaço diário no jornal “A União”, único periódico impresso do Estado, com textos informativos. Vários são os livros sobre suas obras, como o romance “A Bagaceira” e o tratado (se assim o podemos classificar) “A Paraíba e seus Problemas”. Mas entendo que sua vida política foi mais marcante do que a literária, e, de certa forma, a sombreia. E é sobre esta que pretendo falar.
São inolvidáveis o pronunciamento dele no Congresso Nacional, seguido de debates, sobre sua atuação, como Ministro do Presidente Getúlio Vargas, por ocasião da seca de1952. Como também o corajoso discurso em comício, no interior da Paraíba, na eleição de 1950, diante de capangas a cavalo, ostensivamente armados pelo seu adversário, Américo Maia. Ambos os fatos estão registrados em livros. Mas há três episódios que podem ser vistos como nódoas no seu brilhante currículo.
O primeiro foi na trevosa noite do suicídio de Getúlio, na ocasião em que Tancredo Neves e outros ministros declaravam solidariedade ao presidente acossado pelos militares. José Américo, em sua fala, sugere ao Presidente “sossegar os ânimos exaltados com um gesto generoso de renúncia”. Morto Getúlio, escreveu um depoimento comovente sobre seu gesto extremo, que foi publicado, em página inteira, nos jornais da Paraíba. Meu pai o leu para toda a família, até a frase final, realmente inspirada: “Deu grandeza ao epílogo”. Mas há quem atribua, na recomendação da renúncia, algum ressentimento por aquele que bloqueou sua candidatura à Presidência da República, com o Golpe de Estado de 1937, recolhendo-o ao Tribunal de Contas da União.
Retornando à Paraíba para concluir seu mandato de governador iniciado em 1950, o “vice-rei do Nordeste” dos anos 30, “reserva moral da nação”, entendeu – a pretexto de pacificar o Estado – promover um grande acordo, evitando o embate para a sua sucessão entre os dois grandes partidos paraibanos, PSD e UDN. E o escolhido para sucedê-lo foi o usineiro Flávio Ribeiro Coutinho, da UDN, conservador e líder do chamado “Grupo da Várzea”, que reunia os políticos mais reacionários do cenário estadual.
Mas talvez o maior dos seus pecados tenha sido o de dar uma declaração pública de apoio à chamada revolução de 1964, certamente a pedido do General Reynaldo Almeida, seu filho. E isso numa circunstância em que seus colegas intelectuais viam-se presos, perseguidos ou forçados a emigrar. (A única exceção foi Rachel de Queiroz, que resolveu tecer loas ao Marechal Castelo Branco, seu conterrâneo).
Meu pai, que foi Secretário da Agricultura no governo dele, e por ele tinha profunda admiração, ao ponto de visitá-lo quase todo domingo, em seu retiro de Tambaú, engoliu em seco: entre os perseguidos estava meu irmão, que viveu longos anos clandestino, e acabou também por emigrar. Na verdade, do ex-ministro do TCU não se havia de esperar nenhuma postura heroica de condenação ao Golpe de 1964. Mas poderia apenas ter-se omitido. Seria uma atitude mais compatível com o seu famoso discurso sobre a “cadeira vazia”, quando, como parlamentar, opôs-se à proscrição do Partido Comunista, no governo do Marechal Eurico Dutra, de triste memória.
Mas, voltando à nossa temática inicial, falemos de outro “monstro sagrado”, agora pernambucano: Gilberto Freyre. Sua fama vai além do Estado e do país, ninguém ousa contestá-lo, apesar das posturas contraditórias de sua vida. E é para elas que pretendemos dirigir o nosso foco, datissima venia.
Poucos recordam agora – e os seus admiradores incontestes evitam rememorar – o fato de que nosso ilustre sociólogo passou vários meses sob os auspícios do Oliveira Salazar, longevo ditador de Portugal, em visita às suas então chamadas “províncias ultramarinas”. E, obviamente, as reconhecia como tais. E também suas observações preconceituosas sobre as mulheres, para quem aconselhava, como leitura, os livros de missa e de receitas. Como representante do Ministério da Educação no Conselho Deliberativo da SUDENE, sua participação foi também, em boa parte, conflitiva, como reportou Celso Furtado, em suas memórias.
É certo que, com os ventos da redemocratização do país, após os vinte anos de sombra, seu discurso foi ajustado aos novos tempos. Sobre as mulheres, esclareceu achar apenas que não deviam desprezar as tradicionais prendas domésticas, sem prejuízo da atividade intelectual. O passado salazarista foi esquecido. E no Seminário de Tropicologia da Fundação Joaquim Nabuco, que ele criou e presidia, abriu espaço para todas as tendências políticas, além de todas as formações profissionais. Como vemos, entre as suas múltiplas virtudes, pode-se constatar a inteligência e a habilidade em adaptar-se ao “espírito do tempo” (zeitgeist).
É o momento, enfim, de se questionar qual a motivação destas especulações. Simplesmente, amigos, a de ressaltar a importância de todos mantermos um olho crítico para os personagens do mundo político e intelectual da atualidade. Vivemos um tempo de opções polarizadas, de adesões emocionais em favor deste ou daquele indivíduo, sem nos darmos conta do seu passado ou do seu presumível futuro. E podemos pagar caro por isso, como nação civilizada e democrática.
[1] Dos mortos, nada além de coisas boas
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