Montanha mágica - autor não identificado

Montanha mágica – autor não identificado

O poeta e crítico César Leal (1924–2013) tem razão em afirmar, em remoto e atual ensaio, “Temas e motivos de Thomas Mann”, na revista “Estudos Universitários”, da UFPE, que  “A montanha mágica”, a mais famosa obra do escritor alemão Thomas Mann (1875–1955), “[…] sem as personagens de Settembrini e Naphta, não passaria de uma história interessante e insípida”. Sim, essas duas personagens são, por assim dizer, o sal do livro. Com efeito, os embates intelectuais e doutrinários de ambos são cenas que perduram em nossa memória e que vêm, neste novo momento de obscurantismo que atravessamos, nos encorajar a lutar e torcer por tempos mais luminosos. É tempo de ler e reler o humanista alemão, celebrando-o em seu sesquicentenário de nascimento e 70 anos de morte.

Infelizmente, não sou especialista em Thomas Mann (já me basta, e me dou por pago, a pobre e pitoresca veleidade de o ser de Guimarães Rosa e Marcel Proust). Embora naturalmente conheça outros livros do autor, é sobre “A montanha mágica”, relido há pouco, que desejo fazer alguns breves apontamentos. A essa montanha, ascendemos acompanhados do jovem engenheiro Hans Castorp, que sobe aos Alpes suíços para visitar um primo num sanatório voltado a tuberculosos. Mal sabe ele que também ali ficará “preso”. Castorp é um cativo das gélidas e apolíneas alturas que tão bem contrastam com as literalmente febris temperaturas dos internos.

Castorp se descobre um “filho enfermiço da vida”, e neste passo, vem a calhar as palavras de Proust, outro “filho enfermiço da vida”: “O corpo é a grande ameaça que pesa sobre o espírito”. É o que se sente quando a doença nos assalta e molda a nossa forma de viver e ver o mundo. E é o que se revela no livro de Mann.

À semelhança de Proust em “À procura do tempo perdido”, o Nobel de 1929 maneja com maestria os “insumos” médicos e realistas do seu romance, a exemplo do “modus operandi” de personagens, das técnicas e do vocabulário da área de saúde. O mundo dos internos é regido por uma onipresente regulação médica. O corpo, tiranicamente, assume um ambivalente protagonismo. Mas, acima de tudo, é o espírito, tão livre quanto acossado, que vive o seu triunfo, e eis porque o conservador, jesuíta e reacionário Naphta e o liberal e iluminista Settembrini são como que “convocados” a ser o “sal” do romance, pois são eles que encarnam dois modos antagônicos de se situar existencial e politicamente.

A “montanha” é “mágica” porque é febril, tanto literal quanto “lato sensu” metafisicamente. Hans Castorp é um noviço que desperta para o mundo das ideias e que, como um ator-escada, enseja o protagonismo aos demais personagens, em especial aos já citados e loquazes Settembrini e Naphta. A “magia” da “montanha” (do sanatório Berghof, em Davos) embebe-se de uma visão espectral e se nos oferece como uma inesperada revelação existencial. O sanatório é um mundo cosmopolita à parte e acima, de sofrimento e aceitação, e sua regulação parece lembrar que em Mann a profundidade dos abismos humanos é habitualmente mediada por uma certa ordem. Mann é um apolíneo, e isso transparece a cada instante malgrado os seus mergulhos no nevoeiro do inconsciente. Não por acaso, ele escreveu, no texto “Minha relação com a psicanálise”, que a essência desta era “conhecimento, conhecimento melancólico, sobretudo no que se refere à arte  e à atividade artística […]” e que esta desempenhava um papel em “A montanha mágica”. Assim, no romance, a terapêutica do corpo vai de passo com uma terapêutica da alma.

Exaltando, quase que de uma maneira socrática, o poder do diálogo, “A montanha mágica” como que se instaura num limiar entre o estético-literário e o ideológico. Não é preciso ser um leitor muito atento para observar que o narrador, no eloquente embate entre Settembrini e Naphta, pende para o progressismo democrático do primeiro em detrimento dos apelos místicos e escolásticos do reacionário mestre jesuíta. Vê-los discutir em meio ao frio glacial dos Alpes, isolados da carnalidade do mundo que ficou “lá embaixo” é se dar conta de que há não só um encanto, mas também um limite em todas as abstrações teóricas e generalizantes. Mas as ideias aquecem a ambos. Além disso, a habilidade técnica de Mann não os fixa numa mera caricatura, imprime-lhes vida e calor. Como também anotou César Leal no ensaio já citado, “Settembrini e Naphta asseguram ao romance uma unidade de exposição de ideias através de uma verdadeira teoria da conversação inteligente”. E nisso pulsa o coração desse grande livro, que, apesar de tudo, também tem, a nosso ver, grandes defeitos.

A “montanha” é “mágica” por ser transformadora (nela, aliás, o próprio tempo se modula de um outro modo, como enfatiza o narrador). De uma forma polifônica, o rumor de sua alegoria aponta para a gravidade “maior” do que está em jogo no âmbito social da época. A clara simbologia de sua verticalidade, altura de resto em via de mão dupla com o mundo “inferior” e amplo da esfera pública, areja, em suave porosidade, os destinos fadados à planície. A luz apolínea que irradia é, a seu modo, uma armadilha fatal para o obscurantismo.