
Ariano
Na nossa Era Digital, na qual engatinhamos com pretenso charme, os escritores, tanto quanto os livros e as editoras, tornaram-se um objeto de comércio e marketing. Daí sua ubíqua presença nas redes sociais (aí incluído o espaço dos chamados “influenciadores”), em programas televisivos, podcasts e imprensa escrita, sem falar nas babélicas feiras de livros, nas quais encontram-se com um público potencial ou consolidado.
O marketing dos livros, das editoras e dos escritores surfa nas “lives”, nas “rodas de conversa”, nos filminhos das redes, nas newsletters, etc. Há, inclusive, autores que têm um talento nato para um desempenho público e midiático. Penso no exemplo emblemático de Ariano Suassuna, a quem conheci de perto como meu orientador de mestrado na UFPE e vizinho de bairro no Recife (uma vez, minha filha, à época com seus cândidos quatro anos, me perguntou se o azulejado casarão de Ariano era uma igreja; em sua inocência, talvez tenha ficado desapontada ao me ver contrariar sua percepção, aliás, diga-se de passagem, não de todo equivocada!…). Como hoje se pode ver nos registros da internet, Suassuna, já falecido, sempre esteve à vontade em público, com a grande vantagem, tanto para ele como para a plateia, de que sabia fazer rir… De fato, o autor de “O auto da compadecida” foi um grande e genial humorista.
Na minha antiquada ética, penso não ser muito razoável que vários novos escritores advoguem tanto por suas obras e que se levem tão a sério, uma vez que seriam suspeitos para isso. Alguns me cheiram mais a personagens do que a autores. O narcisismo, dizem os especialistas, estimulado pelas redes sociais, está em alta. Em geral, salvo exceções, os prazeres de Narciso parecem fartamente compensar uma penúria intelectual.
Gilberto Freyre, a quem também conheci em sua gloriosa velhice e de quem presencialmente assisti muitas palestras, assumia, como se sabe, uma espécie de saudável vaidade, apelando para charmosos circunlóquios ao falar de si mesmo. Dizia-se, vejam que curioso, “um parente irremediavelmente pobre de Marcel Proust”… Ao se referir à sua obra máxima, “Casa-grande & senzala”, falava que, em relação a ela, ele era assim como “o marido da professora”… Ou, em certos momentos de seu texto ou de uma palestra, fazia-se imaginar como uma terceira pessoa…
Em seu brilhante e conhecido ensaio de introdução à “Casa-grande & Senzala” para a edição venezuelana da obra, Darcy Ribeiro anota com leveza: “Gilberto Freyre tem uma característica com que simpatizo muito. Como eu, ele gosta que se enrosca de si mesmo […] em torno dele se orquestra um culto que Gilberto preside contente e insaciável. Apesar de mais badalado que ninguém, é ele quem mais se badala”. Acrescentemos que dosava com graça essa badalação.
No seu excelente conto “À procura de uma mantilha dourada” (em “Três histórias mais ou menos inventadas”, organizado por Edson Nery da Fonseca e publicado pela Editora UnB/Imprensa Oficial de São Paulo, em 2003), escrito para a antologia “Cuentos e narraciones de Hispanoamerica”, que celebrou o centenário de nascimento do escritor espanhol Vicente Blasco Ibañez (1867–1928), Freyre chega a falar de si como alvo, no Recife, de pitorescos mexericos (“Dizia-se que não gostava de moça e que vivia mais rodeado de rapazinhos”), fazendo, assim, a realidade finamente introduzir-se na ficção…
Enfim, Suassuna e Freyre operavam, cada qual com seu estilo, num modo autoirônico e divertido. Eis, quem sabe, dois bons exemplos para os narcisos de nosso tempo.
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