
São Francisco
E lá se foram oitocentos anos desde que São Francisco de Assis (1181/82–1226) fechou para sempre seus límpidos olhos. Talvez nenhum outro santo seja tão popular e tão simpático em todo o mundo. Parece inclusive que melhor o vemos, não nas igrejas, mas fora delas: na pintura, na literatura, no artesanato, na música, na dança, no cinema… Falemos, de passagem, de uma bela paisagem. Sob sua invocação foi erguida, em Belo Horizonte, a chamada “Igrejinha da Pampulha” (na verdade, o Santuário Arquidiocesano São Francisco), hoje também um patrimônio cultural da humanidade, abençoado pelo trabalho de um quarteto excepcional: Oscar Niemeyer, Candido Portinari, Joaquim Cardozo e o presidente Kubitschek.
Francisco foi sobretudo um antecipador, como bem o nota G. K. Chesterton na biografia que lhe dedicou. O escritor inglês, há um século, mostrava como o santo antecipara “tudo quanto no convívio atual se apresenta com o máximo de liberalidade e de simpatia: o amor à natureza, o sentimento de compaixão social, o senso dos perigos espirituais decorrentes da prosperidade e até das posses materiais”. Então recém-convertido ao catolicismo, Chesterton vai mais além e especula se um escritor não seria tentado a “narrar a história de um santo sem Deus”, o que seria, logo emenda, obviamente contraditório. Mas é com essa especulação chestertoniana que bem podemos imaginar que a apropriação popular de São Francisco começa justamente por aí, isto é, por uma amplitude de visão que transcende o próprio catolicismo e confraterniza com todos os homens e todas as coisas.
Segundo Chesterton, o santo foi “precisamente o reverso de um sonhador” e “era prático demais para ser prudente” (aqui cabe dizer que era igualmente um impetuoso…); daí não ter sido talhado “para histórias meramente ‘bonitas’”, embora, como se sabe, sua hagiografia esteja recheada delas. Na “Legenda Áurea”, por exemplo, Jacopo de Varazze se compraz em citar diversos milagres que, já em vida, fizeram a fama de Francisco.
Tendo nascido numa época em que a Igreja, em crise, parecia descristianizar-se, ele não tardou a ouvir um comando dos céus: “Francisco, não vês que minha casa está em ruínas! Vai restaurá-la para mim!”. Sua restauração foi uma revolução num catolicismo que se afastara do espírito do evangelho. Convertendo pelo exemplo, imitaria Jesus Cristo como até então ninguém ousara. Por isso, logo despiu-se e despediu-se das riquezas, pois não era justamente filho de um riquíssimo comerciante de tecidos?
Chesterton sintetiza-nos à perfeição a filosofia do mais alegre dos santos: toda ela fundava-se “em torno da ideia de uma nova luz sobrenatural sobre as coisas naturais, o que significava a recuperação final das coisas naturais, não a sua recusa final”. O que é simplesmente espantoso, dada a situação histórica e social do início da Baixa Idade Média (séculos XI a XV). Por sua vez, o historiador René Fülöp-Miller vai nessa mesma direção e, em seu famoso livro “Os santos que abalaram o mundo”, comenta: “Foi como se o mundo em que os homens vivem houvesse sido canonizado. A veneração de Deus em Sua essência suprassensível podia encontrar agora expressão na veneração da natureza. E da mesma forma que podia o artista olhar para a natureza e dela derivar sua inspiração, com clara consciência e sem dano para sua fé, podiam os homens de saber da Idade Média satisfazer sua ânsia de conhecimento e perscrutar a natureza para investigar suas leis. Não é acidental que tenha sido um franciscano, Roger Bacon (1214–1294), o primeiro representante do ‘mundus sensibilis’, o primeiro naturalista no sentido moderno do termo”.
Com um Francisco atuante, jovial, além de “louco” a ponto de ser esposo da pobreza, a Europa começava a mudar. A criação da Ordem Terceira, por exemplo, produziu, diz Fülöp-Miller, talvez com algum exagero, “uma das revoluções sociais de maior alcance na Idade Média: a queda do sistema feudal”, pois os membros da irmandade “estavam proibidos de participar de aventuras guerreiras, incompatíveis com a doutrina de amor do Evangelho”. Com a criação da Ordem Terceira, Francisco conciliava o que parecia impossível: “o ficar no mundo sem pertencer a ele”; o continuar “fiel às cidades, aldeias e famílias” e, ao mesmo tempo, ser uma espécie de militante cristão.
Gentil, humilde, bem humorado e vigoroso em suas ações, o sedutor Francisco, além de ter mudado o mundo para melhor, passa-nos a todos nós, a oito séculos de sua morte, uma proximidade humana, efetiva e real. Todos nós gostaríamos de ter um amigo como ele.
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