
Terras raras
Infelizmente não tenho bola de cristal e não posso prever o futuro, mas com base em certas evidências, podemos imaginar certos riscos próximos à democracia e à soberania brasileiras. A existência desses riscos decorre da tolerância mantida com relação a certos políticos dispostos a trair o país em favor dos Estados Unidos e a aceitar desempenhar funções de lacaios, em troca de terem apoio para instaurar uma ditadura familiar, uma dinastia, e assim desfrutarem do poder.
Ainda recentemente, o candidato Flávio Bolsonaro confirmou sua vocação golpista ao afirmar que libertará imediatamente seu pai, preso por tentativa de golpe, e reagirá contra o STF se seus ministros quiserem impedir essa libertação em nome da inconstitucionalidade.
Há alguns dias, afirmou, com seu sorriso cínico, que seu pai subirá com ele a rampa do Planalto na posse como presidente.
Diante dessa declaração, o jornalista e crítico político Reinaldo Azevedo disse, no canal Metrópoles, querer ter mais detalhes. Como seu pai poderá subir a rampa sem ter sido libertado e como Flávio poderá libertar seu pai antes de ser empossado? Ora, só depois de eleito Flávio poderia decretar o indulto e, mesmo assim, teria de esperar a reação do STF! Ou Flávio estaria programando um golpe logo depois das eleições, ou, mais precisamente, logo depois de sua derrota nas eleições?
E outra: num encontro para o qual foram convidados embaixadores e representantes de diversos países, Flávio Bolsonaro veio com a velha história de urnas não seguras, defendida pelo pai e que lhe custou a inelegibilidade: a de que a Smartmatic, empresa venezuelana fabricante das urnas eletrônicas, não garante invulnerabilidade. Por que teria repetido o mesmo argumento já desmentido? Sua expectativa é a de que o Tribunal Superior Eleitoral, agora dirigido pelo ministro Nuno Marques, indicado por Jair Bolsonaro, aceite a história das urnas não seguras e crie um caos logo após a apuração, na hipótese mais provável de ser derrotado?
São três narrativas golpistas, ou mesmo três projetos golpistas, fadados ao fracasso, piores e menos consistentes que o plano golpista paterno. Mas aqui poderia entrar um apoio inexistente na derrota de Jair Bolsonaro: em lugar de apelar às Forças Armadas, como costuma ocorrer nos países sul-americanos, Flávio, seu irmão Eduardo, mais o foragido neto de ditador Paulo Figueiredo estariam negociando uma intervenção norte-americana no Brasil, a pretexto, a priori, de ter havido eleições fraudulentas, tema preferido do presidente Donald Trump. Um golpe rápido capaz de impedir reações e evitar uma guerra civil, perto do modelo aplicado na Venezuela. Para isso, contariam com o apoio dos Estados governados por bolsonaristas e suas estruturas policiais e militares. O apoio de São Paulo e dos estados sulistas seria decisivo, junto com o apoio religioso evangélico.
Si non è vero, è bene trovato, como diria o filósofo Giordano Bruno, queimado pela Inquisição em 1600.
Descrevemos o quadro e os riscos, mas ficaria a pergunta: por que os EUA endossariam a intervenção e apoiariam o golpe?
Razões existem e seria bom ficarmos alertas. A imprensa francesa deu eco aos temores brasileiros do uso da força militar, e a Agência France Presse e o jornal Le Figaro não deixaram por menos: “O Brasil se inquieta quanto ao risco dos EUA recorrerem à força militar no seu território, depois que Washington classificou como organizações terroristas dois grupos criminosos brasileiros”. Na verdade, essa classificação é pretexto para justificar qualquer intervenção norte-americana no Brasil, mesmo porque, diz o jornal, “a oposição de direita saudou a decisão de Washington”.
E por que tanto interesse pelo Brasil?
Antes já havia muitos países de olho nas riquezas da Amazônia. Agora, isso continua, mas reforçado com a cupidez pelas chamadas terras raras. E o jornal suíço Le Temps sintetiza bem essa ganância no título de primeira página: “O Brasil no centro de uma guerra fria econômica entre a China e os Estados Unidos por suas terras raras”.
O texto trata do controle da sociedade mineira Terra Brasil Minerals pelos EUA e Emirados Árabes, com a participação da Inglaterra, Canadá, Austrália e União Europeia, para a exploração de terras raras no Brasil, com o objetivo de concorrer com a China, detentora das maiores jazidas dessas terras.
O Brasil possui grandes jazidas, mas é um simples exportador dessa matéria-prima, como ocorre com o ferro e a soja. O Brasil sabe extrair, mas não tem o controle do processo que permite transformar a rocha em tecnologia e a tecnologia em soberania, comenta o jornal. E dá um exemplo: o lítio bruto exportado por 800 dólares a tonelada é importado, já transformado em hidróxido de lítio, por 8.000 dólares.
O Brasil quer sua soberania nesse setor, mas a ganância norte-americana por essas terras pode criar mudanças políticas e fazer o Brasil continuar como simples exportador. Isso é o que tramam os chamados patriotas, na verdade, traidores da pátria, políticos e entreguistas de nossas riquezas. É o limiar de uma luta pela soberania e controle das terras raras, como foi a luta da Petrobras pelo petróleo e que os patriotas também querem privatizar.
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