
O Silêncio
Mesmo os não católicos e os não religiosos podem ler com prazer o livro “A força do silêncio: contra a ditadura do ruído”, do Cardeal Robert Sarah (S. Paulo: Fons Sapientiae, 2024). Até porque o tema é universal. A busca pelo silêncio, como anota Alain Corbin, em sua “História do silêncio”, “impregna toda a história humana: hinduístas, budistas, taoístas, pitagóricos e, é claro, cristãos, católicos e, talvez mais ainda, ortodoxos sentiram a necessidade e as benfeitorias do silêncio”. Sem se levar o silêncio em consideração, talvez se possa dizer que não há espiritualidade ou sentido do sagrado. Também não há sabedoria sem termos o silêncio em sua devida conta.
Em oposição ao barulho do mundo, o silêncio, aos olhos de muitos, viria se arruinando, e esse aniquilamento nos afastaria do que importa. Em seu livro, o Cardeal Sarah está convencido de que “os poderes do mundo que buscam modelar o homem moderno descartam metodicamente o silêncio”. Para o cardeal guineense, “O descrédito em que a sociedade moderna lançou o silêncio é o sintoma de uma doença grave e preocupante”. Mas por si sós, reconhece o sacerdote, “O silêncio não é virtude nem o ruído é pecado”. O tumulto e o ruído perpétuos é que são, segundo ele, a expressão dos “mais graves pecados” da sociedade moderna. “O barulho adquiriu a nobreza que o silêncio possuía outrora.”
Em sua crítica à sociedade ocidental contemporânea, Sua Eminência também nos mostra o ruído visual de que estamos cercados: “A ditadura da imagem, que mergulha o nosso olhar num turbilhão sem fim, odeia o silêncio”. Noutras palavras, há uma fútil tagarelice a prosperar no mundo. Pode-se dizer que o silêncio nos “com-centra”, enquanto o turbilhão audiovisual nos dissipa e como que vai nos levando de nós mesmos. Como discordar? O purpurado põe o dedo na ferida e aponta para a arrogância narcísica de nossa época: “A civilização moderna não sabe se calar. É um contínuo solilóquio. A sociedade pós-moderna recusa o passado, olha para o presente como um vil objeto de consumo e olha para o futuro através dos raios de um progresso quase obsessivo”.
Dispensável dizer que toda a reflexão de Sarah, embora se assemelhe a tantas visões críticas da esfera laica, está (e como seria diferente?) fortemente embebida de referências bíblicas e católicas, a exemplo dos grandes místicos da Igreja, de santos, como Agostinho, Inácio de Loyola e Teresa d’Ávila, e de teólogos, como Joseph Ratzinger (de quem é uma espécie de filho espiritual). Sarah também permeia seu texto com escritores e filósofos leigos, sempre instado pelas oportunas perguntas do escritor e editor Nicolas Diat, parceiro de edição e autor de um livro sobre o pontificado de Ratzinger, o Papa Bento 16.
Apologia ao silêncio e à sua dimensão filosófico-transcendental, “A força do silêncio: contra a ditadura do ruído” não é, como se pode pensar à primeira vista e por seu subtítulo, um raivoso libelo contra a tagarelice e o barulho desenfreado do mundo atual, mas uma análise serena e poética que devolve ao silêncio o poder de sua presença. O silêncio não é uma falta e, assim, não deve ser percebido como uma negatividade. A propósito, Alan Corbin, no mesmo livro citado no início deste artigo, relembra-nos que “Sénancour (1770–1846) associava estreitamente o silêncio ao tédio, antecipando uma convicção completamente contemporânea”, ou seja, o silêncio impregnado de negatividade.
Ao fim e ao cabo, fica-nos que a fé (no caso, a católica romana) é consubstancial ao silêncio, preparando-nos para “o grande silencioso” que é, como diz Sarah, o próprio Deus. Essa aproximação não nos deixa longe do místico Wittgenstein, que, assombrado pelos limites da linguagem, escreveu que “Sobre o que não se pode falar, deve-se calar”. Com outro olhar, em sua obra “A arte da conversação”, Peter Burke vê o “silêncio religioso”, sob um tríplice significado: “um misto de respeito por uma divindade; uma técnica para abrir o ouvido interior; e um sentido da inadequação das palavras para descrever as realidades espirituais”. Como quer que seja, no mundo que chamamos de real e profano, o silêncio é simplesmente frágil. Que o diga a poetisa e Nobel de Literatura Wis?awa Szymborska, “Quando pronuncio a palavra ‘silêncio’, destruo-o”.
Excelente