
Thomas Mann
Nestes novos tempos sombrios, quando neofascismos voltam a ameaçar a humanidade, uma dupla efeméride literária nos encoraja a resistir. Refiro-me aos 150 anos de nascimento de Thomas Mann (1875–1955) e aos 70 anos de sua morte. É hora de, lendo-o ou relendo-o, retomar sua sabedoria de homem público, cuja trajetória, como apontam os especialistas, fluiu, em sua longeva vida, de um conservadorismo na juventude para um socialismo democrático e progressista na maturidade.
Thomas Mann, dispensável dizer, é autor de obras incontornáveis do século 20, a exemplo de “Os Buddenbrook”, que lhe proporcionou o Nobel de 1929, de “Doutor Fausto”, de “A Montanha mágica” e de “José e seus irmãos”. Mas, no meio do caminho, tinha uma pedra. Uma pedra monstruosa, áspera e sangrenta: a barbárie nazista. Assim como as obras de Freud, de Proust, de Brecht, de Robert Musil e de tantos outros, seus livros foram incinerados numa praça pública de Berlim. Que honra ser lido pelas chamas, em companhia de tantos outros autores ilustres! O regime de Hitler, imaginemos, logo mediu o calibre do inimigo: cassou-lhe a cidadania em 1936. Mann e a família seguiram para a Suíça e, após um tempo, em 1938, fixaram-se nos Estados Unidos, onde o escritor se tornou cidadão americano e professor na Universidade de Princeton, só retornando à Europa em 1952.
Será nos Estados Unidos que, a convite da BBC, fará pelo rádio, de 1940 a 1945, uma série de discursos de, em média, 8 minutos aos seus compatriotas, falas posteriormente reunidas no livro “Ouvintes alemães! Discursos contra Hitler” (no original “Deutsche Hörer! (Radiosendungen nach Deutschland aus den Jahren 1940–1945). Não obstante a edição brasileira focar o subtítulo em Hitler, o que não deixa de ser razoável e publicitário, é de se notar que, considerado o subtítulo original, o escritor se dirigiu sobretudo à Alemanha, muito embora a uma Alemanha dividida entre os opressores nazistas e uma sufocada oposição interna. Consta que, do outro lado do Atlântico, o próprio Hitler ouvia esses discursos.
“Ouvintes alemães!” era o vocativo inicial usado por Mann, cuja voz buscava atingir não só os que resistiam à barbárie em solo alemão, mas igualmente os chefes e chefetes nazistas e aqueles que os seguiam como que “narcotizados”. Ele próprio, numa emissão de 1941, pontuou o estranho entorpecimento: “Sei muito bem que, após esses oito narcotizantes anos, vocês quase não podem imaginar a Alemanha sem o nacional-socialismo”. Como testemunhamos ao ler “Ouvintes alemães!”, o escritor não se limita a ser simplesmente um crítico ou um analista, antes é uma voz contundente, que busca a persuasão e o convencimento. Mais que isso: ser uma voz de permanente esperança, pois, em várias emissões, ressalta que a Alemanha nazista será fatalmente derrotada. Não lhe escapa uma ironia cruel: “Povo alemão, vocês têm mais a temer com a vitória de seus líderes que com sua derrota!”.
Para Mann, não há dúvida de que “O mundo da vitória de Hitler não seria apenas um mundo de escravidão universal, mas também um mundo de cinismo absoluto […] um mundo totalmente entregue ao mal, subjugado pelo mal”. O proclamado “Führer” é, por excelência, “o inimigo da humanidade”, “um patife infernal”. Ao sair de sua habitual contenção, o já consagrado escritor reivindica que os alemães, mais que gratidão por sua obra, como já de fato existia, terão no futuro que ser gratos, dada a sua madrugadora “consciência social e não privada”, por ele os ter alertado, “[….] enquanto ainda não era muito tarde, contra os poderes abjetos sob cujo jugo vocês estão hoje atrelados”.
De fato, Mann foi crítico ao regime desde os primórdios do nazismo. Nessa trágica alvorada, em termos literários, o seu conto “Mario e o mágico” (de 1930), passado num cenário italiano, foi por ele reconhecido como “[…] uma história com fortes ramificações políticas, que se inclina em segredo sobre a psicologia do fascismo […]”. Este “inclinar-se em segredo” é bem fiel à discrição com que o tema é tratado. Esse conto, ou novela como a chamam, à parte qualquer interpretação política como “sátira do fascismo”, é uma obra-prima inexcedível, e sua tensão psicológica ata, com grande habilidade, as pontas de circunstâncias locais e pessoais a uma atmosfera social já carregada de autoritário nacionalismo, para não falar de um tragicômico charlatanismo político.
Eis aí, muito sumariamente esboçado, em ficção e discursos públicos, o Thomas Mann que tomou a si uma veemente defesa da civilização e dos seus valores (de resto como ressoa em sua obra mais famosa: “A montanha mágica”). Eis aí o antifascista que denunciou os “corruptores do povo”, que “[…] tomaram conta da Alemanha para adestrá-la para o crime”. Em nossos dias, quando novos “adestradores”, “mitos” e “salvadores” chegam ao governo de seus países, cheios de som e de fúria, cumpre-nos resistir, encorajados pelas palavras certeiras do escritor e humanista. Nelas talvez possamos escutar: “Ouvintes brasileiros,…”!
Olá Paulo Gustavo, tive o prazer de ler seu oportuno texto sobre T. Man, em companhia de Betty Malta, aqui no Recife. Grata pela lucidez de sua análise nessa ponte com tempos históricos distantes mas, infelizmente, tão próximos…. onde vemos o nascer de muitos ovos da serpente decididos a atacar a democracia no mundo. afmagalhaes20@gmail.com