Hanna Arendt

Hanna Arendt

O Natal é por excelência a maior festa da Cristandade. Nenhuma força pode tirá-lo desse pedestal. Seria de uma ingratidão atroz não se comemorar o nascimento do Salvador da humanidade. Nem a sua própria e “futura” ressurreição pode ser maior simbolicamente do que essa data. Mas o que gostaria de realçar é que, dentre as chamadas “religiões do Livro”, ao lado do Judaísmo e do Islão, o Cristianismo é a única que toma a natalidade como narrativa, e isso tem uma força que não só impulsiona a fé como se destaca do apelo puramente espiritual.

Hannah Arendt (de quem se celebra neste dezembro o cinquentenário de falecimento), ao falar da “vida activa”, em sua famosa obra “A condição humana”, aponta que a pluralidade é inerente a essa condição. Uma pluralidade que, segundo ela, compreende o “labor” (como “processo biológico do corpo humano” e que tem a ver com as “necessidades vitais”); o “trabalho” (que produz o mundo “artificial” das coisas criadas) e, finalmente, “a ação”, que se “exerce diretamente entre os homens sem a mediação das coisas ou da matéria”. É neste passo que a filósofa reflete que, dessas três atividades, “a ação é a mais intimamente relacionada com a condição humana da natalidade; o novo começo inerente a cada nascimento pode fazer-se sentir no mundo somente porque o recém-chegado possui a capacidade de iniciar algo novo, isto é, agir. Neste sentido de iniciativa, todas as atividades humanas possuem um elemento de ação e, portanto, de natalidade. Além disso, continua ela, como a ação é a atividade política por excelência, a natalidade, e não a mortalidade, pode constituir a categoria central do pensamento político […]”.

A natalidade, portanto, promove como que uma abertura em algo que, sem ela, quedaria fechado e opaco. É ela que traz ainda mais pluralidade à preexistente pluralidade da condição humana. Qualquer natal faz com que se passe a “existir entre os homens”, isto é, a “viver”, como falavam os romanos e como o bem recorda a filósofa.

A exemplo do próprio Cristo, o ser que nasce vem para salvar. O ser que nasce, como nas duras palavras do próprio Salvador, exige, simbolicamente, que “os mortos enterrem seus mortos”, exige intensa adesão a todo o futuro. Este, por definição, é sempre diferente, embora queiramos tragá-lo e subvertê-lo com disparatadas antecipações. Por sua natureza, ele é uma espécie de pergunta a gerar novas perguntas e respostas. Como disse Joaquim Nabuco, “O futuro é o lado vivo da eternidade”.

O Natal e todo natal vêm lembrar que estamos imersos em mistérios e que trarão, com o agir da condição humana, ainda mais mistérios. Talvez por esse motivo a alegria dos natais também seja melancólica e uma tristeza indefinível perpasse o coração das mães ao darem à luz os seus filhos; afinal de contas, elas trazem à luz o que não conhecem, pactuam com o mistério! Como pontua o psicanalista italiano Massimo Recalcati, em seu livro l segreto del figlio, o filho guarda um segredo, ou melhor, é ele mesmo um segredo: “O filho não é talvez um mistério que resiste a todo esforço de interpretação? Sua vida é um segredo indecifrável […] e ele assinala talvez sempre o ilimitado da vida”. Enfim, o natal e o ilimitado caminham juntos.

Observando a própria cena do nascimento de Cristo, é tentador nos voltarmos àquele elenco de elementos políticos que nela estão presentes e que falam por si mesmos, embora, de certo modo, também nos falem de uma apátrida Hannah Arendt e de sua exaltação da natalidade: a pobreza material, a falta de reconhecimento e a tensão com o hegemônico poder do Império Romano. A propósito, assinale-se que Jesus nasceu literalmente sem lugar, daí o recurso à estrebaria e ao cocho (a manjedoura). Metaforicamente, Ele é uma espécie de alimento da humanidade. A cena política se expande, já que, com menos de dois anos, ameaçado de morte pelo decreto infanticida de Herodes, Jesus foge para o Egito com seus pais… Como nas narrativas míticas e heroicas, o Menino Jesus sobrevive a despeito de grandes dificuldades e ameaças.

O Natal cristão é e deve ser uma grande festa. Já o natal arendtiano, ainda que não guarde um sentido religioso, indica-nos que cristianismo e filosofia política podem, sim, compartilhar, de certa forma, o mesmo fundamento simbólico. Eis, curiosamente “proposto” por uma genial judia assimilada, um vigoroso pilar filosófico à religião cristã.

Feliz Natal!

Paulo Gustavo