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Penso, logo duvido.

Projeto Divino

S?rgio C. Buarque

A Cria??o de Ad?o, teto da Capela Sistina Vaticano ? Michelangelo Buonarroti

A Cria??o de Ad?o, teto da Capela Sistina Vaticano ? Michelangelo Buonarroti

Depois de dois bilh?es de anos observando a expans?o continuada do grandioso universo, Deus levantou completamente entediado com a frieza e previsibilidade da sua cria??o. Olhou com aten??o uma supernova pr?xima e pensou: ?Daqui a dois mil anos ela vai explodir e despeda?ar-se no espa?o. E n?o faz nada para evitar este final. Como ? que pode, tamanha imobilidade e conformismo? ? verdade que ela n?o sabe, n?o tem conhecimento. E aquele cometa que se dirige alucinado na dire??o da estrela mais pr?xima num choque de alto poder destrutivo? Por que n?o muda de rota e sobrevive ao destino?? Procurou seus auxiliares imediatos, especialmente o anjo Gabriel, pensando em algumas inova??es no universo; sentia que faltava alguma coisa mais ……., digamos, viva ou, se pudesse ser mais preciso, capaz de mudar a dire??o e buscar a sobreviv?ncia.

?Claro, pensava ele, eu poderia, com um simples e leve sopro, esfriar a supernova, adiando seu final, ou deslocar a trajet?ria do cometa para evitar o choque fatal. Mas eu tenho mais o que fazer; n?o posso e n?o quero controlar os movimentos de cada corpo celeste ou cada nebulosa. Eu os criei, agora que se virem a assumam seu destino, ora bolas!? Quando Gabriel chegou, Deus pediu que ele reunisse sua assessoria celeste para um comunicado de grande transcend?ncia para o futuro do universo.

Logo se formou um circulo de anjos em torno de Deus para ouvir, com certa ansiedade gerada pelo inusitado conselho, a mensagem divina que, segundo ele, iria mudar o universo. ?Meus fi?is e dedicados conselheiros, como eu, voc?s tamb?m j? devem estar entediados com este mon?tono movimento do universo, carente de novidades e de surpresas. J? se v?o dois bilh?es de anos nesta ma?ante observa??o e nada nos emociona, nem mesmo nos preocupa ou anima. Eu quero criar algo novo e diferente ….. sei l? ….. que tenha vida pr?pria. ? isso, que possa nos surpreender com mudan?as de trajet?ria, como se o cometa se desviasse da rota para evitar o choque e a morte. N?o sei se entendem, mas eu quero o conselho de voc?s para esta grave decis?o?.

Gabriel ficou assustado com a fala de Deus e, mesmo sem coragem para refutar sua decis?o, ponderou com moderada sabedoria: ?Meu senhor, temo que uma cria??o como essa possa gerar uma grande amea?a para sua soberana autoridade divina. Imagine se esta criatura resolve mudar seus princ?pios de ordem e respeito e desafiam a vontade divina?? O anjo Mefist?feles sorria enquanto Gabriel fazia seu discurso conservador e aterrorizante e, antes que ele continuasse, o pr?ncipe celeste, ?nico com coragem de confrontar a vontade de Deus, defendeu com entusiasmo a proposta de cria??o de algo novo no universo.

A discuss?o se prolongou por v?rios s?culos com desentendimentos e disputas que, na verdade, refletiam a rivalidade em torno da simpatia e confian?a de Deus. Desde o in?cio, Deus j? tinha tomado a decis?o, mas pretendia que esta fosse acatada com entusiasmo por todos os seus auxiliares, o que terminou acontecendo, para contragosto de Gabriel, com os argumentos do culto e t?mido Ariel: ?Senhor: nada pode desafiar o poder divino. Assim, se esta criatura pensada pelo senhor, por alguma raz?o que n?o consigo entender, pretenda alterar o destino do universo, basta um simples e leve sopro para jog?-la de volta na sua insignific?ncia. Ou, no limite da sua toler?ncia divina, eliminar, pura e simplesmente, esta criatura. Por isso, meu Deus, sou favor?vel ? sua decis?o?.

Tomada a decis?o principal, agora Deus gostaria de ouvir seus conselheiros sobre a natureza e o tipo de criatura que poderia gerar que tivesse uma capacidade diferente dos corpos celestes que se deslocam no universo. Antes que o projeto come?asse a ser desenhado, Gabriel tentou uma ?ltima concilia??o: ?Deus, meu senhor, acho que antes de jogar no universo esta nova criatura, que nem sabemos ainda o que ? e como se comportar?, dever?amos fazer uma experi?ncia. Digamos ….. um projeto piloto ? bem localizado e de pequeno porte – para observa??o e controle?. O ser supremo gostou da ideia. Virou o olhar para o vasto espa?o e apontou o dedo indicador para um ponto quase insignificante no vazio: ?Ali. Vamos criar este ser com capacidade de escolha naquela pequena e fr?gil superf?cie e, assim, como diz o s?bio Gabriel, controlamos e impedimos sua imediata prolifera??o no universo?.

– ?Por que ali, senhor??, perguntou um anjo c?tico que ficara calado at? ent?o.

– ?Sei l??, respondeu Deus. ?? uma escolha aleat?ria; n?o tenho que ter explica??o pra tudo. Ali est? o planeta Terra. Vamos criar naquela superf?cie alguns seres com movimento relativamente independentes e que podem vir a pensar e agir de modo a definir o pr?prio destino, que acham??. Aparentemente nenhum dos conselheiros tinha percebido o plural na fala de Deus, mas Ariel, o mais culto e perspicaz, perguntou ao senhor porque falara em ?seres? e n?o apenas um ?ser?, explorando uma ideia impl?cita na cabe?a divina que parecia j? ter desenhado o seu projeto.

Diante disso, Deus explicou com detalhes o seu projeto: criar uma esp?cie com movimentos autocontrolados e com pensamento, assim como os dos anjos que argumentam, organizam informa??es e ideias, esp?cie que, evidentemente, jamais ter? capacidade mental divina. S? agora os anjos se deram conta da gravidade da decis?o de Deus: criar um ser com pensamento semelhante ao deles?! Era demais e consistia numa grande temeridade mesmo para os mais ousados e inquietos, como Mefist?feles.

?N?o se preocupem, meus leais servidores, eles nunca ter?o a intimidade e a confian?a do teu Senhor, ser?o apenas adoradores, mas eu preciso de surpresas, de imprevisibilidades neste universo e quero testar isso nesse planetinha isolado com seres que tenham movimento e fa?am escolhas. No entanto, quero encher o planeta de muitas esp?cies diferentes que garantam um certo equil?brio no conjunto?.

Neste momento, o Conselho de anjos se envolveu numa intensa e desorganizada discuss?o sobre os resultados desta cria??o nova. Deus levantou o bra?o pedindo calma e tentou explicar como iria fazer para dar origem a esta nova criatura no universo divino. Todos estavam apavorados, mas tamb?m muito excitados com a novidade que, de alguma forma, ia quebrar a mon?tona eternidade em que viviam. Ap?s a exposi??o de Deus e considerando todos os passos definidos pelo senhor, Mefist?feles pediu a palavra: ?Senhor, me permita sugerir um caminho mais simples? N?o bastaria jogar sobre este pequeno planeta uma por??o de sopa primordial e deixar que o acaso fa?a o resto? Ficamos aqui observando e, se for necess?rio, o senhor se move para evitar desastres que interrompam o processo. Que acha??

Antes que Deus pudesse responder, surgiu novo tumulto no grupo e Ariel, o s?bio, refutou com arrog?ncia, lembrando que ?Deus n?o aceita o acaso e o caminho ? uma provoca??o. Al?m do mais, Mefist?feles, isto levaria muito tempo para chegar ? esp?cie com vontade e escolhas que o senhor desejava?.

Deus apenas observava o confronto de ideias dos seus anjos preferidos, fascinado com a intelig?ncia e adorando a concorr?ncia intelectual. Mefist?feles sorria enquanto Ariel fazia seu discurso e, antes que continuasse, rebateu os argumentos do anjo s?bio: ?Meu caro Ariel, se eu entendi bem o desejo do Senhor, ? precisamente o acaso que ele pretende introduzir no universo. Ele nos convocou para este conselho porque estava cansado da previsibilidade da mat?ria inorg?nica do universo e que gostaria de ter surpresas. Ora, s? o acaso pode surpreender Deus?. Fez uma pausa, apontou para um cometa e disse para dramatizar sua fala: ?Todos sabemos que daqui a meio milh?o de anos, ele vai se chocar com a estrela ?mega e se despeda?ar. Que ma?ada. Al?m do mais, caro anjo, o tempo n?o tem nenhuma import?ncia para Deus diante da sua eternidade?.

Mesmo fascinado com a intelig?ncia dos seus anjos, Deus interrompeu a controv?rsia e, sem dar raz?o a nenhum dos lados, pediu que Gabriel (que silenciara no meio da discuss?o) formasse uma comiss?o para discutir a estrat?gia de implanta??o de uma nova esp?cie no planeta terra. ?A comiss?o deve avaliar os riscos e custos das duas op??es apresentadas; n?s voltaremos a nos reunir quando Gabriel tiver um plano detalhado e convincente?.

A reuni?o foi suspensa, mas os dois anjos rivais continuaram discutindo enquanto se retiravam. Ariel falava alto para que Deus ouvisse suas ideias. ?Imagine, meu amigo, se Deus tivesse criado o universo com um simples peteleco na pequena mat?ria densa e quente original? Seria o caos e estar?amos perdidos neste universo sem regras?.

– ?Mas, talvez – rebateu Mefist?feles se afastando ? Ele n?o estivesse agora entediado com essa eterna apatia de uma expans?o sem fim e choques e movimentos previs?veis. Se eu tivesse o poder dele, sabe o que eu faria? Suspendia a lei da gravidade pra ver o que acontecia?.

Algum tempo depois, tudo parecia voltar ? rotina e ao t?dio das tarefas cotidianos, quando Gabriel procurou Deus, reunindo o Conselho para ouvir a proposta do anjo. Gabriel apresentou detalhadamente as medidas, os prazos, o esfor?o necess?rio e os riscos da aventura divina de cria??o de um ser com vontade pr?pria e capaz de fazer escolhas. O modelo sugerido pelo anjo era simples: Deus sopraria sobre o planeta e provocaria, ao mesmo tempo, um grande foco de luz enquanto os anjos tocariam trombetas; esta combina??o de luz, som e ar provocaria um impacto de cria??o e a vida surgiria na forma de m?ltiplas esp?cies formando um equil?brio biol?gico em permanente movimento e expans?o. Como n?o tinham o mesmo impulso dos corpos celestes, estes seres deveriam ter a propriedade da reprodu??o. Depois, Deus escolheria um destes seres para receber o poder do pensamento. A isto acrescentaria a ang?stia da d?vida e o temor das escolhas para criar limites ao seu comportamento.

O Conselho aplaudiu o anjo Gabriel e Deus aprovou o plano que, segundo o previsto, em muito pouco tempo, aquele pequeno planeta perdido no universo viveria um experimento inovador do projeto divino. Ariel aplaudiu, mas pediu a palavra. ?Meu Deus e Senhor. Este projeto ? uma demonstra??o do poder divino, que n?o pode mesmo se limitar a um universo frio e mon?tono. Mas confesso que estou aterrorizado com a amea?a que podemos estar criando. Este ser, com intelig?ncia, vontade e iniciativa, com o passar dos tempos vai desafiar o Seu poder?.

Houve um certo tumulto no Conselho e v?rios anjos e conselheiros pareciam concordar com Ariel, exceto o seu eterno advers?rio, Mefist?feles, que pediu a palavra e falou com toda solenidade. ?Meu Senhor! Conselheiros! o que todos desejamos ? a beleza e o encantamento das surpresas; surpresas que s? o acaso nos reserva. Se estes seres inferiores algum dia desafiarem o poder divino estaremos vivendo uma maravilhosa experi?ncia, a criatura se rebelando contra o criador, demonstrando, meu Deus, o poder excepcional do Senhor. Al?m disso, basta um novo sopro do Todo Poderoso para jog?-los de volta ? insignific?ncia de uma criatura?.

Gabriel ainda pediu a palavra e fez uma grave advert?ncia. ?N?o sei se percebeu, meu Deus, mas estes seres ter?o uma qualidade que nem o mais poderoso senhor do universo det?m: a reprodu??o. Como n?o ser?o eternos nem ter?o o impulso expansionista do universo, precisam desta puls?o reprodutiva; mas nisso superam o Senhor?. Diante desta distin??o, o Conselho entrou em completo descontrole e v?rios gritavam e protestavam contra a loucura que estavam cometendo.

Deus acompanhava o debate e sorria benevolente e superior. Quando o conflito diminuiu, ele levantou o bra?o e todos calaram reverenciando o senhor dos senhores. ?Meus fi?is conselheiros, falou calmo e claro, o irreverente Mefist?feles tem raz?o. Vamos nos divertir com esta criatura, vamos acompanhar os seus movimentos e nos surpreender com suas inven??es. Se come?arem a ousar mais do que eu tolero, acabo com eles com um sopro?. Mefist?feles olhava para todos com o orgulho inflado pelo elogio divino, tanto que se distraiu e n?o ouviu o restante do discurso solene de Deus, at? que escutou outra vez o seu nome. ?Vou mandar dois dos meus anjos queridos para viver com eles, conhec?-los e controlar seus excessos, Ariel e Mefist?feles?.

Para desespero e desagrado da maioria dos anjos, Deus criou os seres vivos na terra, como estava definido no projeto de Gabriel e mandou os seus representantes se misturarem no meio dos humanos, ser escolhido para ganhar o poder do pensamento e a ang?stia da d?vida, al?m da faculdade da reprodu??o. Milh?es de anos se passaram e Deus observava com curiosidade e alegre surpresa os movimentos dos humanos e suas descobertas, e via com apreens?o a velocidade como se reproduziam e cresciam, mas tamb?m as insensatas e incompreens?veis guerras e disputas entre grupos e na??es. Deus vivia num estado de permanente tens?o com as atitudes e os inventos da sua cria??o. Era surpresa e adrenalina demais e Ele j? estava muito inquieto.

Certo dia, Deus mandou chamar Ariel e Mefist?feles para uma conversa. Queria saber o que eles estavam fazendo para moderar aquela desvairada e descontrolada movimenta??o dos humanos com tanta desgra?a e destrui??o. Ariel falou primeiro. N?o conseguia articular bem as palavras para ser compreendido pelo Todo Poderoso e tinha um olhar obliquo e difuso como se carregasse uma culpa ou vergonha escondida. Mefist?feles, ao contr?rio, falou claro e direto: ?Senhor, a sua criatura ? movida pelo acaso e contida pela necessidade, impulsionada pelo desejo e interditada pelo medo. Mas, meu Deus, eu os invejo. Quero sua permiss?o para voltar e seu poder para me conferir a mesma deliciosa incerteza que anima a vida?.

Deus percebeu o que tinha ocorrido com seus anjos prediletos na conviv?ncia com os humanos que tinham ajudado a criar. E estava disposto a conceder o desejo de Mefist?feles que parecia tamb?m impl?cito na vergonha de Ariel. Mas fez uma dura advert?ncia: ?Meus queridos anjos, eu n?o gostaria de perd?-los, mas sinto o quanto desejam esta vida. Tem uma condi??o: a morte. Se viverem como humanos ter?o que morrer um dia?.

Ariel n?o reagiu, mas Mefist?feles falou pelos dois: ?Meu Senhor, a morte ? o maior dom desta tua criatura, que eu recebo com alegria, mais at? do que a reprodu??o, porque, Vos sabeis, a eternidade ? uma carga excessivamente pesada e uma insuport?vel monotonia?.

4 Comments

  1. Adorei!

  2. Irado, meu caro Sérgio. Leve, engraçado, filosófico como de vez em quando uma revista séria deve ser.
    Estou matutando sobre o motivo da vergonha de Ariel. Será?

  3. IMPRESSIONANTE!! Leitura que nos iça dos mitos criados pelas religiões e de suas doutrinas. Apresenta uma divindade ávida pelo novo, pela descoberta e uma humanidade como projeto, experimento e não como criação definitiva. Adorei a perspicácia e o humor elegante!! Parabéns pelo texto!!

    • Muito instigante, criativo e carregado de história mítica. Na conclusão lembra o genial O Homem Bicentenário, de Asimov, quando o robô eterno aceita a condição de morrer para poder receber reconhecimento como humano. Mas este texto do Sérgio trás a dimensão muito interessante da relação entre neçessidade, acaso, desejo e medo como a receita emotiva do comportamento de nossa espécie. Cristovam

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