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Penso, logo duvido.

Cotidiano do absurdo na Paulicéia – Helga Hoffmann

Helga Hoffmann

Jafar Panahi - Diretor iraniano de Taxi Teerã (2015).

Jafar Panahi – Diretor iraniano de Taxi Teerã (2015).

O passageiro entrou, queria ir para o aeroporto. “Eu levo o senhor, mas não posso conversar”, disse o taxista. O passageiro olhou espantado: “Como assim?”

Não é ficção. Aconteceu esta semana, em São Paulo.

Até pouco tempo atrás, taxista em Sampa puxava conversa. Já aconteceu várias vezes de taxista me perguntar de imediato “quer que ligue o arrr”? imitando o R de fundo de garganta dos cariocas. E depois, dando risada, explicar: carioca quando entra no taxi logo pede “liga o arrrr”. Pudera!  São Paulo esse verão tem tido temperaturas quase cariocas. E a mim sobra um tiquinho do sotaque dos meus 14 anos de Rio de Janeiro.

Hoje o taxista era velho conhecido, sabia que não sou fã de ar condicionado, pois já me levou nesse trajeto muitas vezes. Às vezes vou a pé.  Andando firme, levo 30 a 40 minutos, até a fisioterapia e o Pilates no Instituto Vita.  Hoje ia lá perto e não queria atrasar, ia andar no parque com meu irmão, e se já fosse ao seu encontro andando, no total seria andar demais.

Identificar o taxista não posso, nem o ponto dele.  Não identificaria em hipótese alguma. Pois em São Paulo os taxistas agora estão proibidos de conversar com seus passageiros.  E esse relatou o que aconteceu com ele hoje e ontem. Verdade que eu é que puxei assunto, pois o conhecia. Também converso com desconhecidos.  Mas os desconhecidos agora andam com medo, proibidos de falar de política e de futebol enquanto corre o taxímetro. Estão simplesmente proibidos de falar. E vai saber se não sou um fiscal da Prefeitura à paisana?  São poucos os taxistas que parecem contentes com as novas normas, talvez com a esperança de que com um comportamento que agrade o Prefeito consigam dele a eliminação dos taxis do Uber.

Foi ontem, a história da corrida muda para o aeroporto de Guarulhos. Hoje, o fiscal da Prefeitura tinha ido ao ponto de taxi, fiscalizar o cumprimento das normas. “Essa camisa não pode”, tinha dito o fiscal. Era uma camisa branca, impecável, com umas listinhas bem finas em azul.  “Esse jeans não pode, tem que ser jeans de corte social”. – “E o senhor me explica o que é jeans de corte social?” –“Não pode ter tanto bolso.”  – “Mas o seu taxi está OK.” – “Como assim? Comprei semana passada! Meu taxi está com uma semana de uso!” O fiscal abriu o porta-mala. Encontrou uma garrafa de água mineral: “Isso não pode!” – “Mas então o senhor vai fiscalizar o Uber, eles lá têm até suco para oferecer ao passageiro.”  – “Mas lá é em isopor, pode.”

Ultimamente, os taxistas aqui por esses lados parecem recém-saídos do banho e com roupa que chegou da lavanderia naquele minuto.  Outro dia peguei um (desconhecido) que estava com uma camisa de linho branco, de manga comprida, daquelas que vendem na Osklen por 600 reais pelo menos, imaculada. Não que eu olhasse muito detalhadamente para a roupa de quem está dirigindo – ao menos até agora.  Prestava mais atenção na maneira de dirigir.  Comecei a reparar e a perguntar de indumentária desde que a Prefeitura começou a mandar no “look” dos taxistas. O Departamento de Transporte Público (DTP) da Prefeitura Municipal de São Paulo publicou uma nova portaria que anda provocando mais essa polêmica no transporte paulistano.

Segundo as determinações recebidas pelos taxistas, é a Portaria no. 183/2015 DTP.GAB, de 17 de dezembro de 2015, 19 páginas inclusive os três anexos, que baixei da Internet. Tratam de tudo e qualquer coisa, inclusive mecânica e regras de trânsito, que tenha alguma relação com dirigir um taxi. Os anexos detalham a grade curricular obrigatória dos cursos complementares que os taxistas são obrigados a fazer. No Anexo II é que estão os detalhes sobre o que o taxista não pode falar e o que deve falar. Vou destacar só uns pedacinhos, ipsis litteris:

“IV. Policiar-se no uso de palavras: a) não proferir palavrões; b)Jamais atacar a honra de qualquer pessoa; c) Não fazer sarcasmo ou piadas constrangedoras; d) Respeitar-se a si mesmo e ao passageiro.”

“VI. Evitar polêmicas ou situações que provoquem estresse no passageiro em virtude de: a) Paixões esportivas; b) Convicções partidárias; c) Fé e cultos religiosos; d)Opções de comportamento pessoal; d) Não tratar de problemas particulares, nem da categoria.”

Reparei que na Pátria Educadora não se fala palavrão: palavrão se profere. E, claro, o Prefeito acaba de negar que esteja censurando taxistas.

O Anexo III é que trata da roupa, e é mais inacreditável ainda. “Constitui traje adequado… Traje social.” O que é isso? A portaria acha que esclarece o que é: “a. Camisa social; b)Calça social: c) Sapato social; d)Cinto social; e) Usar blazer ou caban, nos dias de clima frio; f)Traje feminino compatível (tailleur).”

E vai por aí afora, por duas páginas. Camisa com estampas não pode, o cinto tem que ser bem conservado, jeans só pode de “corte social liso”.

Parece que essa parte sobre roupa e conversa, por sua ambiguidade e subjetividade, vinha causando tanta confusão e mal-entendidos que www.avozdotaxista.com.br decidiu publicar uma “síntese” (sic) da Portaria, “para esclarecer as dúvidas dos taxistas sobre vestuário e comportamento no nosso local do trabalho”. A “síntese”, que trata só do tema roupa e conversa permitida dos taxistas, tem 10 páginas, e deixa qualquer um tão confuso quanto antes. Coitados dos taxistas que, a rigor, para tentar descobrir se o fiscal está certo ou se está apenas manifestando seus próprios preconceitos e mal-entendidos, terão que ler 19 páginas de letrinha. Ou contratar um advogado.

Pois fui contar essa conversa do taxista para alguém que não acompanhou as últimas providências do Prefeito desta metrópole. Ganhei um sorrisinho de quem achou que eu estava contando um conto, inventando encrenca, só para fazer oposição. Ou inventando uma história para falar contra a burocracia e o estado-babá.

Será que o nosso Prefeito viu o filme Taxi Teerã? Ali, Jafar Panahi, diretor proibido de fazer filmes no Irã, decide virar taxista, e faz um filme em que é diretor, escritor do roteiro e ator principal ao mesmo tempo. Em um dia de trabalho em Teerã, acontecem as coisas mais divertidas, à medida que diferentes pessoas tomam o taxi: duas senhoras levam uns peixinhos em um aquário que precisam soltar em alguma fonte, devido a misteriosas crenças, e se desesperam quando uma freada brusca derrama a água toda e os peixinhos acabam no banco; uma esposa chorando leva o marido desmaiado ao hospital, mais preocupada com o testamento; vendedor clandestino de DVDs vai para endereços que compram suas obras primas do cinema pirateadas, uma advogada conhecida do taxista entra contando dos seus processos em que defende vítimas da ditadura e das autoridades religiosas, e a parte mais divertida e irônica é o diálogo com a sobrinha adolescente, que foi buscar na escola e conta do documentário que deve fazer, mas obedecendo dezenas de regras e proibições.

O taxi de Jafar Pahani é um espaço de liberdade, onde o diálogo de crítica política ocorre, um espaço que o governo autoritário não alcança e onde as vozes não podem ser silenciadas. Não consigo imaginar em que mundo se encontrava o Prefeito de São Paulo quando deixou seus encarregados do transporte público virar babá de taxistas e passageiros.

Eu quero que esse prefeito perca a eleição, esse ano. Retrucou meu taxista: que perca de muito!

*

2 Comments

  1. João Rego, v. escolheu a ilustração ideal. Pela regulamentação do DTP paulistano, não sei não se a roupa do taxista Jafar Pahani, simpático e da maior eficiência na confusão do trânsito em Teerã, seria permitida para dirigir taxi em Sampa.

  2. Helga,

    Moro em São Paulo desde 1981. Em 1996 achei que o carro me estressava além da medida. Se quisesse um para viajar, alugaria por alguns dias. Mas não guiaria mais na cidade. Melhor negócio, pois, era alugar a vaga da garagem a bom preço e com ela pagar o condomínio. O táxi passou a integrar minha vida e me tornei bom amigo de muitos deles. Do falecido Juruna; do paraibano Inácio; do também paraibano Atenildo e de outros tantos. A caminho do aeroporto e em deslocamentos menores, ensinei e aprendi. Dei boas risadas; ouvi e disse irreverências e, por dezenas de vezes, a conversa com o taxista foi o preâmbulo de reuniões sobre política e costumes. Fora de São Paulo há umas semanas, li e reli seu artigo com a sensação de que você fazia uma rara incursão pela ficção. Inacreditável. Ridículo. Kafkiano. Regressivo. Patético. Vi o filme de Jafar Pahani e me diverti imensamente. Nem na Coreia do Norte deve existir regulamentação tão inócua. Quer dizer que isso é para refrear o Uber? É o “trade-off”? Ou seja, se vira as costas para a modernidade – quase irrefreável – em troca desse engessamento? Justo para nós, integrantes da vertente civilizacional latina onde diálogo e expansividade são o ar que respiramos? Daqui do litoral pernambucano, te digo: você não quer que eu volte, Helga. Isso me surpreendeu mais do que sítios e triplex. Juro.

    FD

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