Brasília é um mundo à parte e bem distante do Brasil. A cena constrangedora da sessão de ontem da Câmara de Deputados, com cínicos e desconectados discursos e declarações de votos a favor ou contra o presidente da República, confirma a distância astronômica entre o universo político e jurídico de Brasília e os interesses e preocupações dos brasileiros. A maioria dos parlamentares, governistas ou opositores, estão se lixando para o Brasil real. O mundo deles é outro, e eles não percebem que podem desabar junto com o país que ajudam a afundar. Mas a sessão de ontem na Câmara foi apenas o paroxismo do mundo artificial de Brasília e do seu descolamento da realidade social e econômica do Brasil. Quase no mesmo dia, a corporação do Ministério Público e dos juízes federais se mobilizava pelo aumento dos seus já elevados salários, com total desprezo pelas condições calamitosas das finanças públicas do Brasil, que já comprometem parte relevante dos investimentos e dos serviços públicos. Enquanto isso, milhões de brasileiros, vivendo a sua batalha diária da sobrevivência, do desemprego e da violência urbana, do risco empresarial com a instabilidade e o enorme “Custo Brasil”, ignoraram solenemente o espetáculo circense da Câmara de Deputados. Desesperançados das instituições, os brasileiros não se mobilizaram sequer para protestar, reclamar e manifestar indignação pelo isolamento de Brasília. Michel Temer conseguiu maioria confortável no Congresso para continuar governando, embora conte com alta rejeição da população. Tudo indica agora que Temer vai completar o mandato e, segundo seu discurso, retomar o projeto de reforma da Previdência, que explica parte da rejeição ao seu governo, por medo de mudanças e desconfiança legítima dos políticos. Se o fizer e conseguir aprovar esta reforma, Temer terá recuperado, em parte, a relação de Brasília com o Brasil real, pela importância de um novo sistema previdenciário para tirar o Brasil do atoleiro.
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Bom editorial. Crítico, deixando uma janelinha (fresta?) aberta para a esperança. O momento político está tão difícil que toda quinta fico pensando nos meus queridos editores da “Será?”: como eles vão se sair dessa? Não queria estar na pele deles, e ter que decidir sobre um editorial cada madrugada de sexta-feira.
Apenas discordo de confundir o Congresso Nacional com Brasilia. Somos melhores do que “aquilo”.