
Teresa Sales (in memoriam)
28 de maio, data do aniversário de Teresa Sales.
Um dos desafios da nossa existência, quando avançamos pelos anos, é conviver com a dor da perda daqueles amigos e parentes que esbarraram no muro da morte, ficando para trás nesse complexo e indecifrável carrossel do fluxo da vida.
Quero falar de Teresa Sales, nossa amiga que, junto comigo, Sérgio, Cláudio e Luciano, fundou a Revista Será?
Socióloga, com um currículo invejável (MIT, Harvard, UNICAMP e Cebrap), após viver vários ciclos de vida nos Estados Unidos e em São Paulo, instalou-se em seu apartamento em Boa Viagem. Foi nessa fase da sua vida que a conheci, um pouco antes da criação da Revista Será?, em nossos encontros periódicos, sempre organizados por Sérgio e Homero para conversas etílico-literárias — sem pauta ou compromisso, apenas pelo prazer de pensar e trocar ideias, bebendo e comendo, como os gregos faziam em seus banquetes.
Foi quando Teresa nos arrastou para o seu apartamento, que sempre identifiquei como o útero onde foi gestada a Revista Será?, projeto que deu sentido às inquietações intelectuais de cada um de nós e que hoje, após 14 anos de atividades semanais ininterruptas, é um veio que acolhe, embala e difunde, pelas veias abertas das redes sociais, conteúdo sobre as questões relevantes da nossa contemporaneidade — com um leve toque de arte nas minhas ilustrações e humor nas charges de Elson.
Tudo começou em nossos encontros na casa de Teresa. Ela, sem saber que estava ajudando a urdir um longevo projeto editorial, apenas fazia o que fazia de melhor: receber amigos em casa. E que recepção! Criada no interior de Pernambuco, lá em Garanhuns, fazia do ato de receber os amigos um estado da arte; uma vez era a cioba de Dinha, sua cozinheira; outra, um bode marinado no vinho, para finalizar com o famoso e viciante bolo de macaxeira acompanhado de um cafezinho coado — e muita conversa.
Com essa arte de criar encontros, Teresa fazia algo raro e valioso: unia amigos em uma atmosfera cheia de nostalgia — todos viveram, quando jovens, os anos de chumbo da Ditadura Militar de 1964 —, mas também de sonhos e projetos. Tudo com muita seriedade e humor, pois, sem este último, tudo fica muito chato… tipo a militância doutrinária, tão comum em outras esferas políticas e religiosas.
Ela, aos quase oitenta anos, sorvia a vida com intensidade. Estava escrevendo um romance cujo personagem vivia na África? Ia para Cabo Verde absorver a cultura local para depois passá-la à sua escrita. Estava mais meditativa? Autoexilava-se em uma pousada nas serras de Gravatá. A música, uma de suas paixões, pedia sua atenção? E lá ia ela pesquisar sobre Canhoto da Paraíba e parir mais um livro sobre a história do choro pernambucano.
Era intensa e incansável até que… a vida, assim como será com todos nós, começou a dar sinais de que os capítulos finais estavam chegando. Tinha 80 anos quando, de forma inimaginável e extremamente corajosa, lançou-se no ar para sair da sua existência. Como personagem da vida, tomou as rédeas do destino e, por instantes, fundiu-se ao autor absoluto deste, escrevendo seu capítulo final.
Algum pensador — creio que foi Gramsci — afirmou que uma das formas possíveis de imortalidade é por meio daquilo que escrevemos ou criamos, pois perenizamos nossos pensamentos, nossa arte ou nossa escrita para as próximas gerações. Esqueceu-se ele de falar dos afetos com os quais enlaçamos aqueles que amamos e que fizeram parte do nosso núcleo afetivo. Estes, mesmo findada nossa existência, permanecem vivos, espalhados em forma de lembrança naqueles que seguem vivendo.
Ah! O bolo de macaxeira!
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