
Alberto Dinnes
Na noite de abertura da mostra de filmes de Ugo Giorgetti, no Espaço Petrobras de Cinema, foi exibido em pré-estreia o documentário Alberto Dines – Vínculos de Liberdade. A sessão reuniu jornalistas, intelectuais, acadêmicos e personagens da história recente da imprensa brasileira, muitos deles presentes no próprio filme. O ambiente tinha algo de reencontro geracional. Mais do que a homenagem a um grande jornalista, percebia-se ali a evocação de um período em que ainda se acreditava no jornalismo como missão pública, exercício crítico e compromisso democrático.
Não por acaso, Dines ajudou a moldar algumas das experiências mais sofisticadas do jornalismo brasileiro durante os anos da ditadura militar, transformando a própria linguagem dos jornais em forma de resistência à censura e, mais tarde, convertendo a crítica da imprensa em tema permanente da vida pública nacional.
O documentário dirigido por Giorgetti acerta justamente ao recuperar um ser humano inquieto, obsessivo e profundamente comprometido com a ideia de independência intelectual. Talvez esteja aí seu maior mérito. Não é apenas uma biografia de jornalista. É também um filme sobre uma certa concepção de imprensa e de vida cultural que parece hoje progressivamente mais rara.
Conheci Dines quando presidi a Imprensa Oficial do Estado de São Paulo. Naquele período, trabalhávamos na publicação da edição fac-similar do Correio Braziliense, projeto ao qual ele se dedicava com entusiasmo contagiante. Impressionava sua relação visceral com documentos, jornais antigos e correspondências. Dines enxergava na imprensa não apenas o registro do cotidiano, mas parte da própria formação do país.
Seu fascínio por Hipólito José da Costa transcendia o interesse acadêmico. Via no fundador do Correio Braziliense, o primeiro jornal a circular clandestinamente no Brasil a partir de 1808, uma espécie de ancestral do jornalismo crítico brasileiro: cosmopolita, ilustrado, defensor da liberdade de imprensa e da esfera pública. A publicação da coleção fac-similar representava, para ele, uma forma de recolocar a memória da imprensa no centro da reflexão sobre o Brasil.
Essa dimensão aparece de maneira muito forte no documentário. O filme mostra um Dines permanentemente interessado na relação entre imprensa, poder e democracia. Sua passagem pelo Jornal do Brasil ocupa parte importante da narrativa. E não por acaso. Sob sua direção editorial, o JB dos anos 1960 e início dos anos 1970 tornou-se talvez a experiência jornalística mais sofisticada da história brasileira. O jornal era simultaneamente veículo de informação, centro intelectual e referência estética.
Ao abordar os anos da ditadura militar, o documentário ganha densidade especial. Reconstitui o ambiente de censura instaurado após o AI-5 e relembra o episódio emblemático da cobertura do golpe no Chile e da morte de Salvador Allende, em 1973. Impedido de tratar o tema de forma convencional, o Jornal do Brasil reagiu com uma primeira página sem manchetes, transformando o silêncio gráfico em denúncia política. A solução entraria para a história do jornalismo brasileiro.
Pouco tempo depois, Dines seria afastado do jornal. O filme trata esse episódio menos como uma simples demissão e mais como expressão do conflito entre independência, interesses empresariais e autoritarismo político. Essa tensão o acompanharia em boa parte de sua trajetória.
A ida para a Columbia University também ocupa lugar importante na narrativa. Dines chega aos Estados Unidos em um momento particular no jornalismo americano, marcado pelo impacto do caso Watergate e pela afirmação do jornalismo investigativo como força institucional. A experiência ampliaria ainda mais sua percepção sobre o papel da imprensa.
Mais tarde, sua passagem pela Folha de S.Paulo revelaria novas tensões entre independência intelectual e limites editoriais. Foi ali que Dines criou o “Jornal dos Jornais”, experiência pioneira de crítica sistemática da imprensa brasileira e embrião do que mais tarde seria o Observatório da Imprensa. O filme também aproxima sua trajetória da de Cláudio Abramo, outro personagem importante na modernização da Folha e igualmente afastado do jornal em meio aos conflitos políticos e editoriais que marcaram a lenta e contraditória abertura do regime militar.
Mas talvez a parte mais rica do filme esteja na aproximação de Dines com a universidade e com a reflexão sistemática sobre o jornalismo. Em parceria com Carlos Vogt, ajudou a criar o Labjor, experiência pioneira de aproximação entre universidade, comunicação e divulgação científica. Depois viriam o Projor e o Observatório da Imprensa, talvez sua contribuição mais duradoura à vida cultural brasileira.
Hoje parece natural que a imprensa seja criticada, observada e analisada publicamente. Nos anos 1990, porém, isso ainda era relativamente raro no Brasil. O Observatório ajudou a introduzir uma cultura de reflexão crítica sobre ética jornalística, cobertura da mídia e responsabilidade democrática da imprensa. Dines compreendeu cedo que a democracia exigia também mecanismos de escrutínio da própria mídia.
O documentário também revela algo importante: Dines não formou apenas jornalistas. Formou ambientes intelectuais. Em torno dele circularam nomes como Juca Kfouri, Eugênio Bucci, Paulo Markun, Caio Túlio Costa, José Trajano, Fernando Gabeira, Mauro Malin e Luiz Egypto, entre muitos outros.
Há ainda outro aspecto tocante no filme: a presença de Norma Couri. Ela não aparece apenas como companheira afetiva de Dines, mas como parceira intelectual fundamental de sua trajetória e guardiã de sua memória documental. Em determinado momento, ao comentar os arquivos acumulados ao longo da vida, ela diz: “Arquivava tudo”. A frase ajuda a compreender muito da própria atmosfera do documentário. Porque Dines pertencia a uma geração que acreditava profundamente no valor da memória, dos documentos, dos arquivos e da história.
Não por acaso, Giorgetti incorpora ao documentário pequenas cenas de clássicos do cinema sobre jornalismo. Em uma das sequências, exibida justamente no contexto das demissões de Dines, um rapaz entra em uma redação lotada, faz um estalo com a boca e passa o dedo pela garganta, como quem anuncia cortes sumários. A plateia gargalhou. Mas a cena também ajuda a revelar um dos méritos do filme: evitar qualquer romantização das grandes redações. O jornalismo aparece ali como ambiente simultaneamente fascinante, competitivo e cruel, marcado pelo enorme poder dos proprietários dos jornais e pela permanente instabilidade da vida profissional.
Talvez exista também uma melancolia discreta ao longo de todo o filme. Não apenas pela ausência física de Dines, mas porque o documentário parece dialogar com um tempo em que o jornalismo ocupava lugar central na vida cultural e política do país. Em uma era de fragmentação da esfera pública, hiperpolarização e aceleração digital, a trajetória de Dines adquire um sentido quase pedagógico.
Mas Giorgetti evita qualquer nostalgia simplificadora. Seu filme não propõe retorno idealizado ao passado. Mostra antes um intelectual permanentemente inquieto, crítico inclusive da própria imprensa, avesso a conformismos e movido por uma curiosidade intelectual rara.
“Vínculos de Liberdade” acaba sendo, afinal, um título particularmente feliz. Porque os vínculos de Alberto Dines nunca foram vínculos de acomodação. Eram vínculos com a memória, com a crítica, com a democracia e com a liberdade intelectual. Exatamente o que o Brasil contemporâneo mais esteja necessitando.
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Hubert Alquéres é presidente da Academia Paulista de Educação e vice-presidente da Câmara Brasileira do Livro.
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