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Penso, logo existo.

O voo TK 1828 ou digressões sobre um tormento – Fernando Dourado

Fernando Dourado

Vistas da janela, as luzes da torre Eiffel tremeluziram à distância por menos de um minuto até que as nuvens baixas reduziram a paisagem a enormes chumaços de algodão cinzento, que as asas do avião iam laminando. Os faróis varavam nervosos a massa plúmbea. Os solavancos da turbulência e os rangidos dos spoilers eram um alívio momentâneo para os duzentos passageiros silenciosos, acomodados no voo TK 1828, a caminho de Istambul, na noite de 11 de dezembro de 2018. Por um momento, as crianças pararam de chorar e os mais nervosos permaneciam de olhos fechados, com os dedos entrelaçados, à espera de que, quando chegássemos à altitude inicial de cruzeiro, a cabine se mantivesse naquele silêncio seletivo, poupado da voz humana. Sentados de frente para os passageiros, os comissários forçavam um sorriso que não convencia, e mal disfarçavam o desconforto com a situação que lhes cabia administrar. No fundo do avião, entre as filas 40 e 45, ninguém podia ocupar os assentos. Na última fileira, porém, as 4 poltronas centrais estavam ocupadas. E na penúltima, dois homens com o uniforme da polícia francesa, garantiam que ninguém transpusesse os limites de proteção que haviam fixado para a pequena comitiva. Mas foi em vão. Pois mal o comandante nivelou o avião, um urro voltou a gelar o sangue de todos a bordo. E um vagido conhecido, ecoou o cantochão suplicante: I don´t want to go. Alah, help me, please. I don´t want to die. Então, as crianças desataram a chorar e os adultos perceberam que três horas infernais os aguardavam. Mas o que era aquele sofrimento de todos nós diante do infortúnio que aguardava aquele infeliz? Pois, escoltado por agentes policiais turcos e franceses, um homem que para muitos era só uma voz sem face, estava sendo extraditado para a Turquia. E, em nome de Deus, implorava para não ir ao encontro da morte certa.      

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No último dia 20 de novembro, a despeito de uma espera prolongada no aeroporto Atatürk, de Istambul, embarquei no voo TK 1821, da Turkish Airlines, a caminho de Paris. O humor não era dos melhores, o que se explicava pela noite que passara em claro, matutando sobre as alegações frágeis que a justiça japonesa fazia contra Carlos Ghosn, um personagem cuja trajetória acompanho com entusiasmo há 20 anos, até por saber por experiência o quão é difícil gerir um empreendimento de vulto no Japão. Bem a propósito, porém, quando vi a chegada de uns trinta adolescentes que, maronitas como Ghosn, desembarcavam de Beirute a caminho da Cidade-Luz, distraí-me observando-lhes a energia e o entusiasmo com o que os esperava. Intercalando as sentenças em árabe com palavras em francês, eram moças e rapazes divertidos, como sabem ser os filhos de uma elite bem-sucedida, desta que ainda associa dinheiro a cultura e vive o glamour verdadeiro, como praticamente já não se cultiva no mundo, sequer entre os milionários. A ruidosa trupe estava confiada a três adultos que a contava e recontava a cada meia hora. A ponto tal que me senti obrigado a lembrar uma linda preceptora de inconfundíveis sobrancelhas fenícias que relaxasse, pois não havia como uma criança pudesse sair para um passeio a 10 mil metros de altura. Si il y a en a un qui va se balader, Mademoiselle, je vous garantis que ça y est pour nous tous. Era alguma coisa como: se alguém conseguir sair daqui, significa que estamos todos fritos. Disse-o na esperança, é claro, que ela entendesse que eu aduzia à descompressão súbita da cabine e para que se apercebesse de minha existência. Se captou, não demonstrou, mas dois rapazes sorriram da piada e assim conversamos por alguns minutos sobre futebol, antes que eu retomasse a leitura de “Bratislava 68, été brûlant”, de Viliam Klimácek.

Quando estávamos para pousar no aeroporto Charles de Gaulle, nevava na pista e os mais desinibidos entre eles, todos de olhos fixos no telão que mostrava a pista branca sobre a qual estávamos prontos para deslizar, cederam à emoção do momento e puxaram um coro afinado ao entoar o refrão de um dos maiores sucessos do franco-americano Joe Dassin, que embalou o namoro dos pais deles, senão o dos avós: Aux Champs-Elysées, aux Champs-Elysées, Au soleil, sous la pluie, à midi, à minuit, Il y a tout ce que vous voulez aux Champs-Elysées. Que afortunados. Quando tinha a idade deles, a única excursão que meu colégio patrocinara fora a de um dia em Goiana, quando visitamos uma fábrica de papel ondulado da Klabin e uma linda igreja no centro da cidade, conduzidos por um historiador chamado Luiz, um homem sério e ilustrado, que me nos deu uma das primeiras demonstrações concretas de que uma atração, um monumento, um muro de arrimo, até um paralelepípedo, enfim, que por trás de tudo há uma história que pode ser contada e merece ser ouvida. Oxalá a estada de meus jovens amigos em Paris tivesse o mesmo sucesso. Que entre eles, ali rolassem os primeiros flertes nas alamedas do Luxemburgo, longe dos olhares severos das facções que loteiam Beirute, lá pelas bandas de Achrafiyeh, entre Gemmaizeh e o hospital, enclave dos maronitas ricos como eles, o que vale dizer da gente mais charmosa, perspicaz e hospitaleira do Oriente-Médio. Passei pela imigração, arrastei minha malinha até a estação de trem da SNCF, comprei os jornais que acabavam de sair e rumei para Estrasburgo, distante pouco mais de um par de horas do aeroporto. Cochilei no trem e só despertei quando estávamos na Lorraine e a paisagem estava seca. Na cabeça, os acordes: Aux Champs-Elysées, aux Champs-Elysées, Au soleil, sous la pluie, à midi, à minuit, Il y a tout ce que vous voulez aux Champs-Elysées.

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Para cada voo de ida, em princípio corresponde um voo de volta, muitas vezes pelo mesmo trajeto. A aviação parte do princípio de que promovendo tarifas ponto a ponto e forçando os passageiros a regressar pela mesma rota da ida, evita o descasamento dos voos. Daí que em alguns países, o preço da passagem de ida chega a ser superior ao de ida-e-volta, numa dessas equações inescrutáveis que os leigos morrerão sem entender. No caso em referência, em contrapartida ao alegre voo de ida para a França, coube-me voltar vinte dias mais tarde no TK 1828 que decolaria do aeroporto de Roissy Charles de Gaulle, às 18:35. Como há muito tempo já não confio na presteza dos serviços da SNCF, a companhia ferroviária gaulesa, optei por sair de Estrasburgo por volta do meio-dia para ter margem de manobra contra greves, a irrupção de Coletes Amarelos, nevascas, suicídios nos trilhos, vandalismo de toda ordem, protestos ou evacuações devidas a bagagens abandonadas. Se chegasse ao aeroporto um pouco mais cedo, não era grave. O espaço do lounge da Star Alliance estaria à minha espera com boa bebida e, eventualmente, boa companhia posto que é a mesmo salão usado pela Latam, o que garante encontros com conhecidos de São Paulo. Ademais, cada dia os aeroportos se tornam local de trabalho, desde que se tenha acesso a espaços preservados e silenciosos, poupados da hiperatividade das crianças. Mesmo assim, quando algum casal chega com uma dupla de meninos travessos, os pais sabem o quanto todos ali prezam o silêncio, e terão a delicadeza de deixar o pimpolho aos cuidados de uma geringonça eletrônica para que se distraia. E foi assim que aconteceu no último 11 de dezembro. Duas horas antes da decolagem, lá estava eu dedilhando o computador, tomando Champagne e admirando os maneirismos de um trio de japonesas, cujos maridos podiam perfeitamente ser alguns dos algozes de Carlos Ghosn, lá na prisão de Kosuge.

Chegada a hora do embarque preferencial – a que tenho direito por uma combinação de fatores, dos quais o principal é por conta de um cartão que abre portas junto ao pool da Aliança -, fui dos primeiros a entrar no Airbus largo como uma baleia. Contrariamente aos que embarcaram comigo, que, na sua maioria, viraram à esquerda para ocupar seus assentos na classe executiva, eu embiquei para a direita, rumo à fila 25, na classe econômica, onde sentaria ao corredor, pagando uma tarifa mais compatível com meu orçamento de errante inveterado. Longe de ter a categoria que costuma alardear em vistosos painéis espalhados em aeroportos de todo o mundo, a tripulação de cabine da Turkish Airlines é relativamente simplória nos modos, na maneira de servir os passageiros e de lidar com seus pedidos. Linguistas quase sempre pouco prendados, há uma profusão de jovens troncudos vindos de olivais da Anatólia. Mas também de moças de alguma beleza e sorriso invariavelmente nervoso, jovens não de todo recuperadas das imprecações que devem ter ouvido em Adana ou Izmir, no dia que disseram aos pais que pretendiam abraçar a vida de aeronauta. Onde já se viu? Quem iria depois querer desposar uma mulher que já passara muitas noites no mesmo hotel que os sedutores comandantes? A verdade é que a Turquia tornara-se um poderoso hub aéreo, emulando o sucesso de empresas do Golfo como a Qatar e a Emirates, que, a despeito de não terem público interno para justificar a escala da aviação de grande alcance, criaram empresas globais como forma de dar alternativas a uma economia voltada tão somente para o petróleo. Ora, sendo a Turquia detentora de bom mercado interno, nenhum país está tão bem posicionado quando ela para atuar no Oriente-Médio, na África Setentrional, nos Bálcãs e na Ásia Central, ademais do Leste da Europa e Rússia. Abençoada pela geografia, não é fortuito que Istambul tenha um pé em cada continente.

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Mas voltemos à história e esqueçamos o rebuscado prolegômeno. Entrei no avião por certo sem a esperança de reencontrar os jovens amigos do liceu maronita que haviam cantado no pouso na Cidade-Luz, no trajeto de ida. Sabia que tinham visitado a França por uma semana, ao passo que eu regressava à Turquia ao cabo de mais de vinte dias, para de lá voar para o Brasil. Que encontrasse pois muita paz na cabine para terminar de ler Só se morre uma vez, da admirável escritora portuguesa Rita Ferro, e que, eventualmente, cochilasse por sobre o mar Egeu o mais que pudesse até como forma de armazenar horas de descanso a que não teria direito na escala. Mas foi então que ouvi os gritos dilacerantes que vinham de alguém central ao pequeno núcleo lá de trás, da última fila. I don´t want to go. Alah, help me, please. I don´t want to die. O que era aquilo? Quem era aquela alma desesperada que dizia que não queria viajar, dando a entender que isso equivaleria a morrer? Um agente francês com o uniforme da Police Nationale se adiantou na direção dos passageiros que começavam a embarcar e, a quem pedisse, dava uma explicação que detestei, a começar pelo sorriso cínico do dito cujo. O senhor sabe, Monsieur, quando se ganha dinheiro muito fácil, algo de grave está ocorrendo, alguém está infringindo a lei. Voilà. Um turco incrédulo balançava a cabeça perto de mim. Perguntei o que ele achava. “Ora, o policial está querendo nos fazer acreditar que o cara é um traficante perigoso. Não me parece. Para que uma força-tarefa conjunta o esteja escoltando e para que a França o libere para a Turquia, país onde as prisões são aterradoras, foi porque o crime dele deve ter sido ideológico, o que vale dizer de terrorismo. Ou, sabe-se lá, talvez também tenha sujado as mãos de sangue. Neste caso, a extradição não pode ser negada”. E voltou a seu jornal.

O avião começou a taxiar lentamente. Sentindo que nos deslocávamos rumo à cabeceira da pista, os gritos se tornaram insuportáveis. Crianças começaram a chorar, alguns adultos ameaçavam desembarcar. Todos pareciam ser unanimemente contra uma viagem de duzentos minutos naquelas condições. Sentindo que seu momento decisivo se aproximava, o homem aumentava os gritos em alguns decibéis. I don´t want to go. Alah, help me, please. I don´t want to die. O policial por quem eu nutrira antipatia imediata, chegava com gestos largos, que se pretendiam apaziguadores. “Quando decolar, ele sossega. A decolagem para esse tipo de gente é o fim da esperança. Enquanto estamos em terra, ele tenta chantagear emocionalmente todos vocês. É inato ao ofício dele”. Curioso era que o pobre diabo falasse inglês, e não turco ou francês. “Parece que é de Bangladesh”, alguém comentou. Mas os gritos continuaram. O sotaque nada prenunciava que fosse de algum lugar do Subcontinente indiano. O mais verossímil, dada a reação desesperada diante da perspectiva de cair nas masmorras de Erdogan, era que fosse curdo. Entre picos e vales, o homem não sossegava. Quando sobrevoávamos Belgrado, na Sérvia, os gritos eram estridentes. Mais pareciam os de um javali lancetado. A voz já não era tão articulada, talvez o tivessem sedado, mas o que faltava em nitidez, sobrava em volume. Chamei o policial francês: “Vocês deviam fretar um avião, teria sido mais humano e mais barato. Vocês bloquearam mais de 30 poltronas, se pensarmos bem. Cobriria largamente o aluguel de um pequeno avião. Não é justo submeter os passageiros a esse tipo de constrangimento. Isso para vocês é rotina, mas para nós é um pesadelo”. Sem graça, ele rebateu: Ah, quant à ça, je n´y peux rien, Monsieur. Je suis un soldat qui reçoit des ordres. Voilà. E sacudiu os ombros com desdém. Não aguentei: “Olhando o senhor, jurava que não escutaria outra resposta”. Ele me deu as costas contrariado.

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Foi na altura de Salônica que percebi certo desanuviamento. Mal sabia que não seria por muito tempo, mas aproveitei para ir a um dos banheiros, cujo acesso eles teriam dificuldade de me recusar, já que nada menos do que quatro toaletes estavam sob a jurisdição do séquito macabro. Uma vez lá dentro, abri uma pequena fresta na porta sanfonada para ver o rapaz de perto. Era imberbe, tinha o cabelo liso e preto, o nariz quebrado de um uzbeque e os olhos rasgados de um cazaque. Mas podia ser checheno ou de algum lugar do Cáucaso. O que isso importava àquela altura? Diante dele, na mesa reclinada, havia uma caixa de suco de maçã. Os punhos não estavam algemados, mas uma espécie de fio denteado de lacre em plástico lhe impedia os movimentos. Naqueles instantes, vi-o encostar a nuca no espaldar com olhos esbugalhados. No segundo seguinte, fechava-os e batia com a ponta do queixo no esterno, como se fizesse um ato de contrição, e então murmurava baixinho o mesmo cantochão que todos já conheciam. Quem era aquele homem? Que delito terrível cometera? Era verdade que na Turquia os presos políticos são colocados deitados sob uma parede, a apenas dois palmos de altura do nariz? Então começamos a descer e, de novo, as asas pareciam laminar as nuvens. Eis que se aproximava o momento da verdade na vida daquele infeliz. Foi nessa hora que pensei nos meninos cantores de Beirute, que àquela altura já estavam de volta ao aconchego de seus lares e aos aromas dos quitutes domésticos. Meninos que sonhavam em casar com uma linda moça chamada Samira, e meninas que suspiravam à menção do nome de Naji. Na mesma rota, que voos contrastantes eu tomara. Mais do que nunca, torço pela felicidade das crianças de quem me senti tão próximo. E torço também para que um milagre livre o apenado da danação. Mas isto dizem-me que é improvável. Out of question, forget it. This one is fucked, my friend, disse o turco ao desafivelar o cinto.

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7 Comments

  1. Extraordinario texto, vivencio as situações, digno de um mestre, Parabéns com louvor,sinto-me nos aeroportos, embarcando, viajando, fico babando com a facilidade de narrar com tanto realismo, receba meu mais profundo respeito e admiração,sempre

    • É bem mais do que mereço, Alexandre. Fico muito honrado com seu comentário e de saber que você percorreu esse angustiante relato de uma ponta a outra com algum prazer.

      Um abraço,

      Fernando

  2. Experiência paradoxal por demais.
    Quando assolados como testemunhas ou protagonistas de algo semelhante, solidifica-se essa estranha sensação que nos abate pela dor alheia.
    Não sei como reages , mas eu, certamente, pensaria nesses estranhos momentos que vivemos tanto de boas quanto de ruins sensações.
    Fica sempre uma nota no ar daquilo que escutamos , vimos e sentimos.
    Fica estagnado em um canto da memória que é implacável em nos atormentar vez ou outra entre uma taça de vinho, um despertar fortuito no meio da noite.
    Aquela permanência esmaecida de um momento.
    Que rememores os jovens em canto melodioso e não o som angustiado de quem perde a esperança!

    • Pois é, Maria Teresa, ainda bem que tiro certo prazer de escrever. Mais do que isso, a escrita me permite lavrar em pedra tanto as coisas boas quanto as ruins. É ao escrever que começo a ver os subtons do ocorrido e a entender o impacto que uma coisa ou outra teve na minha alma. Tem vezes que me vejo como uma esponja itinerante, sempre a absorver a crônica da vida onde quer que ela aconteça. Obrigado pela visita.

      Beijo e feliz Natal.

      Fernando

  3. Fantástico!

  4. Barra pesada mesmo para quem já pegou muita pauleira. Afinal quem era o cara? Deu pra saber?

    • Tenho uns amigos na Turquia de grande influência (pelo menos tinham acesso a canais importantes até uns anos atrás), que não conseguiram me dizer nada de concreto, de convincente. Mas tenho alma de repórter. Se souber de alguma coisa, aviso por aqui.

      Abraço,

      Fernando

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