Circles in a Circle, 1923 by Vasily Kandinsky.

 

Na superfície, bem na superfície. É “análise política” de superfície, baseada nas personalidades, que é o que o país não deveria ter. Pois aqui o perigo nem é o “culto do líder”, mas, pior que isso, a espera de um “salvador da pátria”. Mas como falar de programas de governo em um país que tem 34 partidos políticos registrados? E esses partidos já nasceram como miscelânea, ou viraram com o tempo sacos de gato que misturam tudo, e ninguém a rigor defende programa nem prioridades programáticas. O jeito é examinar, por enquanto, o currículo e o jeitão dos pré-candidatos. Até que apareçam as prioridades de programa e se perceba que o futuro depende de como vota cada um de seus residentes e não existe salvador da pátria. 

Até o PSDB virou amontoado sem disciplina difícil de classificar como “centro”, com sua tensão interna entre filobolsonaristas e filolulistas. Se os seus dois principais pré-candidatos, Eduardo Leite e João Dória, votaram em Bolsonaro em 2018! Pois votar em Bolsonaro, que já era famoso por linguagem chula e que todo mundo viu defendendo o golpe de 64 e o torturador Ustra no Congresso, é pior como expectativa de um mundo melhor do que ter sido ministro de Bolsonaro. Enfim, parece que muita gente agora arrependida de ter votado em Bolsonaro acreditou na época que generais sensatos ao redor do capitão terrorista conseguiriam moderá-lo, em um governo que prometia colocar ordem na economia. Já quem aceitou ser ministro de Bolsonaro ao menos pode explicar que o fez pela esperança de poder fazer algo pelo país, pela pretensão de levar o governo para alguma direção positiva em benefício da população. Mandetta, por exemplo, tem respondido algo assim à pergunta de como foi, por mais de um ano, um ministro do governo Bolsonaro. E os candidatos mais evidentes que tentam enfrentar Bolsonaro e Lula?

Doria é percebido como janota, não adianta negar, pessoalmente não é simpático, mas demonstrou garra e capacidade administrativa quando trabalhou pela vacina. E continua bravamente trabalhando por ela. Não fosse Doria a vacinação no Brasil estaria muito mais atrasada, talvez nem tivesse começado. E, no entanto, Doria não conseguiu deixar isso claro para o país todo, convencer o país do seu trabalho pela vacina, não aproveitou esse sucesso. Mas em geral tem demonstrado capacidade de apresentar resultados em outras áreas da sua administração. Conseguirá a indicação do PSDB? Dizem céticos que vai ganhar quem mostrar que tem mais dinheiro para a campanha. A desvantagem de Dória, se for candidato, é ser paulista, a animosidade contra ele é explorada nessa linha da “arrogância paulista”, em particular na Bahia, onde o governador é desafeto de Dória.

Ciro é impulsivo e estourado, o que não são qualidades que tornam alguém apto a liderar um país que tem uma crise atrás da outra. Verdade que valentões têm eleitores no Brasil, tristemente. Fala-se em arranjar para Ciro um vice sereno que o modere. E Ciro não é “centro”. O Brasil precisa encontrar o “centro”, e não dá para se iludir e achar que Ciro é centro no espectro político e das políticas econômicas. Ninguém vira “centro” simplesmente atacando Lula e o PT. Até agora suas credenciais na área econômica são de defensor do velho nacional-desenvolvimentismo, em interpretação pragmática. Vamos ver quem chama para sua assessoria econômica.

Eduardo Leite é novo na política, inexperiente. Tem sido um governador eficiente, tirou o Rio Grande do Sul da crise orçamentária. Com o seu ar desamparado tem demonstrado esperteza, sobretudo audácia ao pretender dar o salto a Presidente. Acaba de dar uma de demagogo oportunista reduzindo o ICMS para gasolina, sem qualquer consulta com outros governadores. É claro que ter obtido o apoio de Tasso Jereissati é uma façanha. Prévia de partido dificilmente é espetáculo elegante: o que não falta é rasteira. Conseguirá o PSDB se unir em torno de seu candidato depois das prévias de novembro? Mesmo que Leite consiga ser o indicado de seu partido, o PSDB está por demais desunido e enfraquecido, sua chance só existe em aliança com algum outro grande partido. Assim, Doria merece aplausos quando declara sua disposição de abdicar da candidatura em nome de uma união para acabar com a polarização.

Sérgio Moro é uma figura de justiceiro, sua competência é limitada à área jurídica, e deu demonstração demais de falta de cuidado com a letra da lei. Não se sabe o quanto ainda mantém o conjunto de ideias que o levaram a aceitar ser Ministro da Justiça de Bolsonaro e não conseguiu convencer o público em geral de que é um juiz imparcial, ainda que seja um crítico eficaz do Presidente Bolsonaro, se não acabar engavetado o inquérito sobre a interferência de Bolsonaro na PF. Como paladino anticorrupção, até agora tem mantido silêncio sobre a mudança do formato da corrupção no governo Bolsonaro. Difícil enxergá-lo como “centro” em sua visão do mundo, mas tem uma personalidade equilibrada, não costuma dar demonstrações de descontrole verbal.

Luiz Henrique Mandetta não conseguiu carregar para o presente momento a popularidade que angariou nos primeiros meses de 2020, quando aparecia todo dia na tela informando sobre a pandemia e nos ensinando a usar máscara e defendendo máscara caseira, em um momento em que máscaras se esgotaram nas farmácias e não havia EPIs nem para o pessoal de saúde na linha de frente. É o mais ponderado crítico de Bolsonaro, bem factual. Calmo e educado, não usa linguagem agressiva, e talvez por isso não seja popular no atual clima de agressões por todo lado. Escreveu um livro claro, fácil de ler, e contundente sobre a sua experiência como Ministro da Saúde e o cotidiano de quando tinha que lidar com Bolsonaro: “Um paciente chamado Brasil” (que resenhei aqui na “Será?” muito antes de se falar em candidaturas). Aliás, começa com o Forum Mundial em Davos. Mas neste país pouco se lê. Que o digam os testes do PISA.  É preciso ler o livro e acompanhar o desempenho de Mandeta em reuniões de vários grupos para entender por que ele é “centro” mais que qualquer dos nomes lançados até agora. Um exemplo foi sua participação no Roda Viva. É médico, mas tem boa visão de economia e de questões sociais. Eu o ouvi dizer, em uma reunião há alguns meses: “O que me separa de Bolsonaro? 500 mil mortos.” Agora seriam 600 mil. Muito articulado, é o que mais tem trabalhado por alguma unidade no centro democrático contra Bolsonaro, em torno de pontos de um programa mínimo de governo.

Problema de Mandetta é que é do DEM, o DEM jamais apresentou candidato próprio a Presidente e, no momento ainda tem gente demais no DEM que hesita em romper com Bolsonaro. O Presidente do DEM, o baiano ACM Neto, lançou ao ar vários nomes, junto com Mandetta mencionou Rodrigo Pacheco, Simone Tebet e até Ciro Gomes como possibilidades. Importante é que a União Brasil, o grande partido que nasce agora da fusão entre PSL e DEM, mostre a porta da rua para seus bolsonaristas. A ver com que cara fica esse partido, que será o maior do Congresso. Deviam lançar Mandetta também para melhorar o visual, pois é o mais bonito dos précandidatos por aí, excetuada Simone Tebet.

Verdade que está todo dia aparecendo candidato novo. Marina? Pacheco? Lira? Datena? Luiza Trajano? Já passam de uma dúzia. Esta semana lançou-se mais um. Uma manchetinha chamou minha atenção no Estadão deste domingo 10 de outubro: “Terceira via só vai vencer se tiver candidato único”. Eis aí uma verdade, ou ao menos uma pré-condição. A matéria desse título era uma entrevista do cientista político Luiz Felipe d’Avila se lançando candidato, defendendo a unidade do que chamou de 3ª via.

Jeito estranho esse, de trabalhar pela unidade entre uns 13 presidenciáveis apresentando-se como o 14º. Sua justificativa é que “os candidatos da terceira via carecem de narrativa de conexão com as pessoas.” Excluído ele.

Felipe d’Avila andava pelo PSDB, mas ali não abriu caminho, e agora aparece pré-candidato no Novo. Tem vários livros publicados, com títulos interessantes. Li o último, de 2017, “10 Mandamentos: do país que somos para o Brasil que queremos”. Imagino que considere essa uma “narrativa de conexão com as pessoas”. D’Avila é mestre em administração pública pela Harvard Kennedy School e acredito que seja um intelectual importante. Mas Presidente?! Nem que o Centro de Liderança Pública, que ele fundou em 2008, deixasse de ser apartidário. Pois o CLP pelo visto não ensina que imagem importa na política. Ou d’Avila não lançaria sua candidatura com aquele foto no Estadão, em pose na frente duma piscina.

Consta que todos os pré-candidatos gostariam de ter como vice uma mulher. Mas se é só por simbolismo, não vale nada. O Brasil, por enquanto, perdeu o centro. Perdeu o equilíbrio. Cambaleando sem rumo, deveria lembrar Poul Henningsen, o crítico dinamarquês: “o futuro chega automaticamente, o progresso não”.