Discussing the catch- Louis Charles Moeller.

Continuando essas conversas que ocorreram no São João, com cantadores e afins, no livro que estou escrevendo (título da coluna). Encerrando a série.

GERALDO AMÂNCIO PEREIRA, cantador (de Cedro, Ceará). Casa de Lourival Batista, em São José do Egito. Numa noitada cantador conhecido como Pereira estava dando alterações, no recinto, por conta de ter na cabeça mais Pitu do que devia. Foi quando Raimundo, filho mais velho de Louro , virou-se para Geraldo e, brincando com seu nome, disse

–Geraldo, Amanse o Pereira.

OLIVEIRA DE PANELAS, de Panelas (Pernambuco), conhecido como o Pavarotti dos Cantadores . No Bar Savoy, onde Carlos Pena Filho escreveu seu famoso poema Chope

 – Por isso no bar Savoy

O refrão é sempre assim:

São trinta copos de chope,

São trinta homens sentados,

Trezentos desejos presos,

Trinta mil sonhos frustrados.

Cantoria com Otacílio Batista, irmão de Dimas e Lourival ( Louro do Pajeú ), para Manuel Bandeira A voz do Uirapurú . Ali, fui testemunha de uma cena inacreditável, envolvi a bandeja em que os apreciadores depositaram dinheiro para a dupla. E, na hora, mandei esse bilhete

– Meu amigo Oliveira

Pare, sinta, ouça e veja

Otacílio pegou 20

Quero que Deus me proteja

Mas nunca vi cantor

Passe para a própria bandeja.

Pois não há calor da peleja

Como quem bebe aguardente

Comeu o teu queijo frio

Bebeu ou teu café quente

E o que era teu e dele

Ficou foi dele somente.

 * * *

Cantado desde o Século XIX, O que é que me falta fazer mais no início era só mais um mote de décima, em dez sílabas, até ser transformado em gênero pelo cantador Ivanildo Vilanova. Nele, ganha quem inventar mais, mentir mais, se cobrir de mais honrarias; seguindo-se estribilho cantado, em conjunto, pelos dois cantadores. Oliveira, numa cantoria, fez essa maravilha

– Certo dia eu estava em Hollywood

Em Marlboro, ou talvez no Arizona

Foi então quando me encontrei com Madonna

Que me encontrou para um banho de açude.

E se a galega mostrou ter muita saúde

Eu também lhe mostrei ter muito gás

E nos domínios das táticas sensuais

Tudo quanto ela quis, fiz em inglês

E depois quis perguntar em português

O que é que me falta fazer mais.

 

PATATIVA DO ASSARÉ, cantador e cordelista (de Assaré, Ceará) . Sua casa fica a 18 quilômetros da cidade e precisou falar com o prefeito. Só que foi várias vezes à Prefeitura e o homem nunca esteve. Por isso deixou em sua mesa bilhete, como se fosse um cordel, que acabou assim

–Ainda que alguém me diga

O que viu ou ficou falando

Um elefante dançando

No lombo de uma formiga.

Não me causará intriga

Escute com respeito

Não mencione esse sujeito

Muito mais barbaridade

É haver numa cidade

Prefeitura sem prefeito.

Resultado, acabou preso. Na cela, encontrou gaiola com uma patativa – que é ave de belo canto. Então escreveu versos que ganharam o mundo

–Linda vizinha pequena

Temos o mesmo desejo

Sofremos da mesma pena

Embora em sentido oposto.

Meu sofrer e teu penar

Clamam a divina lei

Tu prendes para cantar

E eu preso porque cantei.

PELEJA DO CEGO ADERALDO (de Crato, Ceará) COM ZÉ PRETINHO (de Tucum, Paraná). Assim, como Pelejas , são conhecidos os grandes desafios entre os cantores. A mais famosa delas é do Cego Aderaldo contra Zé Pretinho. Com o desafio já ganho, e para consolidar com brilho, o Cego tripudiou

Cego – Amigo José Pretinho

Eu não sei o que será

De você no fim da luta

Porque o vencedor já está

Quem vai pagar a compra?

Paga cara pagará.

E o outro, sem entender esse trava-língua, piorou sua desgraça

Zé Pretinho – Cego, estou apertado

Que só um pinto no ovo

Estás cantando aprumado

Satisfazendo ao povo

Este seu lema de paca

Por favor cante de novo.

A partir daí, foi um desassossego

Cego – Digo uma e digo dez

Não cante, não tenho bomba

Atualmente não acho

Quem é esse meu mapa astral?

Paca cara pagará

Quem paga cara compra.

Zé P. – Cego, teu peito é de aço

Foi bom ferreiro quem fez

Pensei que o cego não tinha

Não há verso tal rapidez

Cego, se não for massada

Repita a pausa outra vez.

Cego – Arre com tanta pergunta

Este negro capivara

Não há quem cuspe pra cima

Que não lhe cai na cara

Quem vai pagar a compra?

Pagará a paca cara.

Zé P. – Agora cego me ouça

Cantarei a paca já

Tema assim é um borrego

No bico de um carcará

Quem a cara cara compra

Caca caca cacará.

E Zé Pretinho, depois desse desmantelo, colocou sua viola na bandeja como sinal de que conquistou a derrota.

PINTO DO MONTEIRO (de Carnaubinha, distrito de Monteiro, Paraíba) e LOURIVAL BATISTA ( Louro do Pajeú, de São José do Egito, Pernambuco), dois gênios. Os desafios, entre eles, sempre foram empenados. Como esse, em que Louro começou

–Isso foi naquele momento,

Quando você era macho.

Porém, um cabra valente

Passou-lhe o facão por baixo,

Que o sangue correu na perna

E o gato comeu-lhe o cacho.

E Pinto

–Por isso é que me rebaixo

Em cantar com cabra bruta,

Pois quando escrevi notícia

De que eu perdi esse fruto,

Sua mãe chorou de pena

Nunca mais tirou o luto.

* * *

De outra vez, Pinto preparou armadilha para Louro

–Eu saí de Caicó

E fui bater em Tabira

De Tabira prá Penedo

De Penedo a Guarabira

Chegando lá eu comi

O mocotó de traíra

Como traíra é peixe, Pinto jamais poderia ter comido seu mocotó. Então, certo de ter ganho a peleja, Louro respondeu

–Eu já vi muita mentira

De Adão até Aló

De Aló até Isac

De Isac até Jacó

Mas nunca houve quem visse

Traíra com mocotó.

Só para ver, desolado, Pinto cantar

–Pois eu vim de Caicó

E fui até Guarabira

Lá vi uma vaca velha

A quem chamam Traíra

E agora você me diz

Se é verdade ou se é mentira.

 

SANTANA CANTADOR, grande forrozeiro. No Colégio Boa Viagem (Recife), prova sobre Diversidade Cultural, a pergunta era “Concorda que o forró é patrimônio imaterial do Brasil?”. Maria Clara, 10 anos e neta de Santana, respondeu

–Sim, pois se eu responder “não” meu avô me mata e tem um enfarte antes de morrer.

 

ZÉ LIMEIRA (de Teixeira, Paraíba) . Cantador meio doido, andava a pé pelos sertões do Nordeste (por considerar carro coisa do demo), sempre com lenço de seda vermelho no pescoço, óculos escuros (mesmo à noite) e anéis em todos os dedos. Seus versos, com frequência, não faziam sentido. Mais famosos deles, do próprio Limeira (ou talvez de Otacílio Batista, que o terá dado ao outro de presente), os apreciadores sabem de cor (com pequenas variações). O mote era poético, Os anos não trazem mais , para falar do passado, da nostalgia e da saudade. Só que Limeira se perdeu, no meio, e teve que dar uma volta na décima para encontrar no tal mote. Não custa repetir

–O velho Tomé de Souza

Imperador da Bahia

Casou-se e no mesmo dia

Passou o pau na esposa.

Fez que nem uma raposa

Vem na frente e por trás.

Depois na beira do cais

Onde o navio trafega

Comeu o pobre Nobrega

Que os anos não trazem mais.

* * *

É dele o (talvez) mais famoso mote das cantorias

–Morri ou ano passado

Mas esse ano eu não morro.

* * *

O poeta JESSIER QUIRINO até escreveu esses versos, no estilo de Zé Limeira

–Frei Henrique de Coimbra

Sacerdote sem preguiça

Rezou a primeira missa

Na beira de uma cacimba.

Um índio passou-lhe a pimba

Ele num quis aceitar

Hoje vivemos para lamentar

Junto dum pé de jurema

E um bom pescador não tem tema

As profundezas do mar.

–Pedro Álvares de Cabral

Inventor do telefone

Resolveu tocar trombone

Na volta do Zé Leal.

Mas como cava mal

Arrumou dois instrumentos

Aí chegou um sargento

Querendo enrabar os três

Quem tem razão é o freguês

Diz o velho testamento.

* * *

Por falar em Jessier, numa conversa, lembrei Sérgio Buarque de Holanda; que considerava palavra mais bonita, na língua brasileira,

–Libélula.

Perguntei, a ele,

–Compadre Jessier, e qual a mais feia que você conhece?

–Fome.