Presidente

Presidente

Nada mais aconselhável, hoje, que a leitura de um livro que trata das eleições presidenciais no Brasil desde a democratização. Este é o caso de A mão e a luva: o que elege um presidente, de Carlos Alberto Almeida e Tiago Garrido, lançado em 2022 pela Editora Record. Mesmo título do livro de Machado de Assis, de 1874.

O livro analisa todas as eleições presidenciais desde as de 1989, da qual saiu vitorioso Collor de Mello sobrepondo-se a 21 adversários — como Luiz Inácio Lula da Silva, Leonel Brizola, Mario Covas, Paulo Maluf, Guilherme Afif Domingos e Ulysses Guimarães, entre outros —, até as últimas eleições, de 2022, quando Lula se elegeu pela terceira vez.

Os autores do livro, cientistas políticos reconhecidos, partem do princípio de que a opinião pública é a mestra do jogo das eleições presidenciais. Aquela mesma que um dia Pierre Bourdieu disse que não existia.

A opinião pública é definida como “as visões que as pessoas têm sobre temas relacionados ao governo e às questões públicas em contraste com os assuntos privados” (p. 15). Portanto, percepções, crenças e imagens que condicionam a escolha da maioria dos eleitores. Registre-se a ressalva, dos autores, de que a opinião pública é plural, porém com uma corrente majoritária. Com essa premissa epistemológica, de fundo estruturalista, corrente na qual o sujeito quase desaparece, os autores organizam seus dados e análises.

A explicação é óbvia. E pode, assim, ser ilustrada: um presidente com má avaliação tem fortes chances de derrota. Vence seu opositor mais contundente. Foi o caso de Collor de Mello. Esse governador alagoano, pouco conhecido no Brasil, ganhou evidência como “caçador de marajás”. Era o único governador não convidado para as reuniões com o então presidente, José Sarney. Mesmo assim, vinha a Brasília e, no Hotel Nacional, dava entrevista criticando arduamente o presidente. Nas eleições de 1989, pretendia ser o vice de Mario Covas, que o recusou: “Não quero esse rapaz por perto”. Triste e desiludido, diz a lenda que em um jantar com seu cunhado, recebeu a noticia de uma pesquisa de opinião na qual sua imagem era similar a do presidente desejado pela maioria dos brasileiros: jovem, ousado, contra o sistema partidário, opositor a Sarney e combatente da corrupção. Imagem semelhante à que possuía Lula. Por isso, os dois se encontraram no segundo turno de 1989.

Com o desastre de Collor de Mello, as expectativas eram de que o vencedor das eleições de 1994 seria Lula, com o arrependimento dos eleitores de não terem votado nele. Dois fatos, porém, mudaram tudo. O primeiro foi o Plano Real, que teve um sucesso surpreendente e encantou a opinião pública brasileira, martirizada pela inflação. Seu autor, o senador por São Paulo e ministro da Fazenda, Fernando Henrique Cardoso, convencido por seus assessores mais próximos a se candidatar a presidente. Afinal, era o “condutor” do plano que encantava os brasileiros. O segundo fato foi o erro de Lula, conduzido por seus assessores econômicos, de se contrapor ao Plano Real. Antes de a nova moeda entrar em circulação, Lula tinha 41% de intenções de voto e FHC, 17%. Com o sucesso do Real, FHC sobe para 36% e o seu opositor cai para 29%. E o movimento de ascensão de FHC continuou levando-o a vitória, ainda no primeiro turno, com 54% dos votos, enquanto Lula obteve 27%. Aqui, a luva era o fantasma da inflação e a mão, o seu vencedor.

As eleições de 1998 foram marcadas por uma novidade: a possibilidade de reeleição do presidente, aprovada no ano anterior pelo Congresso Nacional. E a luva chamava-se controle da inflação e aumento de consumo dos brasileiros, que o presidente FHC tinha alcançado e ninguém poderia tirar-lhe. Nem mesmo Lula. No início do ano eleitoral, FHC tinha 41% das intenções de voto e Lula, 22%. Crises globais obrigaram o governo a tomar medidas antipopulares, caindo a intenção de voto do presidente para 34%. Mesmo assim o resultado eleitoral foi similar a 1994: FHC – 53,06% e Lula – 32,71%). A luva, desejo de estabilidade econômica, foi ocupada novamente por seu garantidor. Lula não oferecia nenhuma garantia nesse sentido, naquele momento.

E por que Lula ganhou nas eleições de 2002? Qual era o cerne da opinião pública? Os efeitos do Real já haviam se esmaecido. O governo de FHC estava marcado por crises cambiais, racionamento de energia e crescimento do desemprego. O patamar de aprovação de seu segundo mandato variou, com em torno de 25%. Havia um cansaço do modelo de governo do PSDB. Imperava um clima de demanda por mudanças. Segundo os autores, alguém que prometesse vencer o desemprego, e convencesse a opinião pública, venceria. Lula conseguiu este feito com sua promessa de criar um milhão de empregos. José Serra também prometeu baixar desemprego, mas não convenceu. A diferença? Este representava o governo que criara o desemprego. Ademais, Lula se posicionou como alguém que iria conservar a estabilidade econômica com a escolha de um vice empresário e com a “Carta ao Povo Brasileiro”.

O primeiro governo Lula começou com grande expectativa, decresceu e voltou a crescer apesar do escândalo do Mensalão em 2005, dizem os autores. A aprovação de Lula nunca foi inferior a 30%, esteve mais próxima da casa dos 40% e chegou a alcançar o patamar de 52%. A vida das pessoas, sobretudo das mais pobres, melhorou ao longo de seu primeiro governo, com aumento real do salário mínimo e novos programas sociais, além da dinâmica econômica, superior à de FHC. Com isso, a oposição nas eleições de 2006 ficou prejudicada. Ainda assim, Lula não ganhou no primeiro turno (48,61%) de Geraldo Alckmin (41,64%). No segundo turno, sua vitória foi tranquila (60,83%) e seu adversário alcançou o feito de ter menos votos do que no primeiro turno (39,17%).

Em 2010, o Brasil cresceu 7,5% e a aprovação de Lula chegava aos 80%. Era quase impossível não eleger sua candidata, Dilma Rousseff, tida como uma grande gestora pelo presidente e sem qualquer experiência de embate eleitoral. Aparentemente, segundo os autores do livro, Lula elegeria qualquer pessoa pela força política que tinha. A opinião demandava continuidade. Apesar disso, Dilma teve um percentual menor de votos no primeiro turno do que Lula (46,91%). Os dois candidatos opositores de visibilidade, José Serra e Marina Silva, tiveram, respectivamente, 32,61% e 19,33%, ou seja, um total de 51,94%.

E as eleições de 2014? A presidente Dilma era avaliada positivamente por cerda de 35% dos eleitores, apesar de um governo desastroso: o PIB caiu de 7,5% em 2010 para 0,5% em 2014, embora a taxa de desemprego e a inflação tenham se mantido estáveis. A opinião pública estava dividida. Um percentual pouco maior de 50% queria a continuidade total ou parcial das medidas governamentais. No entanto, em 2013, por ocasião da Copa das Confederações no Brasil, manifestações antissistema abalaram o País e foram o prenúncio de eleições acirradas.

A conformação da luva não estava clara. Por isso mesmo, as eleições de 2014 foram difíceis, e dependeram muito da condução da campanha. Dilma teve o menor percentual de votos no primeiro turno, comparado aos presidentes anteriormente eleitos — 41,59%. E teve uma vitória de Pirro no segundo turno. Cometeu um estelionato eleitoral negando que o País estivesse em crise econômica e acusando a adversária, Marina Silva, de entregar as finanças do país aos bancos. Eleita, seu ministro da Fazenda foi indicado pelos banqueiros e as primeiras medidas pretendiam conter a crise econômica, com total insucesso, o PIB caiu 3,5%.

Sem maioria no Congresso e com um adversário em sua presidência, este quadro de recessão preparou o terreno de seu impeachment. A maioria parlamentar que ela exibia a Marina durante a campanha, dizendo que ela tinha e Marina não, desfez-se em um ano. Sofreu o “golpe” da queda em 31 de agosto de 2016 com 61 votos favoráveis e 20 contrários no Senado. A autorização da Câmara foi também acachapante: 367 votos favoráveis e apenas 137 contrários, com 7 abstenções e 2 ausências.

Nas eleições de 2018, após a presidência de Michel Temer para completar o mandato de Dilma Rousseff, a luva pedia alguém antissistema e um opositor radical de Dilma. E ela caiu em um personagem radical, muito mais do que o esperado. Os autores afastam a hipótese de que Jair Bolsonaro venceu as eleições graças à facada que levou ou ao fato de Lula indicar um candidato apenas na vigésima quinta hora. Ganhou porque era a mão que a luva pedia. No primeiro turno, o presidente eleito teve 46,03% dos votos e seus concorrentes mais próximos: Fernando Haddad, 29,28%, e Ciro Gomes, 12,47%. No segundo turno, Haddad cresceu, alcançando 44,87%, mas bem atrás de Bolsonaro, com 55,13%.

As mudanças na Câmara dos Deputados, que sofreu a sua maior renovação, e no Senado, que conheceu o maior percentual de abstenções, reforçam o sentimento antissistema da época. As eleições de 2022 se anunciaram como as de 2014: acirradas. Pela primeira vez se confrontavam um presidente em exercício e desgastado, mas com uma aprovação na opinião pública em torno de 30%, e um ex-presidente que deixara o governo com quase 80% de aprovação. As intenções de voto, muito favoráveis a Lula no início de 2022, caíram ao longo do ano graças ao crescimento do Auxílio Brasil para 600 reais e a uma deflação temporária, fruto do corte de ICMS dos combustíveis. As pesquisas de opinião às vésperas das eleições davam vantagem a Lula (52% a 48% — Datafolha e Quaest; 54% a 46% — Ipec), confirmadas pelo resultado das urnas: 50,9% X 49,1%.

Na análise dos autores do livro, a economia foi um elemento determinante nas eleições presidenciais analisadas. Se a economia vai bem, o povo prospera e a tendência é a da continuidade. Porém, lembram os autores, é preciso que os eleitores percebam essas melhorias. O que parece não ocorrer atualmente. Há vários indicadores econômicos que mostram a economia crescendo, a inflação estável, o desemprego em baixa e o poder de consumo da maioria da população em alta. No entanto, o governo não tem aprovação da maioria.

A opinião pública reclama da carestia, e esta não é a mesma coisa que inflação. Há uma diferença relevante: a segunda é um dado objetivo e a primeira, uma percepção subjetiva. Por outro lado, a extrema polarização introduziu a política como algo mais relevante do que no passado. Quem é bolsonarista não vê qualquer benefício econômico do governo atual, como o petista não vê nada de positivo no governo de Bolsonaro. A extrema polarização cria um filtro severo na seleção das informações. E o processo de desinformação cria ainda mais dificuldades para os eleitores compreenderem o que se passa no País.

Atualmente, Lula tem em torno de 32% de “bom/ótimo” e 38% de “ruim/péssimo”. Uma situação muito parecida à de Bolsonaro em maio de 2022, com 32% de “bom/ótimo” e 43% de “ruim/péssimo”. Os candidatos dos polos extremos, Flávio Bolsonaro e Lula, estão praticamente empatados, embora as últimas pesquisas tenham dado uma leve diferença para o presidente. Contudo, uma fatia considerável do eleitorado gostaria de votar em outro candidato. Um vazio até agora sem postulante de peso.

Qual a natureza da luva no momento atual? Não parece haver clareza sobre isso, o que nos deixa indecisos sobre qual mão tem mais chance de ocupá-la. Com a relevância da política e a extrema polarização, cria-se uma situação em que, aparentemente, a economia é menos relevante, os atores políticos e seus meios de comunicação são mais influentes e os eventos (nas suas diversas interpretações), mais decisivos. Com isso, pode-se imaginar que o determinismo da opinião pública, dividida como ela se encontra, tende a se enfraquecer. Nesse caso, crescem, de um lado, as incertezas e, de outro, o fator campanha eleitoral.

A tese dos autores do livro é interessante, mas perigosa ou, pelo menos, inválida para todas as situações. A opinião pública é algo não apenas múltiplo, mas também volúvel. Em situações de profunda incerteza, em que a forma da luva não é clara, e a opinião pública está indecisa, decide o peso da campanha eleitoral, como parece ter ocorrido em 2014 e 2022: o retorno do sujeito.