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Penso, logo duvido.

O fim do passado – Fernando Dourado

Fernando Dourado

Demência.

I

De olho na televisão, Harold se divertiu com o depoimento do salva-vidas. Tanto achou interessante o que o rapaz disse, que chegou a enxugar uma lágrima de emoção. “Se você sentir que a corrente o está puxando, não tente nadar em direção à areia. Nade em paralelo à costa que em algum momento a correnteza perderá força. De posse de seu fôlego, você então estará mais apto a voltar à praia”. E se aplicasse o raciocínio às palavras que lhe escapam e às ideias que se evaporam? Sonja precisava ouvir aquilo. Chamou-a duas vezes em voz alta. Da cozinha, ela gritou: “Agora não posso, doutor. Mais cinco minutinhos e o almoço estará pronto. Então serei toda ouvidos”. Harold pensou em ir até a soleira da porta, mas a enfermeira podia não gostar. Quando sentou-se para almoçar um caldo de galinha oriental, ela olhou-o com simpatia e disse que agora podia ouvir o que tinha a contar. Mas ele baixou a cabeça em silêncio, envergonhado. Não, não tinha importância. Na verdade, já não se lembrava. “Você nunca casou, Sonja?”. “Lá vem essa história de novo. Tome a sopa. Vou ali e já volto”.

II

Barbara, a filha mais velha, estava verbosa no fim da tarde da terça-feira. Era quando o visitava habitualmente, depois da sessão de ioga: “As pessoas pensam que é coisa para gente zen, pai, que quer necessariamente galgar patamares de meditação. Isso não é verdade. É um exercício suave, mas que cobra um esforço enorme de cada músculo. Quando termina, vem uma sensação de relaxamento. Sonja podia fazer uma sessão qualquer tarde dessas. Acho que faria bem a ela, mas para isso você precisa se comportar bem. O episódio do elevador já ficou para trás, qualquer um pode ter incontinência e agora, com a fralda, isso não deverá mais acontecer. Mas sumir na rua e entrar de loja em loja, isso já foge à minha compreensão. Ou você não sabe que está colocando a vida dos outros em perigo? Veja bem, não é só a sua. Ponha-se no lugar de um motorista que o atropele. Por mais que se saiba de seu estado, o pobre homem vai ter que passar por testes de alcoolemia e, no mínimo, perder um dia de trabalho. Era assim que pensava você, Dr. Harold, até recentemente. Portanto, comporte-se”.

III

Que origem tinha ele? Isso pouco importava. Tirando os aborígenes, afinal, todo mundo naquele país descendia de uma família que vinha de longe. No caso de Harold, Sonja desconfiava que suas raízes eram gregas. Portanto, de alguma forma, até que não estavam tão longe das dela, nascida nos Bálcãs. Por preparada que fosse, foi um choque quando ele a recebeu no consultório. No começo, ela não entendeu onde queria chegar com a longa dissertação sobre a demência. Tudo aquilo ela conhecia até mais do que um médico. Não na teoria, mas na vida prática. Pensando que ele a encaminharia para algum de seus pacientes, ela ficou muda quando disse que, na verdade, queria que ela começasse na semana seguinte pois o caso estava fadado a rápida evolução. E que o enfermo era ele mesmo. Foi só então que ela percebeu uma vaga tristeza naqueles olhos cinzentos, sob as sobrancelhas espessas e grisalhas. Então aquele homem bonito e ainda jovem – não podia ter muito mais de sessenta anos – a preparava para ser sua companhia derradeira? Será que ele tinha certeza do diagnóstico? Não será que eram outras as intenções ao colocá-la em casa? Sonja já vira de tudo.

IV

No lançamento, o orador elogiou o colega Harold Vournas. Para homenagear o médico e escritor, leu uma passagem de seu livro de viagens. “O povo do Vietnã teria todas as credenciais para olhar o resto do mundo com soberba. Já deu sovas memoráveis em chineses, franceses e americanos. E, no entanto, parece enxergar o passado com bom humor e condescendência. Além disso, os vietnamitas tratam os ocidentais de uma forma afetuosa e divertida; e têm enorme curiosidade com respeito a tudo que concerne o outro. São doces, horizontais e versáteis. E as mulheres são deslumbrantes, meigas e sensuais. Um povo “mão na massa”, informal e industrioso. Gosto de comer o “Phò Bô”, servido numa calçada cheia de bancos baixinhos na região do Lago Oeste de Hanói. É sopa de massa fininha e condimentada. Para realçar, tem tiras de carne branca de origem pouco definida. Assim dito, parece uma canja hospitalar. Mas não é. O todo resulta saboroso. Seria pela iguaria ou pelo fato de estar cercado por gente atenta, cúmplice e gentil?” Todos aplaudiram e ele também. Quando pensou em se levantar, sentiu a pressão da mão de Tina no ombro. “Não precisa, pai. A noite hoje é sua”.

V

Christina, ou Tina, não era muito diferente da irmã na hora de falar do passado: “Nós duas estamos sofrendo muito, Sonja, e te agradecemos por dar a ele um carinho de que talvez não fôssemos capazes. Nosso pai ficou viúvo muito cedo e isso acelerou nossa independência. Ele passava dias operando e toda Sidney sabia que se tratava de um cirurgião devotado. Sinceramente, nunca tivemos muita aptidão para acompanhá-lo nas viagens. Preferíamos uma mesada gorda e acampamentos com nossas primas do lado materno. Para ele também era um arranjo que convinha, aparentemente. É irônico que hoje ele comece a ser mais conhecido pelos livros que escreveu do que pelas vidas que salvou. Pena que o velho homem já não possa acompanhar o que se passa. Não que fosse ficar envaidecido. Pelo contrário, seria capaz de se enfiar debaixo da mesa com o puxa-saquismo desses editores que querem cultuá-lo à espera de sua morte. Mas é como diz Barbara: alguma coisa sempre fica dessa adulação. O advogado tem passado aqui? Era seu melhor amigo até bem pouco tempo”.

VI

Harold fixara o Natal de 2015 como seu limite. O que significava dizer que a partir de janeiro desativaria o consultório que mantinha no hospital. Caso se sentisse bem, ainda voltaria ao Sudeste Asiático para uma viagem de despedida, conforme disse a Sonja. Pensava em ir ao Cambodja e à Tailândia. Se a chamasse, ficaria numa situação difícil pois a ideia era tentadora. O longo voo, porém, a paralisava. “O que são algumas horas para usufruir da tremenda diferença entre nossas culturas? Esse é o privilégio da Austrália”. Ela já estava totalmente familiarizada com as rotinas domésticas e chegava a se sentir culpada por ganhar tão bem para simplesmente estar ali, já que, salvo por raríssimas vezes, ele não carecia de quaisquer cuidados especiais. Foi duro vê-lo se destituir de algumas funções. A primeira delas foi quando lhe confiou a chave do carro. Já não pretendia guiar e em pouco tempo decidiu vendê-lo. Quando queria ir à praia de Bondi para ver o movimento – um local que, segundo as filhas, nunca lhe apetecera antes – era no carro de Sonja que iam. Durante uma hora inteira, ele parecia submergir em profunda ausência, vendo os banhistas.

VII

Na tela iluminada, o cricket parecia ter perdido todo o encanto para Harold. Mesmo assim, ele se matinha ereto e, discretamente, tentava exercitar os dedos de ambas as mãos que já davam sinais de estar entrevados. Sonja abriu o livro a cujo lançamento comparecera e leu uma passagem: “Gostei muito do bar do hotel Caravelle, em Ho Chi Minh. Foi o local de onde a imprensa mundial cobriu a “Guerra da América” , forma como eles denominam aqui a guerra que nós dizemos ser do Vietnã. O bar já passou por muitas reformas, mas nas duas noites consecutivas em que lá estive, cheguei a ver americanos bem rodados tomando cerveja e beliscando amendoim com um olhar perdido. Bem, não são poucas as excursões para soldados veteranos à procura de juntar os cacos do passado e rever o palco da tragédia pessoal que viveram”. Quando Sonja levantou os olhos, ele cochilava e o chapéu Panamá que passara a usar dentro de casa tinha caído no tapete. No dia seguinte, ele teria fisioterapia logo cedo. Depois, vinha o homem da livraria, um certo Morris, de cuja voz ao telefone a enfermeira não gostara nem um pouco.

VIII

“Eu chamei vocês aqui porque acho que estou chegando a meu limite e ele também ao dele, coitado. Talvez não seja mais o caso de mantê-lo em casa. Sei que esse é seu maior desejo e fiz uma espécie de juramento. Mas estou pronta para descumpri-lo, se não puder contar com a ajuda de mais uma pessoa. Quando levaram os livros dele, tive a sensação de estar diante de uma criança que perde o brinquedo. Eu sobrevivi a uma guerra séria, vi muito sofrimento, não queria que as chagas reabrissem, mas é o que está acontecendo. Ao vê-lo chorar diante das prateleiras vazias, fiquei pensando se não é egoísmo nosso lhe tirar do campo de visão os livros que colecionou por uma vida. Simplesmente porque é mais prático para nós e fica mais fácil limpar a poeira. Nenhuma perda doeu tanto nele até agora quanto essa. Já se passou uma semana e todo dia ele me pede para estacionar a cadeira de rodas diante das estantes nuas. Então aponta alguma coisa e diz palavras ininteligíveis, numa língua que não conheço. Até Dimitri, o barbeiro, me olhou com ar de recriminação. Como se eu fosse culpada de um crime. Não respondi porque meu inglês não chega para tanto. Preciso de ajuda”.

IX

Harold ainda viajou em janeiro de 2016. Atendendo a seu convite, Dr. Costas o acompanhou, mas só ficou uma semana das duas que durou o passeio. Na gaveta da mesa de cabeceira, Sonja encontrou anotações manuscritas: “É na tepidez noturna que lembro minha juventude aqui em Kuala Lumpur. Laura já estava bem doente. Barbie e Tina eram moças feitas e não se sentiam minimamente atraídas por qualquer coisa que as tirasse da alça de mira dos namorados e do convívio dos amigos. Naquela época, nos últimos quinze anos do século passado, os prédios altos se contavam nos dedos; o trânsito fluía; a região da velha estação ferroviária inglesa era calma e bucólica e não havia rastro desses imensos elevados. Até as flores exalavam um perfume noturno inebriante e as borboletas voejavam pelos jardins do hotel. A pé, eu ia até Jalan Alor para sessões de massagem e para ganhar os afagos das malaias atrevidas. Apesar de ainda sobreviverem traços dessa época em que se tinha a sensação de adentrar os tempos coloniais, reconheço que hoje, não os vejo mais, só sinto. Ou sou eu que fiquei pequeno diante da imensidão das Torres Petronas que perfuram o céu nebuloso?”

X

Voltei hoje de Pnom Penh, Cambodja, via Cingapura. Passei muitas horas contemplando o rio Mekong e ali soube mais do que nunca que regresso à Austrália para morrer. Quanto tempo pode levar? Pelas características da enfermidade, que pude discutir com a equipe de Vinod, não acredito que passe dos dezoito meses. Na verdade, por otimista que queira ser, percebo que me perco nas mínimas coisas e que fiz bem em contratar a sérvia com a antecedência devida para retardar ao máximo uma hospitalização e poupar minhas filhas de aborrecimento. O que mais teria a fazer na vida? Talvez tenha feito por merecer viver um pouco mais. Mas a vida biológica, a única em que acredito, está sujeita a esse tipo de ocorrência. Sem passado, contudo, sem quaisquer vestígios de tudo o que nos foi caro um dia, não há a menor razão para continuar vivo. Um homem sem passado é um homem sem presente. Logo sem plataforma para se lançar rumo ao futuro. Ver os jovens subir e descer as escadas, contudo, me enche de uma inveja boa e de amor extremo à vida que se esvai. Daria tudo, livros e bens, para ter semelhante mobilidade. Mas sei que isso é rematada bobagem”.

* * *

11 Comments

  1. Fernando querido,
    Como sempre, seu texto fala com todos porque busca entender a natureza humana. No caso dessa história da demência, há um arrepio de medo que nos aconteça o mesmo que Harold vive… Mas, ao mesmo tempo, nos coloca a questão da mortalidade inevitável. E disso não vamos escapar.
    Vamos viver o tempo que nos resta da melhor maneira possível. É a única alternativa.
    Bjs

    • Querida Eleonora,

      Sendo você cinéfila de primeira grandeza, além de psicanalista, há de ter entendido minhas reservas em escrever uma história em linha com o que já vimos na tela grande com Jualianne Moore, em “Still Alice”. Ou mesmo em “O filho da noiva”, com Ricardo Darín, anos antes. Ocorre que o tema é inesgotável e muito contemporâneo. Cada caso tem suas angulações. Harold simplesmente chegou para logo ir embora. Lembretes assim temos a toda hora. Obrigado pela visita. Beijo

  2. Querido amigo Dourado,

    Primeiro, saudades suas.

    Segundo, ontem, ao comprar um material de construção, encontrei Lívia – apressada com a conclusão da mudança – e ficamos contentes de saber da viagem à França e da visita à feira, na Alemanha.

    Pronto: dados os recados, vamos ao que interessa.

    Costumo citar para minha mulher, uma expressão própria, cunhada já há alguns anos, nos meus momentos de reflexão – ou desvarios – que de alguma forma se combina com o título de seu sensível, emocionante – e triste – texto:

    “Saudades do futuro “.

    Penso que nesse belo relato, o seu “Fim do passado” se encontrou com as minhas “Saudades do futuro”…

    Que assim seja.

    Abraço forte de um amigo.

    • Sempre um prazer tê-lo por aqui. Espero que por muitos anos, otimista que sou. Eu, cá com minha escrita atabalhoada; e você, com seus comentários cirúrgicos. O que não impede que invertamos os papéis, é só querer.

      Devo admitir contudo que, talvez contagiado pelas percepções nebulosas de Harold, o amigo (cujo nome também começa com H) fez rara miscelânea de temas na sua cordata saudação.

      Aludindo, inclusive, a uma pessoa que (ainda) não sei quem é, apenas intuo. Sim, também gosto de “saudades do futuro”. Quase tanto quanto as do não vivido: o Rio de Janeiro dos anos 1960 e a Paris da Belle Époque.

      Grande abraço

  3. Oi Fernando,

    Gostei muito!

    Deu vontade de conhecer mais o personagem, principalmente do passado que ele não lembra mais. Aí está o genial da história, ficamos como ele.

    Por outro lado, mesmo sem a memória, nossa história está inteira no presente, nos gestos, no olhar, no que nos toca…nas rugas, na expressão, no gosto, na voz. Será que a gente não se recria a cada dia? Nem sempre me reconheço no espelho….

    Beijo,

    Iara

    • Bom mesmo é ter leitoras como você, Iara.

      Veja só, até ler seu comentário, não tinha me ocorrido que o passado de Harold é uma enorme nebulosa para o próprio autor.

      Daí o personagem ter se construído de forma fragmentada, pela colagem do que foi ficando pelo caminho. Em suma, conheci-o melhor pelos seus olhos de psicanalista.

      Obrigado e um beijo daqui da Alemanha para o Tchad.

  4. Fernando
    Lindo e emocionante relato! Muita sensibilidade!
    Eu, no alto dos meus 87 anos, entendi muito bem…
    Abraços
    Lejbus

    • Prezado Tio Leão,

      Muito obrigado pelo carinho do comentário. Sus 87 anos o credenciam, na verdade, a simbolizar o amor à vida. Contrariamente ao Harold da história, sua forma física e mental inspira todos nós a não deixar a peteca cair. Oxalá essa fosse a regra e não exceção.

      Um grande abraço,

      Fernando

  5. Sem memória – nenhuma memória – não pode haver consciência. E sem esta, não se pode dizer que há vida, a não ser aquela dos vegetais. Seu conto aborda questões fundamentais´, Fernando. É belo, doloroso, mas sempre temperado com o rico molho de suas vivências internacionais.
    Do alto dos meus 76 anos, mas bem longe das preocupações do seu personagem, envio meus cumprimentos. E confio em que minha mente não se esgote antes do resto do corpo.

  6. Amigo, singelo e emocionante!

  7. A Clemente e Lázaro, muito obrigado. As palavras de estímulo de ambos me fazem perseverar nessa toada de escrevinhador. Que as preocupações da idade se mantenham distantes do primeiro e que o segundo venha a viver a melhor parte da vida. E tenho certeza que vai. É o que desejo de coação.

    Abraço,

    Fernando

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