Serrita Missa do Vaqueiro - by Hans Vons Manteuffel

Serrita Missa do Vaqueiro – by Hans Vons Manteuffel

Clemente Rosas

O Bamba no Cacete

As armas brancas dos paraibanos pobres do interior, pelo menos até meados do século passado, sempre foram a faca peixeira e a foice de jogo.  Esta ganhou tal nome por não ter utilidade para o trabalho.  Era apenas instrumento de combate: tinha cabo mais fino e mais longo que a foice comum.  De efeitos devastadores, era frequentemente apreendida pela polícia.  Daí a expressão, corrente até hoje: “mais feio que briga de foice no escuro”.

Mas havia ainda outra arma, menos nobre, que tinha também o seu valor: o cacete.  De madeira dura e pesada, mais longo que uma simples faca, podia até mesmo fazer frente à peixeira numa briga, como observava meu pai.  Era bastante o caceteiro ter maestria e rapidez no seu uso, para golpear o punho ou o antebraço do esfaqueador. Alguns indivíduos até se especializavam no seu manejo.

Luiz Vieira, das redondezas da fazenda Una, do “coronel” João Úrsulo, era um desses bambas, de fama reconhecida.  E quando se soube que ele procurava um cabra, com quem tinha contas a ajustar, para dar-lhe uma surra, o coronel recebeu um pedido da vítima em perspectiva:

Seu João Urso, fale com ele, pra me livrar desse castigo…

Sem maior empenho no caso, só para dizer que havia procurado ajudar, o fazendeiro falou com Luiz Vieira, e achou suficiente o compromisso obtido:

– Tá bom, seu João, eu vou tirar por menos. Mas quero dar pelo menos uma cacetada. Só uma.  E dou o caso por encerrado.

João Úrsulo transmitiu ao suplicante o resultado do entendimento. E não chegou a surpreender-se com a reação encontrada:

– Esse acordo não serve pra mim não, seu João Urso. Seu Luiz Vieira pega borboleta no ar com o cacete. Se eu for nessa conversa, eu tou lascado…

 

O “Serviço” Frustrado

Sindulfo Melo era proprietário na várzea do Paraíba, fornecedor de cana para as usinas.  Respeitado e temido na cidade de Santa Rita, conservava o estilo dos senhores de engenho, contando, entre seus agregados, com alguns cabras bons de serviço.

Macio era dono de caminhão, fazia pequenos negócios, e nos primeiros dias de agosto, durante a tradicional Festa das Neves, de João Pessoa, armava um carrossel que, rodando de graça no Dia do Estudante, lhe dava popularidade, e algum acesso à gente importante.  Os dois podiam ser considerados amigos, no limite demarcado pela diferença de condição social.

Macio, como reza a doutrina para os pequenos burgueses, invejava o patriciado, e seus métodos.  Um dia, com raiva de um sujeito que lhe fez uma afronta, procurou Sindulfo:

– Seu Sindulfo, eu queria que o senhor me arrumasse um homem para fazer um serviço…

Que serviço?

– Ora, seu Sindulfo, dar uma surra num cabra safado, que me desacatou…

Sindulfo duvidou da disposição de Macio, mas resolveu fazer o favor.  Recomendou Antônio Madalena, afrodescendente acoitado por ele e outros proprietários.

Pronto, amigo Macio. Está aí o homem que você quer.  Mas veja o que vai fazer, para não se meter em complicação!

Antônio Madalena não havia chegado ao requinte dos malandros Rinconete e Cortadilho, personagens das Novelas Exemplares de Cervantes, que cobravam antecipadamente parte dos “trabalhos”, e tinham uma tabela de preços para os malfeitos, segundo o grau de importância: ameaças, zombarias, garrafadas, pauladas, banhos de merda, etc. Mas era cabra disposto. E Macio acertou com ele o negócio, dando todas as coordenadas de hora e lugar: um ponto isolado e penumbroso, por onde passava sempre o desafeto, na volta do trabalho para casa.  Mas acrescentou uma exigência pouco comum em tais empreitadas:

– Só tem mais uma coisa, seu Madalena.  Eu quero estar lá junto, pra ver.

No dia combinado, Macio foi encontrar-se com Madalena, já à espera no seu posto.  Mas notou, logo na chegada, que aquilo que o negro segurava, com mãos firmes, parecia mais um fueiro de carro de boi do que um simples cacete.  E ficou assustado.

– Seu Madalena, eu não quero matar o homem não…

– E o senhor pensa que eu vou dar num homem brincando?  Se eu for com moleza, o homem se faz na faca, olhe eu aí aperreado!  Eu tenho que dar é pra derrubar!

O tempo foi passando, a sombra da noite avançando, e o homem não aparecia. O nervosismo de Macio aumentava a cada minuto. Até o ponto em que não suportou mais:

– Quer saber de uma coisa, seu Madalena?  Eu não quero mais fazer o serviço não. Vamos deixar isso assim mesmo, como está.

– O senhor é quem sabe, seu Macio.

Macio não usou os serviços de Madalena, mas ficou seu devedor.  E Madalena, insuflado por Sindulfo, que acabou sabendo da história, passou a pedir a Macio, regularmente, o dinheirinho da feira semanal, além de alguns adicionais para as bicadas.  Até que Macio não aguentou mais, e correu para Sindulfo, pedindo um novo favor:

– Seu Sindulfo, me livre daquele homem, pelo amor de Deus!  Toda semana ele me pede dinheiro, e eu tenho que dar. O senhor sabe como é, depois daquele negócio…  Eu não aguento mais!

Quando Sindulfo achou que não havia mais perigo de Macio querer bancar de novo o valentão, chamou o capanga e determinou:

– Tá bom, Madalena.  Deixe o homem em paz.

***