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Penso, logo duvido.

Eu e ELES: Ecos de memória política – Clemente Rosas

 Clemente Rosas

Celso Furtado.

VIII – Celso Furtado

Na segunda metade da década de 50 do século passado, começou-se a falar, na Paraíba, de um de seus filhos emigrados.  Nascido em Pombal, no sertão do Estado, havia-se transferido, adolescente, para João Pessoa, e poucos anos depois para a capital do país, onde se formou em Direito.  Participou, como voluntário, da II Grande Guerra, onde atuou como oficial de ligação da FEB com os comandantes americanos, voltou, depois, à Europa e, segundo suas próprias palavras, “acabou tornando-se economista”.  Deixando Paris, após passagem pela CEPAL, no Chile, e pelos meios acadêmicos ingleses, retornou ao Brasil, e conquistou a confiança do presidente Juscelino para conceber e executar um plano de desenvolvimento para a sua região.

No final dos anos 50, em tratativas de criação da SUDENE, visitou a sua terra, na companhia de sua esposa ítalo-argentina, sempre discreto e reservado, como se conservou por toda a vida.  Acho que foi a primeira vez que o vi, no salão do jantar dançante do tradicional Clube Astrea, de João Pessoa.  Meu pai, que esteve com ele ocasionalmente, não fazia fé no projeto, pois a agência regional a ser criada apresentava-se como apenas planejadora.  Não sabia ele que tal rótulo tinha por escopo apenas viabilizar a aprovação do plano pelo nosso Congresso, então dominado pelas oligarquias reacionárias nordestinas.

Enfim, em dezembro de 1959, a autarquia especial foi instituída, e começou a entrar na história da juventude regional.  Seminários estudantis promoviam debates sobre a grande novidade do desenvolvimento, com a participação de palestrantes da entidade, manifestações de rua ocorriam, órgãos estaduais de planejamento eram criados, escolas de economia passavam a merecer respeito.  Caso emblemático dessa verdadeira revolução foi meu encontro casual, em viagem de estudos promovida pela União Internacional dos Estudantes à República Soviética do Uzbequistão, do outro lado do mundo, com o Dr. Estevam Strauss, técnico em irrigação da SUDENE, em visita às áreas irrigadas da Ásia Central.

Findos o meu mandato como diretor da UNE e o meu curso de Direito, de volta a João Pessoa, soube da convocação da autarquia para o III Curso de Técnico em Desenvolvimento Econômico – TDE, e a ele me habilitei.  Ao concluí-lo, ouvi, com verdadeiro deslumbramento, a fala do Superintendente, como o anúncio de um  novo tempo para a minha geração, e um desafio a nós, jovens nordestinos, para convertê-lo em realidade.

Já incorporado à organização, trabalhando na Assessoria de Cooperação Internacional, fui um dia levado pelo meu superior imediato, José Macedo Lins, para apresentação ao “comandante”.  Este, ao ouvir meu nome, perguntou:

O que você é do Dr. Clemente Rosas?  Filho?

Expliquei que era neto, por parte de mãe. E ele:

– Bem me lembro do velho Clemente Rosas, nos veraneios de Praia Formosa…

Em nossa rotina de trabalho, administrando programas de cooperação técnica e financeira de países diversos, como França, Israel, Japão, Alemanha, mas principalmente com a missão especial americana da USAID no Nordeste, nunca deixei de admirar a autoridade e a independência com que nosso chefe, em um inglês perfeito, defendia os interesses da região e as prioridades do Plano Diretor da SUDENE contra as investidas manipuladoras dos nossos conveniados.

Mas veio o desastre de 1964, e fui o primeiro técnico da SUDENE a ser preso, na minha sala de trabalho (já sabia que me iriam buscar, pois os policiais haviam estado em meu apartamento e levado a minha mulher, como refém).  E o Dr. Celso, que virou a “noite de agonia” ao lado do Governador Miguel Arraes, viajou para Brasília, depois para o Rio, e finalmente para o Chile.  Foi incluído, absurdamente, na primeira lista de cassações de direitos políticos da Ditadura Militar.  Soube depois, por amigos que o visitaram no exílio, que ele havia considerado o fato de minha detenção, dentro da própria autarquia, como uma ofensa pessoal a ele.

E veio também, como uma bomba de ação retardada, a minha demissão, no final de 1964, mesmo tendo sido inocentado pela Comissão Geral de Investigações.  Jovem, cheio de teorias, mas sem nenhuma prática de vida, e tendo portas fechadas à minha frente, pensei até em sair do país.  E escrevi, pedindo conselho, a alguns dos dirigentes da SUDENE, já emigrados.  Dr. Celso, que nesse momento estava em Yale, nos Estados Unidos, foi o único que me respondeu, e guardo sua carta até hoje.  Nela, aconselhava-me a, se a opção fosse mesmo sair do Brasil, ir para a Europa, ambiente mais estimulante, e onde se podia viver com pouco dinheiro.

Não segui seu conselho.  Já estava casado e, afinal, não corria risco iminente de nova prisão (embora tenha levado quatro anos para me livrar dos processos a que respondi).  Apesar de meu amigo Marcos Lins, também companheiro da SUDENE, e já instalado em Paris, me haver escrito que, numa emergência, me acolheria em sua modesta habitação de exilado, eu não queria causar incômodo a ninguém.

Cumprido o tempo de sua cassação, Dr. Celso começou a visitar o Brasil, para conferências, contatos, sentir o clima político do país, ainda sob o Governo dos Militares.  Numa visita à Paraíba, meu pai o viu no aeroporto do Recife, à espera de um voo para João Pessoa.  E meu velho estava para embarcar, com o mesmo destino, num aviãozinho da empresa da qual era diretor.  O piloto Simeão deu-lhe a ideia:

– Dr. Evandro, Dr. Celso deve estar esperando voo para João Pessoa.  Por que não convida ele?

O convite foi feito e, para surpresa de meu pai, o convidado aceitou:

– Vou aceitar.  Assim chego mais cedo, e de forma mais discreta.

E o ex-Ministro do Planejamento, e futuro Ministro da Cultura, chegou à sua terra em um pequeno monomotor executivo, de quatro lugares, sem ter ninguém a esperá-lo.

Doutra feita, eu é que, sabendo, através de Geraldo Medeiros, Secretário do Planejamento da Paraíba e meu compadre, da presença dele nos Guararapes, em viagem de volta para o Rio, fui encontrá-lo.  Queria lhe entregar um exemplar de um estudo que havia feito, em parceria com Jorge Cavalcante, então Secretário de Planejamento de Pernambuco: uma espécie de balanço da situação do Nordeste, pouco mais de vinte anos após a criação da SUDENE, à luz das propostas do GTDN (Grupo de Trabalho para o Desenvolvimento do Nordeste).  A publicação foi em edição especial da Revista Pernambucana de Desenvolvimento, de responsabilidade do CONDEPE, a autarquia estadual de planejamento.  Seu título era “Nordeste 1981”, e continha algumas sugestões de correção de rumos para o planejamento regional.

Encontrei-o só.  Fiz-lhe a entrega do livrinho, sentamos, conversamos um pouco.  Dei-lhe notícia de alguns companheiros sudeneanos que a “diáspora” de 1964 havia espalhado pelo país e pelo mundo.  Mas, em dado momento, tive a impressão – não sei se correta – de que ele preferia continuar só.  Encabulei e despedi-me.

E veio enfim, com a Emenda Constitucional nº 27/85, que consolidou a anistia de 1979, o momento da reintegração à autarquia dos demitidos em 1964.  Foi uma bela solenidade, seguida de festas, ao longo de uma semana.  Uma vintena de injustiçados  foi calorosamente acolhida pelos colegas de casa.  Entre eles, técnicos renomados e gente simples, como Edson “Gordinho”, o contínuo que discutia Lênin, em “O Estado e a Revolução”.  Dr. Celso, então Ministro da Cultura, convidado especial, esteve presente, e tive a alegria de apertar-lhe a mão.

Antes e depois disso, ao longo dos anos, escrevi vários artigos sobre a SUDENE, seus méritos, seus percalços durante a Ditadura Militar, e sobre seu idealizador e principal comandante.  E após a morte deste, em sua defesa contra ataques de jornalistas mal informados e jovens economistas em busca de notoriedade. Esses textos estão reunidos no livro “A SUDENE e o seu Inventor”, em via de publicação pela Editora Massangana, da Fundação Joaquim Nabuco.

Dentre eles, talvez o mais significativo seja o que resultou de minha intervenção na sessão de necrológio promovida pela Academia Paraibana de Letras, em 20.01.2005.  Convidado à última hora para substituir um dos palestrantes, falei de improviso, com apenas um roteiro à mão (a minha fala, convertida depois em escrito a pedido do presidente da APL, consta da edição nº 21, ano LVI, setembro/2005, da revista da Academia).

Nessa fala, evocando como o conheci e me tornei seu discípulo, ressaltei alguns  aspectos de sua personalidade: a condição simultânea de sertanejo, paraibano, nordestino, brasileiro e cidadão do mundo, a visão multidimensional dos problemas econômicos, a atitude de “lobo solitário” em momentos decisivos da sua vida, a qualificação, que lhe foi atribuída pelo bispo D. Marcelo Carvalheira, em missa em seu favor, de “profeta secular”, pela esperançosa visão do futuro do seu país e do mundo.

Espero não estar sendo pretensioso ao dizer que provoquei emoção e lágrimas, nem me envergonho de confessar que também as verti.  Muitos dos que ali estavam, seus admiradores ou companheiros de trabalho, como Juarez Farias e Ronald Queiroz, dele receberam, como eu, uma herança intelectual e moral valiosíssima, que todos temos o dever de cultuar e preservar.

                

2 Comments

  1. bonito texto, Clemente, em que poucos parágrafos captam o essencial da trajetória de Celso.
    lembranças afloram, em especial sua intervenção na APL, ao lado de Juarez, Ronald e José Otavio que tiveram a generosidade de escrever sobre Celso.
    abraços, e um agradecimento ao Fernando Dourado que fez a gentileza de me encaminhar o post.
    quem sabe até breve,
    rosa freire d’aguiar

  2. Obrigado pelo retorno, amiga!
    E também a você, Fernando, pela iniciativa do encaminhamento!
    Qualquer dia nos veremos!

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