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Penso, logo duvido.

Fiapos de conversas com mamãe – Fernando Dourado

Fernando Dourado

Mãe com filho (autor desconhecido).

Fácil, fácil, não é. Sinto saudades quando ligo daqui de Paris e a tenho do outro lado da linha. Imagino-a vendo o verde de Parnamirim, lá do alto. Mais do que obrigação, trata-se mesmo é de afogar a alma em boas reminiscências, de tentar ver o mundo que ela está enxergando.

Mamãe. Sou eu. Tudo certinho?

“Oi, que surpresa boa. Da porta pra dentro, por enquanto está tudo bem”

Isso jé é muita coisa nesse tempos, mamãe. É meio desesperador o panorama, não é? Mas já me importa muito saber que a senhora esteja bem.

“Vamos levando direitinho, conversando com as pessoas ao telefone. Fico meio saturada de tempero desses restaurantes. Mas por enquanto não há o que fazer. Seu irmão me ajuda muito. E me conte daí. Como vai Paris?”

Tudo na mesma, mamãe. Nos próximos dias, completo 47 anos de amizade com a cidade

“Já? Tudo isso?”

Pois é, 47 anos desde a noite que vocês me deixaram no aeroporto do Recife. Bem dizer, foi um voo só de lá até hoje

“É verdade. E está saindo na rua ou ficando quieto em casa?”

Vou pela sombra, é claro…nada de metrô, elevador, essas coisas. Mas é importante andar, levar sol, arejar a vista. O perigo é essa meninada de skate, de patim. Mas eu não deixo que cheguem perto.

“Faz você muito bem. E está muito só?”

Que nada, mamãe. É como se tivesse treinado para esse momento a vida toda. Foram tantas as andanças pelo mundo. Lembro de temporadas de quase 50 dias na África, com toda uma vida boa a curtir em São Paulo. E mesmo assim ficava lá até o fim da empreitada. Foi um bom treino.

“Sei disso. Eu ia ficar em São Paulo com sua família, elas se sentiam tão abandonadas. Mas eu dizia: não adianta, é a missão de vida dele. Aliás, queria que Bia viesse ficar comigo, mas proibiram. Uma avó não poder ter a companhia da neta, é um castigo. E depois tem o cabelo ficando branco. Ainda bem que a vista não está lá essas coisas. Aí não enxergo a bagaceira.”

A senhora é bonita de todo jeito, mamãe. E logo essa porcaria vai passar, e a senhora vai ao cabeleireiro com Bia. Ânimo.

“Estou tentando. Vejo pouco televisão para não me deixar contaminar pelo noticiário ruim”

Faz bem. E a política?

“Na mesma. Aquilo é um cavalo doido, um desembestado. É um pobre de Cristo. Se ainda tem mãe, fico com pena dela, coitada”

Mãe, geralmente, esse tipo de gente teve. E as tias, como vão?

“Suas tias são meio desassuntadas. Peço para falar ao telefone e elas não sabem o que dizer. Nunca tinha percebido isso”

É que na conversa face a face o não-verbal compensa, mamãe. Quando o único recurso é a voz, aí complica. Quem é meio empulhado, empulhado fica. Lembra dessa expressão?

“Essa é das antigas para a sua geração. E ainda muito nova para eu usar.”

Queria lhe dizer uma coisa, mamãe. Numa boa, sem lamúrias.

“Pode falar, está precisando de alguma coisa, meu filho?”

Só de sua compreensão. Veja bem, eu tenho um monte de coisas para fazer na vida. Mas outras pessoas também tinham, e partiram.

“O que você quer dizer?”

Se me acontecer alguma coisa, mamãe, eu não queria lágrimas. Vivi 62 anos, tive vida de príncipe, fui educado por majestades – a senhora e papai. Não conheço ninguém que tenha visitado tantos países, namorado mulheres tão legais, e se realizado tanto no que fez. Alô, a senhora está aí?

“Estou, sim. Deixe de dizer besteira, meu filho. Você tem vocação para a vida, sua hora não vai chegar tão cedo.”

Mas eu queria só que isso ficasse estabelecido entre nós, mamãe

“Você está sentindo algum sintoma?”

Não, nenhum. E espero que ninguém lá em cima me pegue na palavra quando eu dizia que queria morrer em Paris. Erá só licença poética.

“Deus sabe reconhecer quando é força de expressão, meu filho.”

Ele anda muito ocupado para fazer triagem, mamãe. E mais: se morrer agora, morro sem amarguras. Aliás, sem ser santo, nunca soube o que era inveja ou ciúme

“Eu sei, você tem uma vida autoral, muito sua. Teve vezes que eu e seu pai achamos que tínhamos dado excesso de liberdade, deixando você sair de casa tão cedo. Mas o cativeiro não é mesmo seu forte, A gente não tinha opção.”

Isso mesmo, mamãe. Eu sou um filho do vento, a sensação de liberdade é o maior afrodisíaco que conheci. Se tiver que deixar esse mundo de fronteiras fechadas, vou com menos saudades. Fui filho da globalização. Ajudei a criá-la

“Mas não se preocupe, vá ver que você está imunizado e não sabe. Com sua rodagem, já está blindado”

Fique bem, mamãe. Pense na festa que faremos nos seus 90 anos

“Ainda falta, viu? O próximo é 89, por favor.”

Que saudades.

2 Comments

  1. Belíssimo!

  2. Dourado, amigo, saudações,

    Me soou bem, ouvir notícias da Sra. Luci, que tanto admiro e gosto.

    Mas, achei o texto um tanto quanto plagiado, de um outro – recente – artigo seu.

    Sei que a história é única e que não vivemos duas vidas.

    Mas, você pode mais.

    Aliás, muitíssimo mais.

    Paris está deixando você ficar preguiçoso??

    Vamos, amigo; ânimo, mexa-se!!

    A quarentena vai acabar, aqui também no Brasil, assim como já está acabando aí, no Velho Continente e, temos que trabalhar e produzir…

    E nisso, sabemos todos, sua capacidade é monstruosa.

    Cordiais saudações,

    Votos de estima e saúde.

    Abraço,

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