
O Discurso do Rei
No dia a dia, mal nos damos conta das vozes que nos cercam. Não costumamos, por assim dizer, dissociar forma e conteúdo. Não prestamos atenção a suas inúmeras características e formas de expressão. Eis um tema que, por vezes, faz a nossa imaginação se voltar, curiosa, para o passado, quando ainda não existiam recursos tecnológicos de gravação. E é sempre comovente quando, em museus especializados, ouvimos a voz de pessoas admiradas… Aqui, para entendermos melhor “o que há numa voz”, conto com algumas ponderações de um notável pesquisador, o antropólogo e linguista teuto-americano Edward Sapir, autor do pioneiro estudo “A fala como traço de personalidade”, de 1921 (Cf. “Linguística como ciência: ensaios”. Tradução de J. Mattoso Câmara Jr).
Sendo eu um modesto especialista “de carteirinha” em Guimarães Rosa, pois, sob a orientação de Ariano Suassuna, defendi uma dissertação de mestrado sobre o genial mineiro, tendo, ao longo dos anos, proferido sobre ele diversas palestras, confesso, sendo um eterno rosiano, que fiquei desapontado ao ouvir sua voz em um filmete que flutua na web. Voz e escritor parecem não combinar: aquela um tanto fina, macia demais, e este, um homenzarrão! Mais um paradoxo rosiano!
O caso de Rosa lembrará talvez o de Nabuco. Numa introdução à 10ª edição de “Minha formação”, publicada pela Universidade de Brasília em 1981, Gilberto Freyre registra sobre a voz “do maior dos pernambucanos” que há sobre ela o “[…] depoimento desfavorável de Oliveira Lima”, o que leva a deduzir-se que tal voz pouco parecia combinar com a figura de bonitão e bom de oratória do seu ilustre dono. Freyre, por sua vez, a quem já conheci idoso, tinha a meus ouvidos de jovem uma voz expressiva, demorando-se em algumas palavras como se as degustasse com raro prazer.
Em seu desbravador ensaio, Sapir confessa o que se passa com todos nós sem que tenhamos coragem de dizê-lo ou sem que disso desfrutemos uma clara consciência: uma voz pode determinar uma adesão ou repulsa àquele que a escuta. Ao ouvir uma palestra de um diretor de “college”, diz nosso linguista que sua impressão imediata foi a de que as palavras do conferencista não lhe despertavam qualquer entusiasmo, já que “[…] por mais interessantes e pertinentes que fossem as suas considerações, a sua personalidade nada me dizia, porque havia qualquer coisa na sua voz que não me atraía, qualquer coisa que se reportava à personalidade”. A voz, pondera Sapir, “é uma espécie de gesto”. É fenômeno tanto individual quanto social, e separar um aspecto do outro, acrescenta, “é algo bem difícil”. O certo é que a voz “é em grande parte uma simbolização inconsciente da atitude geral da pessoa”.
Na esfera pública, em particular no campo midiático e na vida política, o desempenho e as características da voz são essenciais. Num exercício prático, pensemos: como fala Lula? Como falava Vargas? E Brizola? E Carlos Lacerda? Como fala Donald Trump? O que suas vozes traduzem das respectivas personalidades? Que impressões cada uma delas transmite à nossa intuição? Voltando-nos para a primeira metade do século 20, vemos que, sob o aspecto social apontado por Sapir, muitos políticos brasileiros discursavam “cantando”, com a voz “tremida”, num estilo grandiloquente e que hoje nos parece estranho e até ridículo. Tancredo Neves, em 1985, eleito presidente, vinha de longe (tinha 75 anos) e, por vezes, também tremia a voz, não de medo da ditadura, digamos brincando, mas por cultivar o cacoete vocal e social de um tempo já passado.
Sempre fascinante, qualquer que seja (cada pessoa tem a que Deus lhe deu!), a voz, ainda que se canse e mude na velhice, é básica para “ouvirmos” e decifrarmos a personalidade de alguém. Mas, ao usarmos a nossa própria voz, fiquemos em guarda contra terríveis desenganos, porque, como parece nos advertir Proust, “Ao falar, imaginamos sempre que nos escutam com os nossos ouvidos, com a nossa alma”!…
Concordo que voz é parte importante, e que a voz pode ser chata, irritante, ou agradável, ou grossa, ou fanhosa, e também depende do gosato de quem está ouvindo. E ainda tem a coisa do sotaque, do qual a gente pode gostar ou não. Mas, no meu pragmatismo, pergunto: como a gente pode dar uma melhorada no físico com fisioterapia, não dá para dar uma melhorada indo no fonoaudiólogo?