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Penso, logo duvido.

Digressões miúdas sobre o mundo que vivi – Fernando Dourado

Fernando Dourado

Aula de cálculo.

Eu já visitara a Inglaterra por uns poucos dias em 1973. Passados três anos e bem mais rodado, agora tinha condições de avaliar o que me cercava com mais acuidade. Nada me chamava tanto a atenção quanto o apego dos ingleses aos centavos e as referências contumazes que faziam ao dinheiro. Eu ficava chocado com a forma escancarada com que eles se referiam a valores, fetiches de consumo, e com os paralelos que estabeleciam entre riqueza e classe social. A temática só não ganhava na preferência local para a meteorologia, tema invariável de qualquer conversa.

A paisagem britânica me parecia austera e quase decadente. Os trens eram precários quando comparados com os suíços ou alemães. O metrô obedecia a um sistema tarifário complexo, contrariamente ao valor único que vigia em Paris. É claro que a bizarra culinária local tinha um lugar proeminente na lista de perplexidades. As salsichas eram atrozes, os ovos empanados das estações ferroviárias eram um terror assim como os sanduíches de camarão miúdo com abacaxi, os morangos com pimenta-do-reino e as indefectíveis cervejas mornas, a que me acostumei com o passar do tempo.

Motivo de especial alegria foi privar do convívio de Fernando Henrique Cardoso e família. Bia, a segunda filha do casal, era minha colega de escola e era uma garota charmosa. Já vivera no Chile, falava um belo castelhano e era discreta e doce. Saíamos com alguma frequência e terminei privando da conversa bem-humorada de d. Ruth e da simpatia do futuro presidente, então professor visitante de assuntos latino-americanos. Ficava patente a vaidade dele. Lembro que certa feita ele cometeu um deslize em castelhano com um venezuelano amigo nosso. Bia o corrigiu na frente de todos e senti que não gostou.

*

O reencontro com o Recife foi feérico. Deixara um apartamento, uma família, um colégio, uma rotina e um ideário. Voltara com tudo isso revirado pelo avesso. Ao invés de reencontrar meu quarto de sempre no edifício Capibaribe, eis que meus pais e meu irmão já estavam regiamente instalados num prédio vizinho, de nome Montreal, cuja construção acompanháramos à distância, visto que fora erigido ao lado de nosso endereço de toda uma vida, na mesma rua da Aurora. Confesso que senti algum desconforto com o cenário, apesar de ter uma bela vista e uma ventilação primorosa.

Da família, bem, não posso falar de transformações muito radicais, salvo por um certo aburguesamento, na falta de expressão mais adequada. Meu pai tinha um belo carro, minha mãe se vestia com o esmero de sempre, mas havia no ar alguma coisa que me dificultava entender que aquela família era a mesma que eu deixara. De fato, ela já não era. E não tenho certeza se o novo quadro me empolgou. É obvio que a bonança não durou muito e meu pai e minha mãe não tardaram a perder a cerimônia e voltar a discutir sob qualquer pretexto. Ela esgrimindo a língua; ele, a empáfia e a força.

Como uma das primeiras medidas da nova ordem, meu pai me presenteou com um carro zero quilômetro e um pacote de lições na auto-escola. Tratava-se de um chevete modelo esporte, com um painel que mais se assemelhava ao de um avião pequeno. Eu confesso que jamais me ocorrera ter um carro, muito menos tão jovem. Meus amigos mais próximos, gente que estava começando a cursar a universidade, se virava para ajeitar um fusca de quebra-galho. Eu, de repente, me via aquinhoado – antes mesmo do vestibular – com um presente que, como eu veria, vinha carregado de significado.

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Depois do vestibular, viajei sem nem saber o resultado. Logo não tive aquela primazia de madrugar nas escadarias do jornal esperando que saísse a lista dos aprovados. Tampouco raspei a cabeça ou enverguei aquelas boinas para encobrir a calva reluzente. Viajei para Londres com minhas primas que ficariam internadas no LTC de Eastbourne, destino de algumas meninas nordestinas naqueles anos. Eu me comprometera com meus tios que as deixaria instaladas e que não se preocupassem. Ocorre que quando saímos um dia para almoçar, elas trouxeram uma amiga portuguesa muito especial.

Chamava-se Ana Filomena e estava pouco se lixando para a escola. Dizia que iria deixá-la a qualquer momento e que não nascera para confinamentos. Sei que um dia pedi mais uma garrafa de vinho branco e ela disse às minhas primas que voltassem para escola sozinhas que ela arcaria com as consequências. As gêmeas queriam me matar, mas eu só dizia cinismos. Fomos para meu hotel, a portuguesa quebrou um vidro ao tentar tirar a meia. Chegou no colégio tarde, bêbada, ferida no joelho e embora as amigas tenham dado um banho para recompô-la, a expulsão foi inevitável.

Eu bem que vinha gostando daquela rotina. Namorava também uma paulistana de nome M. e fomos uma ou duas vezes visitar seus parentes em Saint Johns Wood, em Londres. Eram judeus húngaros. Ali travara amizade com meu querido amigo Franklin Gonçalves, mas se impunha deixar a cidade. Eu estava sendo mal visto, as notícias corriam e eu sequer podia me aproximar da escola delas. Resolvi que chegara a hora de seguir caminho. Percorri os velhos países conhecidos, mas depois de Viena, as coisas mudariam. Era hora de adentrar um mundo novo, de romper as cortinas de ferro batido.

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O retorno a Israel esteve longe de ser marcante. Quando penso nele, me vem sempre à mente que, no fundo, persegui tenazmente a sensação de me propiciar tanto certas experiências, a ponto de querer torná-las quase banais. Nunca esqueço certa madrugada em que percorri de táxi as ruas de Paris praticamente vazias ao amanhecer. Se aquilo era um privilégio – tê-las só para meu desfrute -, por outro lado eu adubava interiormente a sensação de que o mundo já me proporcionara toda a gama de prazeres que podia. Diante disso, eu exercitava para meu próprio uso uma visão blasé e enfadada. Que idiotia.

Sei que esse simulacro de empáfia e tédio não é incomum nos jovens. Sei, ademais, que, depois de uma adolescência austera, eu me vira alçado a uma posição de relativa prosperidade material. Ou seja, gente que tinha mais dinheiro que nós havia aos montes; o que não tinha era montes de gente que canalizassem seus recursos para proporcionar aos filhos uma espécie de passeio permanente pelo mundo. Isso era raro, exclusivo e, bem entendido, gerava temores tanto entre educadores quanto nas pessoas de bom senso que associavam equilíbrio e felicidade a algum enraizamento.

Se querem saber, hoje não tiro a razão de nenhum dos lados, por mais que tenha ridicularizado e feito pouco caso das ponderações que defendiam essa linha. Mesmo para um rapaz que gostaria fundamentalmente de ser um internacionalista – o que quer que isso significasse – me vem a sensação de que me mirei em excesso naqueles apátridas desenraizados que via nos cafés parisienses, que pareciam estar em todos os lugares ao mesmo tempo e que não pertenciam a rigorosamente nada. Ainda hoje essa sensação me compraz, mas não é o único caminho possível.

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Minha experiência com professores de matemática sempre foi deplorável. Mesmo quando passei por instituições de excelência, o encontro com essa disciplina foi pífio; foram desencontros, a bem da verdade. Começou com o professor José Ramos, um mulato simpático que castigava o português, um fator de distanciamento emocional forte para mim. Depois veio a professora Rosilda, tida como boa pessoa, e que usava um pó de rosto compacto para lhe encobrir os sulcos da pele. O cheiro do perfume âmbar era nauseante. Ela misturava números e letras sem cerimônia e não explicava nada daquele milagre sob a chuva de giz.

Mais adiante, não sei bem em que série, apareceu o professor Élcio, negro como os precedentes, tido e havido como um homem de bem, amante das artes, do teatro e, salvo engano, pós-graduado na Bélgica. Um desastre. Enquanto garatujava a lousa, inchava as bochechas à guisa de Armstrong e ia rabiscando formuletas sem se preocupar em dar o mínimo contexto àquilo. Mas tanto infortúnio ainda era nada diante da procela que se aramava no horizonte. Se desses três professores o que se pode deplorar era a didática e minha inaptidão, o da faculdade era a negação de tudo.

Chamava-se M. e ensinava cálculo. Creio que ele era pai de uma menina que estudara na Aliança Francesa. De voz fina, desagradável, e de sensaboria aflorada, pobre homem, era um professor que juntava todos os defeitos dos anteriores com a leniência. Deixava quem quisesse colar à vontade, e só estava ali para salvar uns caraminguás. Isso me parecia tão óbvio que eu achava que ele sequer corrigia as provas. Deixei uma pela metade, sapequei qualquer coisa e fui reprovado. Precisava escolher as matérias doravante segundo o professor. Não voltaria a testar gente assim.

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