Le Suicidé  by Édouard Manet

 

No período mais crítico da lava-jato, toda semana ele me ligava, quase sempre às sextas-feiras. “Vamos almoçar?” E então nos encontrávamos num discreto restaurante da Bela Vista cujo dono era amigo de escola dele. Mais aliviado, ele desabafava enquanto sorvia a primeira caipirinha. “Que bom que você veio, rapaz. Agora tenho dois dias em paz. Como eles dificilmente fazem condução coercitiva às segundas, tenho três dias para respirar, para dormir bem. Na noite do domingo, de qualquer forma, recomeça o inferno.” Então, pela trigésima vez, ele me contava o que o preocupava. “Se eles me chamarem, vou dizer a verdade. Vou dizer que o ministro é meu amigo e que ele me designou para agendar as reuniões com o setor privado aqui em São Paulo. O que eu fiz foi lotar um auditório com empresários para ele passar o recado. Que mal pode haver nisso?”, perguntava. “Zero, rapaz, se ficou por aí, você está limpíssimo. Vamos fazer o pedido porque estou zonzo de fome.” Ele desdenhava o cardápio. “Peça você, eu vou pedir mais uma bebida. Mais tarde eu almoço. Sabe o que é? É que além dessa plenária, a gente teve também um ou outro encontro com uma turma mais pragmática, entende? E tem tanto filho da puta nesse meio que eu tenho medo de que alguém nos tenha gravado, que edite as falas e faça uso malicioso disso depois. Quando está tudo acontecendo, todo mundo é irmão, não é? Mas quando o bicho pega…”

 

Um dia ele falou que ia mudar de estratégia. “Já não se pode chamar isso de vida, rapaz. Eu vou dormir sedado toda noite, depois do Jornal Nacional. Às três da manhã, já tomo banho, me apronto e vou para a sala. Se eles acham que vão me levar de pijama, estão enganados. Eu já tenho uma malinha pronta com todos os remédios. Mas agora vou dar um basta nisso. Vou até a Polícia Federal sozinho e vou pedir para falar com o delegado do inquérito. Então conto tudo o que sei e acabou. Se ele quiser me prender, já fico direto lá. Se ele disser que eu estou limpo, vou voltar a nadar e dormir em paz. Nem meus filhos eu estou querendo ver.” O que dizer? “Pode ser uma boa, cara, já que você fica se martirizando o tempo todo. Há quanto tempo dura essa cantilena? Dois anos? Três? Mas ouça o advogado antes, não é? Eu continuo achando que você enxerga o que não existe.” Já perto de terminar a segunda dose, ele rebatia. “O advogado pensa como você. Acha que eu devo ir a um psiquiatra. Que não há motivo para me alarmar e que o que eu acho que foi transgressão, foi uma bobagem. Vou admitir, já fui ao psiquiatra. E sabe o que ele disse? Que eu tinha duas saídas. Tomar remédio para segurar a onda, o que eu me recuso a fazer. Ou procurar o advogado. Fica um jogando a peteca para o outro, entende? Dá um desespero.” Tive vontade rir. “Escreva sobre isso, faça uma espécie de antecipação de defesa antecipada, como se você tivesse que historiar todos os eventos. O exercício termina tendo uma função terapêutica. Vamos lá, peça alguma coisa para comer. Até para ir para a cadeia, você precisa estar fortinho.”

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Em julho, ele me ligou. “Como é que você aguenta ficar aí sozinho, longe de todo mundo? De que material você é feito, hein?” Então contei pela décima vez minha versão dos fatos. “Eu tinha a opção de voltar. Em tese, ainda tenho. Mas acho o Brasil uma roleta russa. Se tiver que morrer dessa coisa, prefiro que seja aqui. É como se morrendo aí, eu desse um gostinho ao capitão.” Ele tinha chegado ao limite. “Preciso pegar logo essa merda. Preciso ter a certeza de que estou imunizado. Não posso mais viver assim. No começo, a Claudia veio para cá e eu achei que a vida não podia ser melhor. Que quem tinha Netflix, tinha as chaves do paraíso. Mas de repente, ferrou de vez. Começamos a brigar, meu filho voltou a dar aqueles problemas de quem fuma o que não deve o dia todo, e eu vi os negócios se esfacelarem. Coisas que estavam apalavradas, viraram pó. Só tenho saída se voltar ao mercado, se for a Brasília, se me articular, se entrar na dança. Tenho portas abertas com o Paulo e com quem mais quiser. Mas sem me locomover, está difícil. Fico imaginando essa doença, cara. É terrível, eu sei, mas tem também uma versão mais branda, não é? Pelo menos aqui. O que você acha?” Respirei fundo. “E como é que você pretende pegar isso?” “Isso é o mais fácil. Vou a um culto de igreja, entro num shopping, embarco num elevador cheio de gente. E então o que tiver que ser, será.” Fiquei pensando em como um homem tão brilhante pode ter ideias tão irracionais. “Eu acho má ideia. Todos nós vamos pegar isso mais adiante. Melhor que seja quando os protocolos cobrirem todos os casos de morbidade, como minha asma e teus probleminhas de diabetes. Não vamos ter vacina amanhã, mas as chances de morrer já são bem menores do que eram em fevereiro.”

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Semana passada, Roberto, amigo que também é ligado a ele, telefonou. “A notícia não é boa, rapaz. Mas nosso D. já não está entre nós. Quando chegou ao apartamento dele em Londrina, a coitada da faxineira viu um bilhete na porta, sugerindo que não entrasse, que chamasse o porteiro. Mas a mulher não resistiu e foi verificar. Ele estava deitado no sofá e as manchas de sangue batiam no teto. Nenhum vizinho diz ter ouvido nada. A namorada dele tinha vindo passar uns tempos, mas já tinha voltado para São Paulo. Lamento dar a notícia ao amigo.” Então saí para um longo passeio. Nessas horas, só uma caminhada alivia. Quando veio trabalhar comigo, D. estava se separando da primeira mulher. Saíamos do escritório para tomar um drinque e ele me contava dos começos felizes, quando conciliava a FGV com um estágio na Unilever. Depois veio a temporada nos Estados Unidos e a contratação pela lendária indústria química. Foi na volta o Brasil que recrutei-o. Mesmo nos bons momentos, havia em meu amigo uma espécie de açodamento, uma inquietação que parecia sugar-lhe a alegria de viver. Uma vontade de botar tudo preto no branco. Quando me falou que queria se estabelecer como consultor, à época em que FHC foi para o segundo mandato, disse que ele fazia bem. Que regrasse o estilo de vida que levava, que era caro, para não passar por apuros nem comer as reservas. Há dois anos, estava morando no interior do Paraná, aparentemente em paz consigo mesmo. Fica o registro de minhas saudades a um homem atilado, certamente, e que nem sempre reagiu bem às injunções de seu tempo. Conforta saber que ficaram para trás os tormentos que infernizaram sua vida nos últimos 15 anos.