
Desenvolvimento
Muitos afirmam que o problema do Brasil é a ausência de um Projeto de Desenvolvimento. Ouso discordar. Na transição para o atual governo, a meu ver, foi elaborado um plano consistente, com Missões voltadas para resolver os principais problemas nacionais, objetivos claros e metas realistas. Áreas como educação, saúde, inovação, combate à fome, geração de empregos de qualidade e moradia digna são tratadas de forma concreta, com propostas viáveis.
Se é assim, por que o avanço ainda é lento?
Há diversos fatores, mas dois entraves se destacam: a guerra política e a polarização radical da sociedade, e a dificuldade de financiar o planejado. Sobre o primeiro, especialistas já se debruçam com profundidade. Foco, portanto, no segundo.
O Brasil é um país profundamente desigual, tanto em renda quanto regionalmente. Nossa dívida pública não é descomunal frente à de outros países, mas está concentrada nas mãos de capitais que exigem juros excessivamente altos. Em outras palavras, financiar o projeto desenvolvimentista requer limitar fortemente a remuneração da dívida pública, que hoje compromete a execução dos programas.
Emitir moeda poderia ser uma alternativa, mas é inviável neste contexto: geraria pressões inflacionárias em uma economia já em crescimento e enfrentaria resistência do capital financeiro, agravando a instabilidade política.
Assim, algumas opções precisam ser analisadas com urgência.
O primeiro ponto é enfrentar o nível escorchante da taxa Selic. Ela interessa aos rentistas, mas impõe elevado custo à dívida pública e desestimula investimentos. O Banco Central e o Conselho Monetário Nacional precisam rever a meta de inflação e adotar políticas que criem expectativas positivas, como sugere a Nova Teoria Monetária. Uma redução já da Selic é essencial para elevar o patamar de investimento direto.
O segundo ponto é a justiça tributária. Estudos do World Inequality Database mostram que o 1% mais rico detém mais de 50% da renda nacional, mas paga proporcionalmente menos impostos que assalariados. Além disso, quase metade da arrecadação vem de tributos sobre o consumo, penalizando mais os mais pobres. A proposta do Ministério da Fazenda de taxar grandes fortunas (acima de R$ 1 milhão anuais) e dividendos é justa, mas enfrenta barreiras políticas e corporativas no Congresso.
Outro caminho é reduzir a dependência do dólar nas relações internacionais. Seguir exemplos como o da China, que adota cestas de moedas em negociações com países da Ásia, pode abrir espaço para maior expansão comercial e investimentos produtivos. No caso brasileiro, financiamentos de longo prazo com parceiros estratégicos — como os oferecidos pela China — poderiam resolver gargalos de infraestrutura a custos muito menores que os praticados nos mercados financeiros atuais, evitando a emissão de títulos com juros altos.
Com parcerias produtivas bem escolhidas e financiamentos externos competitivos, programas como o PAC poderiam ser viabilizados sem agravar a dívida pública.
Em síntese, é possível financiar o desenvolvimento desejado, mas isso depende de uma decisão política firme: deixar de ser refém do capital rentista. Não há fórmula única, apenas alternativas que exigem coragem para serem implementadas.
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