
Repressão na Argentina
O escritor e colunista argentino Marcelo Gioffré, que sabidamente kirchnerista não é, apareceu esta semana no diário portenho “La Nación” com uma frase: “Con Trump, estamos aspirando a ser una colonia próspera”. Será sua conhecida irreverência ou acreditará mesmo que a “nova política de financiamento do desenvolvimento” de Trump pode funcionar? De qualquer modo é espantoso como a campanha eleitoral para as eleições de deputados e senadores nacionais neste domingo 26 de outubro parece tomada pela discussão sobre US$ 20 bilhões – quem sabe US 40 bilhões – que a administração Trump ofereceu ao governo da Argentina para pagar dívidas soberanas que vencem daqui pra frente, já no próximo ano.
É preciso estudar os detalhes e condições dessa intervenção cambial de Trump às vésperas das eleições. Não é por acaso que Gioffré falou de “colônia”. E tampouco é por acaso que os protestos mais veementes contra tal uso de 20 ou 40 bilhões de dólares vieram de dentro dos Estados Unidos, desde exportadores de soja a jornalistas do “Washington Post”.
Pode ser – como vi alguém escrever – que Trump esteja fazendo isso “porque gosta de Milei e não entende de economia”. Só que as contradições da geopolítica com a geoeconomia não estão nada simples. E além disso há tantos vetores que influenciam esta eleição – até um nome que precisava ser trocado na cédula eleitoral de Cidade Autônoma de Buenos Aires – que não se pode dizer com certeza que efeito terá esta intervenção cambial do Tesouro americano, se funcionará a favor ou contra Milei nesta eleição. Mesmo porque há dúvidas sobre se conseguirá estabilizar a taxa de câmbio peso/dólar na semana da eleição e impedir em outubro o aumento da inflação, que foi 2% no mês de setembro, igual aos 2% de agosto. Para o ano de 2025, as projeções de inflação estão em 29%, melhoria respeitável frente aos 212% de 2023.
Estas eleições de outubro renovam 24 senadores e 127 deputados para o parlamento nacional. É preciso atenção para a distribuição demográfica única, a razão pela qual sempre se fala da especial importância eleitoral de Buenos Aires: de uma população total de 47,1 milhões na Argentina, nada menos de 17,7 milhões (ou cerca de 47%) estão na província de Buenos Aires (dados de 2024). Além disso a capital, Cidade Autônoma de Buenos Aires, constitui um distrito eleitoral separado do distrito eleitoral que é a província de Buenos Aires. São 24 os distritos eleitorais: 23 províncias e a Cidade Autônoma de Buenos Aires, que nos seus limites legalmente definidos tem uns 3 milhões de habitantes. Mesmo assim, as províncias têm influência e poder político que importa nas decisões nacionais.
Segundo o calendário, apenas 7 das províncias além de Cidade Autônoma de Buenos Aires renovarão suas bancadas de senadores, cada uma elegendo três senadores para o Senado nacional. E 21 províncias mais Cidade Autônoma renovarão 127 deputados do legislativo nacional, em número de deputados proporcional à população de cada distrito eleitoral. Aqui, de novo, a importância da concentração da população: província de Buenos Aires elegerá 35, Cidade Autônoma de Buenos Aires 13, e assim sairão de Buenos Aires quase 40% dos novos deputados. Por isso é que que o mau resultado de LLA (La Libertad Avanza), o partido de Milei, nas eleições de 7 de setembro para o legislativo portenho provocou mais desconfiança sobre o futuro do que denúncias de corrupção que atingem a conselheira-mor do Presidente da República.
Para interpretar o resultado ainda será preciso levar em conta que algumas províncias terão eleições locais no mesmo dia das nacionais. Outras províncias marcaram as eleições para o legislativo local em dias separados da eleição nacional de 26 de outubro. E outras ainda, já realizaram suas eleições locais, como o referido caso de Cidade Autônoma de Buenos Aires, onde LLA obteve apenas 30% do voto, o que teria detonado a crise cambial, com a corrida ao dólar.
Quando se lembra que Milei ganhou contra Massa com 55% do voto em 22 de outubro de 2023, essa marca local de menos de 1/3 na capital instalou a incerteza, a desconfiança sobre a continuidade do programa de reformas do Presidente Milei. Em outras províncias que também já tiveram eleições locais, como Salta, Chaco, San Luis, LLA teve mais de 1/3 dos votos. Mas “Fuerza Patria”, a coligação kirchnerista, teve 47% do voto em Buenos Aires neste 7 de setembro, interpretado como desgaste geral do governo nacional. E já se disse que é quase um reflexo condicionado dos argentinos: em caso de incerteza, alguma sensação de dúvida sobre o que virá, trata de guardar dólares. Mais importante, havia a percepção (correta) de que o governo está mantendo a taxa de câmbio numa banda insustentável, no esforço de conter a inflação antes das eleições. O Banco Central da República Argentina (BCRA) já havia vendido volumes recordes de dólares em setembro, para sustentar a banda. Projeções sobre valor do peso no futuro indicavam uma desvalorização inevitável, alimentando a fuga de capitais. Ou a banda teria que ser alterada para uma desvalorização controlada, ou poderia até mesmo haver livre flutuação.
Instalada a nova crise cambial argentina em setembro, surgiu a notícia do plano de ajuda do Tesouro dos Estados Unidos. O Secretário do Tesouro Scott Bessent, alegando que a Argentina é “um aliado sistemicamente importante”, interveio no mercado de câmbio comprando pesos e ofereceu uma linha de crédito emergencial na forma de um swap” de US$20 bilhões. Milei agradeceu o “apoio incondicional”. Momentaneamente isso acalmou o mercado de câmbio (isto é, arrefeceu a corrida para trocar ativos em pesos por ativos em dólares). E surgiu a pergunta de qual seria a motivação para uma interferência que não tem qualquer lógica econômica. E sobretudo a pergunta de quanto tempo duraria a generosidade do Tesouro americano, pois a calma no mercado cambial durou pouco, e é mais ou menos consenso que haverá uma desvalorização passada a eleição, independente do resultado.
Trump respondeu parcialmente à indagação ao receber Javier Milei na Casa Branca em 14 de outubro: “Se ele não ganhar, não vamos perder nosso tempo.” A condição para a ajuda futura era que os eleitores argentinos apoiassem seu presidente. Gente da equipe de Milei se apressou em amenizar o estrago, explicando que Trump estaria se referindo às eleições presidenciais de outubro de 2027. O Secretário do Tesouro Scott Bessent alguns dias depois declarou que a condicionalidade não se referia a eleições, e sim, a medidas de política econômica. Quando se justificou, Trump já devia ter conhecimento dos técnicos e políticos tanto no movimento MAGA quanto na oposição que protestaram contra o “desperdício” com a Argentina à custa de impostos sobre contribuintes dos Estados Unidos.
Críticos nos Estados Unidos consideram o resgate da Argentina um insulto aos exportadores de soja dos Estados Unidos, porque a Argentina passou a exportar para a China a soja que esta parou de comprar dos Estados Unidos, em reciprocidade ao tarifaço. Um quarto das exportações americanas de soja ia para a China, mercado que a Argentina abocanhou. O próprio Secretario de Agricultura de Trump, Brooke Rollins, teria se queixado dessa situação. Há também a acusação de ilegalidade do resgate, pois o Departamento do Tesouro dos EUA só pode usar recursos do “Exchange Stabilization Fund (ESF)” caso os problemas financeiros da Argentina forem uma ameaça à estabilidade do dólar. E o que o Tesouro vai fazer com os pesos que recebe no “swap”? Além disso, o “swap”, a troca de moedas (insuficiente para cobrir o serviço da dívida externa da Argentina, pública e privada) beneficiaria apenas investidores que compraram bônus argentinos em 2024 e depois do acordo de abril com o FMI, apostando no sucesso da “motosserra” e no cumprimento das recomendações do FMI de maior liberalização cambial e juros reais compatíveis. De fato, os papeis da Argentina subiram em Wall Street quando Bessent anunciou o “swap” de US$20 bilhões, e a seguir anunciou articulações para obter mais US$20 bilhões de fundos privados. Mas a recuperação não durou.
Em comparação, não há notícia de grande indignação na Argentina. Quem falou em “colônia” é mais irônico que indignado. É verdade que surgiram algumas reclamações sobre a “venda do país”. Cristina Kirchner, ao comemorar o “Dia da Lealdade Peronista”, este 17 de outubro, bradou “Hoy es Bessent o Perón”, recordando que em 1945 a Argentina teve “Braden o Perón” na campanha eleitoral, contra a intervenção estrangeira. Braden era o embaixador dos EUA e em 1945 Perón venceu. Não vai funcionar 80 anos depois, por motivos vários, nem só porque a Kirchner está presa condenada por desvios em contratos de obras públicas. Houve mais preocupação com a duração do efeito dos anúncios de ajuda americana. A uma semana da eleição, o “La Libertad Avanza” de Milei estava ligeiramente à frente de “Fuerza Patria” da Kirchner em pesquisa de opinião. Mas o quadro partidário é complicado, as coligações variadas, além de forças políticas que se expressam só nas províncias. Desentendimentos entre a “diplomacia presidencial” de Milei e seus chanceleres, de Diana Mondino a Gerardo Werthein, não ajudam na atual campanha. Fora a aposta de Trump, ou aquela que diz que faltam alternativas a Milei, não sei como andam as apostas.
Pode ser que de imediato os US$20 bilhões de Bessent não tenham impacto significativo nas eleições de domingo. No longo prazo, assustam mais as implicações geopolíticas da aposta de Trump. O presidente dos Estados Unidos considera Milei seu principal aliado ideológico na América Latina. Mesmo assim ninguém esperava que Trump fosse ajudar algum país em crise financeira. Há analistas que pensam que esta ajuda inédita do Tesouro americano, interferindo abertamente nas eleições de um país aliado, marca uma transformação da política de assistência internacional dos Estados Unidos. Não mais USAID ou outras verbas para programas de assistência social ou ajuda ao desenvolvimento e alivio da pobreza. O orçamento da USAID passou para o Departamento de Estado. Não mais contribuições para organismos multilaterais como FMI e Banco Mundial, e outros, que têm suas próprias condições para financiamento ou apoio acordadas em seus estatutos. Trump está exigindo mudanças nas instituições multilaterais para impor seus desígnios.
A nova “política de financiamento do desenvolvimento” (ou a nova “diplomacia financeira” como foi denominada no “The Economist”) é de estrita defesa dos interesses geopolíticos dos Estados Unidos. Ajuda de agora em diante será só para aliados ideológicos, líderes que controlam alguma coisa que o Presidente Trump quer obter, e países que ele espera afastar da China. Essa nova “diplomacia financeira” está sendo analisada por especialistas em finanças. (Ver o sarcasmo de “The Economist” de 04/10/2025, p. 61, “Learning to love aid”.) Trump estaria “aprendendo a amar ajuda”. E também por cientistas políticos que ajudaram a reformular a política de relações internacionais de Trump como estratégia de reciprocidade. (Ver Oren Cass, “A Grand Strategy of Reciprocity: How to Build an Economic and Security Order That Works for America”, novembro/dezembro 2025, pp.28-43)
Ainda não está claro como vai funcionar essa tal “reciprocidade”, pois o pressuposto é que os outros países sempre queiram ser aliados dos Estados Unidos. Mas quem vai comprar a soja da Argentina? Exportar mais é mais relevante que um empréstimo mais. Não proponho desprezar a “ajudinha”, só quero saber se a Argentina conseguirá algum benefício duradouro como caso de teste da nova “diplomacia financeira” dos Estados Unidos.
SP 23/10/2025
Bom artigo. Analisa bem o que está acontecendo com Los Hermanos.